O deus secular da Faria Lima e Flávio Bolsonaro, o herói da moralidade privada

O deus-dinheiro tem novos profetas: Flávio Bolsonaro, o herói da moralidade privada que pede esmolas a banqueiros investigados, e o mercado, que oscila ao sabor de manchetes. No Brasil de 2026, a corrupção não é exceção, mas o sistema em pleno funcionamento.


Ele [o dinheiro] é a meretriz universal, o alcoviteiro universal entre homens e nações.
[…] o poder divino do dinheiro reside em seu caráter como a espécie alienada e auto-alienadora do homem. Ele é a força alienada da humanidade.

Karl Marx

Em poucos dias, Estados Unidos, México e Canadá sediarão mais uma Copa do Mundo de futebol. Faz pouco mais de uma década, em 2014, o Brasil também recebeu o torneio. Na ocasião, em meio a protestos contra os gastos públicos destinados à construção dos estádios e da infraestrutura necessária para o evento, adensou-se a onda anticorrupção, que serviu para o fortalecimento da extrema-direita e a criminalização da esquerda, conduzindo ao atual cenário de descrédito na democracia e sabotagem institucional.

A mídia corporativa – especialmente a Rede Globo e veículos como a Veja – cumpriu papel decisivo na seletividade da pauta anticorrupção. Enquanto escândalos envolvendo petistas ocupavam telejornais e produziam capas, as rachadinhas de Flávio Bolsonaro, por exemplo, conhecidas desde 2018, foram tratadas sem a mesma ênfase. Assim, o discurso da moralidade serviu para criminalizar a esquerda, levando ao poder justamente aqueles que hoje escancaram a corrupção sistêmica.

A patota que faz do Congresso um circo e se curva às oligarquias econômicas daqui e de fora despreza o mais comezinho conceito de justiça. Para eles, o mercado não conhece limites morais. Tudo pode, inclusive, desgraçar o destino da sociedade política. A ideia de que o governo não existe para benefício privado, mas para promover o bem comum, e de que este depende da oferta de bens sociais lhes é estranha. Alimentação, saúde, educação, segurança, moradia, previdência, lazer e o simples descanso são só para quem pode pagar. Os outros que se lasquem e, se buscarem algo sem a mediação do dinheiro, lhes restará a eliminação (“bandido bom é bandido morto!”). É a ideação de um tipo de estado de natureza, com base na guerra de todos contra todos.

Flávio Bolsonaro é apoiado pelo mercado. E é fácil comprovar isso: manchetes de jornal prejudicando a sua candidatura foram suficientes para fazer oscilar para cima o dólar e assanhar a Faria Lima. Pois bem, este herói da moralidade e da pauta anticorrupção fez o pai, quando presidente, falar em reunião ministerial que interviria na Polícia Federal para não deixar investigar os seus. E é o mesmo que enfrenta suspeitas antigas de desvio de dinheiro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (caso das “rachadinhas”1) e compra de mansão que excede os seus recursos.

Agora, o presidenciável, cuja experiência é ter dirigido uma pequena loja de chocolates2, pede dinheiro a um banqueiro investigado por crimes financeiros. E faz isso na condição de Senador da República, mas afirma que é tudo lícito: uma transação entre privados para o financiamento de um filme cujo título, Dark Horse, remete a algo como “O Azarão”3.

De fato, assim como a vitória do pai não foi fruto do azar, mas sim construída pelo poder do dinheiro, que afastou da disputa, graças ao conluio das oligarquias econômicas, da mídia e de setores da justiça, o candidato favorito, o filme também não é inocente, pois seria uma peça publicitária de campanha a ser lançada no segundo semestre deste ano, em pleno período eleitoral.

A extrema-direita adora o dinheiro. E é aqui que a crítica de Marx faz sentido. Para gente como os membros do clã Bolsonaro, cuja vida é dedicada a enriquecer com base em mandatos políticos4, o dinheiro é um fim em si mesmo e, também, um instrumento de dominação. Ele não é o resultado de relações sociais, mas o instrumento de poder que oferece a quem o detém o controle do Estado, da mídia e da sociedade. Com ele, o verdadeiro deus, todos os seres humanos são descartáveis. É isso o que Flávio Bolsonaro demonstra ao se afastar daquele que qualificou como “irmão” nas ligações interceptadas pela Polícia Federal. O banqueiro decaído, de alguém próximo e íntimo, tornou-se um estranho qualquer. Quase lixo.

