Categoria Diário

No bar, a solidão e o fascismo: um relato sobre a morte do diálogo

O bar, espaço por excelência de encontros e ilusões festivas, transformou-se em espelho da barbárie cotidiana. Nele, a solidão não é apenas um sentimento, mas uma prisão; não pela ausência de pessoas, mas pela impossibilidade de diálogo, o primeiro passo para a morte do espaço público e a ascensão do fascismo que se esgueira pela vida real. Quando o chopp é pago antes do fim e a conversa se esvai em ódio fabricado, resta apenas a sensação de que tudo está perdido.

O São Paulo está linchando o próprio futuro

Jean Valjean foi perseguido por Javert por roubar um pão. Roger Machado é vaiado no Morumbi por aceitar um emprego. A diferença? Valjean tinha Victor Hugo para contar sua história. Roger tem apenas a fúria de uma torcida que, ao sacrificá-lo, está queimando o estádio por dentro.

Março de 1976

A história avançava sob a sombra das ditaduras, e eu, uma criança em Araraquara, vivia entre a escola, o futebol e o catecismo. Enquanto generais e torturadores escreviam com sangue as páginas da América Latina, minha vida se resumia a partidas de botão com Evandro Malara, as aulas no Antônio Joaquim de Carvalho e os gols imaginários no estádio municipal. Só mais tarde entenderia que, em tempos sombrios, a infância é um refugio.

Ratinho, o Torquemada de botequim

Em um país onde a televisão há décadas transforma a miséria em espetáculo e a política em circo, não surpreende que um ex-feirante enriquecido, donatário de concessões públicas e pai de um governador, use seu programa para vomitar preconceitos contra minorias. O que espanta é a naturalidade com que a sociedade aceita que um bufão como Ratinho encarne o pior do homem médio brasileiro: ignorante, endinheirado e certo de que o dinheiro compra até o direito de definir quem é mulher.

Oliver Twist em Buenos Aires: o tecnofeudalismo e a agonia do bem-estar social

Enquanto os algoritmos aceleram a marcha do 'tecnofeudalismo', a Argentina de Javier Milei busca no passado a fórmula para o futuro do trabalho. Ao resgatar jornadas exaustivas e desmantelar redes de proteção social, a nova legislação portenha ignora as conquistas do século XX e faz ecoar as denúncias de Friedrich Engels em 1845: a transformação da vida humana em mera engrenagem descartável de uma guerra social.

A democracia atacada pela mentira e pelo fundamentalismo

A democracia está sob ataque coordenado. De um lado, a mentira institucionalizada, blindada pela imunidade parlamentar e amplificada por algoritmos que lucram com o ódio. Do outro, o fundamentalismo religioso, que transformou o Congresso em trincheira de uma moral seletiva, subvertendo a laicidade do Estado e criminalizando direitos.