No dia que marca a abolição da escravidão, o São Paulo demite Roger Machado. Mas a queda do técnico negro e consciente diz menos sobre o campo e muito mais sobre a elite que comanda o clube e a conivência de quem cala diante da injustiça.
Roger Machado não desperdiçou um pênalti.
Roger Machado não chutou mal em frente ao gol, nem tampouco foi expulso ao entrar em campo.
Roger Machado foi um jogador disciplinado, de bom nível técnico, e é um técnico qualificado, que conhece futebol e demonstra isso com títulos, explicações técnicas e táticas.
Roger Machado é negro e tem consciência social. Esses são dois atributos que, no futebol brasileiro, muitas vezes são vistos como defeitos, não como qualidades.
Hoje, 13 de maio de 2026, o São Paulo, o clube dos “cardeais”, em analogia à hierarquia católica, perde para o Juventude em Caxias do Sul e é eliminado da Copa do Brasil. No vestiário, Roger Machado é demitido. A demissão encerra o calvário que começou com sua contratação.
O São Paulo Futebol Clube, dirigido por gente que se pretende da elite branca paulistana, naufraga em dívidas e crises que inundam as páginas policiais dos jornais. Rafinha e Rui Costa demitiram um técnico argentino querido pela torcida e trouxeram Roger Machado, supostamente mais barato, para ser campeão.
Sabemos que Rafinha e Rui Costa não jogam futebol. Rafinha até jogou, mas hoje comporta-se como uma espécie de quinta coluna. Juntos, imolaram o argentino e o que contrataram.
A maioria dos influenciadores e jornalistas são-paulinos prefere ignorar que Roger Machado é o bode expiatório da vez. Afinal, são reacionários ou covardes. Talvez, ambos. Não falam de política, apesar de a praticarem; não aceitam o racismo, mas o exercem.
No Brasil de hoje, lembro de Karl Jaspers e seu belo texto sobre a questão da culpa. Essa gente que defenestra Roger Machado é corresponsável pela desgraça em que se encontram o São Paulo e o país. Carrega a culpa política e, também, a culpa metafísica, pois presencia a injustiça e o sofrimento do outro e não faz nada. Isso, então, é culpa moral.
Hoje, estou com Roger Machado. Os culpados sabem quem são. E agora também sabem que alguém os nomeou.
Amanhã, o que faremos para que o próximo bode expiatório não seja mais um negro consciente em um mundo que prefere a cegueira?