Para gente deste nível moral, que parasita a representação, mas é absolutamente alienada de sua função pública na democracia sob a Carta Constitucional de 1988, o que interessa é o dinheiro. Este compra poder, influência e imunidade. É assim que a oligarquia econômica, que oculta os CPFs sob a designação genérica de “mercado”, manipula a ordem pública conforme o seu interesse privado, sabotando as instituições, generalizando a corrupção e destruindo o futuro comum.

Quremos uma sociedade em que tudo esteja à venda? ou será que existem certos bens morais e cívicos que não são honrados pelo mercado e que o dinheiro não compra?

Michael J. Sandel

O dinheiro, um deus que reclama reprodução, exige ajustes fiscais. Os sacrifícios humanos, quando se cortam direitos sociais e trabalhistas, são tolerados pela teologia dessa religião financeira que junta extremistas de direita e os seres aberrantes das bancadas da bíblia, da bala e do agronegócio. O que não serve ao capital não tem valor. As pessoas que não podem pagar, que envelheceram ou adoeceram, são ônus, descarte. Não têm a bênção divina. Não servem sequer como mão de obra ou consumidores para a reprodução e acumulação.

Caminhamos para a prostituição universal e isso já não choca. Doações de campanha, dízimos que enriquecem pastores, perdões a sonegadores, lobbies e filmes financiados por banqueiros investigados são as cerimônias cotidianas de uma sociedade rendida ao deus-dinheiro, imersa nas bolhas digitais e anestesiada pela próxima Copa do Mundo. Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro não são anomalias. São o sistema em pleno funcionamento.


Notas

  1. O Senador Flávio Bolsonaro se livrou das acusações de rachadinha sem ter sido julgado em 2021. Matéria publicada pelo site UOL explica: “Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça acolheu um recurso da defesa do senador e anulou as decisões da Justiça do Rio na investigação, por entender que elas não foram tomadas pelo juiz certo para julgar o caso. Para o STJ, a investigação deveria ter sido conduzida pelos desembargadores do TJ-RJ e não por um juiz de primeira instância, como ocorreu. […] Em novembro do mesmo ano, o STF anulou os relatórios do Coaf que embasaram a acusação. Foram estes relatórios que expuseram a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão de Fabrício Queiroz entre 2016 e 2017. Queiroz é um PM aposentado que era chefe de gabinete de Flávio na Alerj. Flávio e Queiroz sempre negaram as acusações. […] Decisão de Gilmar Mendes anulou os relatórios. Ministro considerou que compartilhamento de informações com o Ministério Público do Rio de Janeiro foi ilegal por não haver nenhuma investigação autorizada contra Flávio quando os relatórios foram enviados ao MP. Decisão foi chancelada pela Segunda Turma do STF.” Decisões do STJ e STF livraram Flávio Bolsonaro do caso das rachadinhas. Por Mateus Coutinho.  UOL. 06/12/2025. Disponível em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/12/06/decisoes-do-stj-e-stf-livraram-flavio-bolsonaro-do-caso-das-rachadinhas.htm > Acesso em 16/05/2026.   ↩︎
  2. Loja de chocolates de Flávio Bolsonaro recebeu depósitos sucessivos em dinheiro e com mesmo valor entre 2015 e 2018. Por Arthur Guimarães, Felipe Grandin e Paulo Renato Soares. Jornal Nacional e G1 Rio. 20/08/2020. Disponível em < Loja de chocolates de Flávio Bolsonaro recebeu depósitos sucessivos em dinheiro e com mesmo valor entre 2015 e 2018 | G1 > Acesso em 16/05/2026. ↩︎
  3. Vorcaro, rachadinha e milícia: os fantasmas que rondam a campanha ‘moderada’ de Flávio Bolsonaro. Por Mariana Schreiber Role. BBC News Brasil. 14/05/2026. Disponível em < https://www.bbc.com/portuguese/articles/crmpv9r7mz9o > Acesso em 16/05/2026. ↩︎
  4. “Desde os anos 1990 até os dias atuais, o presidente, irmãos e filhos negociaram 107 imóveis, dos quais pelo menos 51 foram adquiridos total ou parcialmente com uso de dinheiro vivo, segundo declaração dos próprios integrantes do clã”. Metade do patrimônio do clã Bolsonaro foi comprada em dinheiro vivo. Por Thiago Herdy e Juliana Dal Piva. UOL. 30/08/2022. Disponível em < https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/08/30/patrimonio-familia-jair-bolsonaro-dinheiro-vivo.html > Acesso em 16/05/2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *