A história avançava sob a sombra das ditaduras, e eu, uma criança em Araraquara, vivia entre a escola, o futebol e o catecismo. Enquanto generais e torturadores escreviam com sangue as páginas da América Latina, minha vida se resumia a partidas de botão com Evandro Malara, as aulas no Antônio Joaquim de Carvalho e os gols imaginários no estádio municipal. Só mais tarde entenderia que, em tempos sombrios, a infância é um refugio.
24 de março de 1976 foi uma quarta-feira. Eu não me lembro desse dia. Tinha 9 anos e vivia a vida de uma criança em Araraquara.
Era verão de calor, provavelmente com chuva no fim da tarde, como sempre acontece. O campeonato paulista seguia em andamento, e isso era o que importava. O São Paulo jogava; a Ferroviária também.
Minha vida se dividia entre as aulas no Antônio Joaquim de Carvalho pela manhã, o futebol com os colegas no estádio municipal, e o catecismo na Santa Cruz.
No bar do Gino Morandi, era possível perceber que os adultos falavam de coisas graves. Meu pai aparentava tensão. Só muito mais tarde passei a compreender a ditadura civil-militar e como tantos se beneficiaram do sofrimento alheio.
ARENA e MDB eram os partidos permitidos. E, se a memória não me engana, o prefeito era Waldemar de Santi.
Naquele 24 de março, em que talvez eu tenha jogado futebol de botão com Evandro Malara depois da escola, a Argentina mergulhava nas trevas com o golpe de Estado.
Dois anos depois, em 1978, o país sediaria a Copa do Mundo, enquanto pessoas agonizavam sob tortura nos porões do regime.
Naquele março de 1976, eu não sabia de nada disso. Jogava bola, ia à escola, vivia a vida simples de uma criança.
Hoje sei.
