A entrevista a seguir foi concedida à agência Sputnik Brasil e publicada em 23 de fevereiro de 2026. Nela analiso o momento singular da cultura brasileira no cenário internacional. Diante de um Carnaval recordista de público e do bom momento do cinema nacional, o debate foca em como o Brasil pode converter estética em soberania. Aqui publicação no site Sputinik sob o título Cinema e Carnaval: Brasil ganha o mundo e consolida sua diplomacia cultural, avaliam analistas .
O Brasil recebeu no Carnaval deste ano um número recorde de turistas estrangeiros. Durante o período de folia, o país recebeu 300 mil visitantes estrangeiros, um crescimento de 17% em relação a 2025. Nas redes sociais, a festa brasileira virou tendência entre estrangeiros e jornais de fora repercutindo a cultura brasileira. Como a festa fortalece o soft power brasileiro?
Num mundo marcado pelo avanço da xenofobia e da intolerância, o Carnaval brasileiro projeta a imagem do país como um espaço de convivência multicultural e de celebração da diferença. Claro, sabemos que isso não reflete plenamente a realidade, pois convivemos com o racismo, a violência e a polarização política, mas é justamente por isso que a festa se torna um ativo valioso. Quando bem aproveitada pela política externa, ela pode atrair não apenas turistas, mas também investimentos e parcerias internacionais, reforçando o soft power brasileiro. Este ano, por exemplo, vimos que a festa atraiu novamente a presença de celebridades globais e foi retratada em importantes veículos de imprensa, que destacaram o Carnaval como um símbolo de resistência e alegria. É mais uma oportunidade para o Brasil se posicionar como um polo de diversidade em tempos de fechamento cultural.
O Carnaval brasileiro tem potencial para influenciar a população de outros países em pautas defendidas pelo Brasil ou reafirmar a valorização nacional frente as investidas político-culturais ocidentais?
A cultura brasileira tem um potencial único de irradiação, mas hoje, infelizmente, esbarra em dois desafios estruturais: o capitalismo de plataformas, que fragmenta a comunicação em bolhas de intolerância, e a velocidade da desinformação, que obscurece a sua positividade. Ainda assim, o Carnaval e a cultura, de modo geral, seguem sendo ferramentas diplomáticas poderosas. O Brasil precisa atuar em duas frentes: internamente, resgatando sua identidade plural e repactuando seu “pacto de destino”; e, externamente, projetando uma imagem de sociedade livre e diversa, não como retórica, mas como exemplo concreto. A formação social brasileira e sua cultura influenciaram debates globais no passado, como o Projeto UNESCO sobre relações raciais nos anos 1950, que ajudou a pautar políticas públicas em países como os EUA e nações africanas. Hoje, podemos retomar esse papel, mas é preciso superar os algoritmos que ditam o que é visto ou invisibilizado no mundo.
Como o governo brasileiro pode aproveitar a boa repercussão internacional da festa, somada ao desempenho do cinema nacional, para “exportar” pautas brasileiras?
O Brasil pode, sim, usar a repercussão do Carnaval e do cinema nacional para exportar pautas, mas isso depende de duas frentes. Internamente, precisamos dar o exemplo ao combater o ódio nas redes, reduzir a polarização e reafirmar uma identidade nacional que, no século XX, articulava diversidade e resistência, como mostram desde o Tropicalismo até a Política Externa Independente. Externamente, é possível articular essa cultura com iniciativas diplomáticas, como parcerias com países africanos ou a atuação em fóruns como a UNESCO. O cinema brasileiro, por exemplo, já levou debates sobre desigualdade (Cidade de Deus) ou resistência cultural (Bacurau) para o mundo. O Carnaval, por sua vez, pode ser usado para discutir liberdade de expressão em contextos autoritários. Mas, sem coerência interna, qualquer projeção cultural corre o risco de ser folclorizada ou ignorada.
Qual a diferença entre o momento de ascensão atual da cultura brasileira e o registrado na década de 1940, na vigência da Política de Boa Vizinhança, que popularizou símbolos como Cármen Miranda e Zé Carioca?
Nos anos 1940, no contexto da Política de Boa Vizinhança, o Brasil foi reduzido a uma caricatura tropical para agradar ao público norte-americano, não para refletir quem realmente éramos. Naquela época, éramos um país ensaiando a modernização. Hoje, apesar da desindustrialização e de elites muitas vezes alienadas da terra e do povo, somos uma nação urbana, com uma cultura única, dinâmica e com grande capacidade de espelhar a própria existência. A diferença é que, agora, não dependemos apenas de Hollywood ou da Disney para nos projetar. Ironicamente, o mesmo capitalismo de plataformas que divide e atormenta permite que nossa música, nosso cinema e nossas ideias cheguem ao mundo de forma mais autônoma. No entanto, isso não é suficiente. O Brasil carrega o passado nas costas e enfrenta o dilema de decidir o seu próprio destino. Para ser um ator influente em um mundo multipolar, precisamos usar nossa unidade identitária para projetar uma cultura de paz, tolerância e inovação. Se nos anos 1940 éramos um “exótico” útil aos EUA, hoje podemos ser uma ponte no Sul Global, liderando pautas como diversidade, meio ambiente e democracia.
