A luta pelo reconhecimento da plena autonomia feminina é uma batalha concreta. Ela se trava diariamente, em todos os espaços. Hoje, nas ruas, nas casas e nas redes digitais, há a naturalização do ódio e a desqualificação dos direitos humanos. Esse fenômeno é parte de um projeto de poder conservador e autoritário, que avança sobre as conquistas das mulheres e de toda a sociedade.
Nota – 8 de março de 2026 (Dia Internacional da Mulher)
Este texto foi publicado originalmente em junho de 2022, no boletim da WILL – Women in Leadership in Latin America. Na ocasião, já era evidente o retrocesso civilizatório no tratamento das questões de gênero, com o aumento da violência contra as mulheres e a normalização de discursos misóginos de certas lideranças políticas e religiosas. Hoje, a republicação denuncia uma situação que se tornou insustentável.
Dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025) indicam que o Brasil bateu um recorde histórico de feminicídios em 2024, com 1.492 mulheres assassinadas por sua condição de gênero. É o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. Em 2025, o número subiu para 1.518 vítimas. Os casos de estupro são igualmente alarmantes, alcançando 87.545 registros em 2024. Não bastasse, as tentativas de feminicídio aumentaram 19% em relação a 2023, enquanto a violência psicológica e o stalking cresceram na mesma proporção.
No Brasil, em uma sociedade na qual quase metade dos domicílios é chefiada por mulheres, a defesa de papéis tradicionais e a objetivação de seus corpos por homens investidos de poder político e religioso não é obra do acaso, mas uma estratégia deliberada de controle social. Tal fato ganha dimensão dramática quando potencializado pela omissão do Estado e naturalizado nas redes digitais.
A republicação do texto de 2022, portanto, é mais do que um registro neste Dia Internacional da Mulher. É um chamado à reflexão e um convite à ação pois, como escreveu a ativista Emma Goldman, a liberdade de ambos os sexos segue sendo uma luta inacabada.
“Eu busco a liberdade de ambos os sexos, liberdade de ação, liberdade de amor e liberdade de maternidade.”
Emma Goldman
Em defesa das mulheres, contra o preconceito e a violência
Por Rogério Baptistini Mendes
No século XXI, as mulheres continuam a ser tratadas antes como “mulheres” do que como seres humanos com as mesmas condições e possibilidades de desenvolvimento que os seus companheiros.
A existência de uma data designada pela Organização das Nações Unidas (ONU), dedicada a lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, não é pouca coisa. Na memória coletiva, o 8 de março está associado ao incêndio que vitimou centenas de operárias na fábrica da Triangle Shirtwaist, nos Estados Unidos, em 1911. Mas, na verdade, o Dia Internacional da Mulher remete às lutas das mulheres trabalhadoras pelo reconhecimento social e político, pelo direito ao voto e pelo trabalho digno, movimento que teve início ainda no século XIX, durante a segunda revolução industrial na Europa.
A luta pelos direitos das mulheres atravessou o século XX e conduziu, nos Estados Unidos, em 1920, à proibição de restrições ao sufrágio feminino. O mesmo, entretanto, não se estendeu às mulheres negras, excluídas assim como os seus companheiros. No Brasil, o voto feminino foi permitido a partir de 1932, embora a participação política permanecesse limitada pela exclusão de grande parte da população feminina analfabeta. Na Suíça, apesar de longa resistência, o sufrágio feminino foi conquistado apenas em 1971.
É interessante observar que, ao longo do século XX, muita coisa mudou. A formação de vigorosas classes médias nas economias de mercado, decorrente do avanço do capitalismo, lançou as mulheres na vida pública como trabalhadoras e consumidoras. A autonomia conquistada produziu uma verdadeira revolução nos costumes e na organização das instituições básicas da vida, como a família. Contudo, não atingimos a equidade de posições e estamos longe disso.
Infelizmente, na maioria das situações, as mulheres continuam a ser tratadas como “objetos” e não como seres com as mesmas condições de desenvolvimento que os seus companheiros humanos. A objetivação dos seus corpos é apenas um exemplo; a defesa da família com papéis tradicionais engessados é outro.
No Brasil, em que quase metade dos domicílios é sustentada por mulheres (conforme levantamento da consultoria IDados com base em informações do IBGE), soa como escárnio a defesa, por um membro do governo, da submissão da mulher ao marido 1. Igualmente chocante é outro membro do mesmo governo definir a mulher como “mais eficiente fora do mercado de trabalho”2. De fato, o que começa mal, com a eleição de quem ameaça uma parlamentar com a possibilidade de estupro, não pode evoluir bem3.
O atraso de nossa situação está refletido nos dados do Painel Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Entre 2020 e 2021, segundo registros oficiais, os casos de violência contra a mulher, incluindo feminicídios, estupros e agressões físicas, saltaram de 271.392 para 823.127 ocorrências. Não é mera coincidência que o fenômeno ocorra durante um período cuja liderança política demonstra absoluto desprezo pelas questões civilizatórias básicas, tratando direitos humanos como coisa menor, enquanto relega a mulher, sobretudo a pobre e trabalhadora, à própria sorte.
Alcançar a igualdade de gênero é a meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 5 da ONU. As lideranças nas organizações empresariais são chamadas a assumir um firme compromisso com as mulheres e com a humanidade inteira no longo prazo. Para começar, basta não aceitar o discurso que explora o preconceito e estimula o ódio, venha de onde vier. É a primeira medida e precede todas as demais.
BIBLIOGRAFIA:
- Damares: “Mulher deve ser submissa ao homem no casamento”. In: Metrópoles.com: Damares: “Mulher deve ser submissa ao homem no casamento” (metropoles.com) . Acesso em 30 de maio de 2022. ↩︎
- Licença-maternidade ‘criminosa’ e Hitler de esquerda: as falas de Sachsida. In Uol.com.br: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/05/12/licenca-maternidade-criminosa-e-hitler-de-esquerda-as-falas-de-sachsida.htm . Acesso em 30 de maio de 2022. ↩︎
- Bolsonaro diz que não estupra deputada porque ela não merece. In: Exame.com: Bolsonaro diz que não estupra deputada porque ela não merece | Exame . Acesso em 30 de maio de 2022. ↩︎
