A crise da ordem internacional, a ascensão de novas potências e a fragilização das democracias não são fenômenos isolados, mas expressões de um mesmo desajuste profundo. Pensar esse tempo e o lugar do Brasil nele é uma tarefa urgente.
Há momentos em que a história passa a exigir escolhas. Não escolhas individuais, morais ou episódicas, mas escolhas coletivas, inscritas em estruturas que já não funcionam como antes. O início de 2026 tem algo desse caráter. Não porque os acontecimentos sejam inteiramente novos, mas porque se tornaram difíceis de acomodar nas categorias herdadas do mundo que se formou após a Segunda Guerra Mundial. Este é um daqueles momentos em que, para recuperar Octavio Ianni, o pensamento e o pensado estão em desajuste.
A ordem internacional baseada em instituições multilaterais, alianças estáveis, regras relativamente compartilhadas e na liderança hegemônica dos Estados Unidos encontra-se em esgotamento visível. O que se observa não é apenas uma redistribuição de poder entre grandes potências, mas uma transformação mais profunda, em que assistimos à progressiva substituição da autoridade pela coerção, do consenso pela força, da previsibilidade pela intimidação.
As tensões recentes entre Estados Unidos, China e Rússia não são disputas geopolíticas convencionais. Elas expressam o abandono gradual, por parte da potência hegemônica, da ordem que ela própria ajudou a construir. A força militar, a ameaça direta, a violação aberta de soberanias e o desprezo por alianças tradicionais já não aparecem como desvios, mas como instrumentos de ação política. Trata-se menos de um sinal de vigor e mais de um sintoma clássico de uma transição hegemônica mal resolvida.
Nesse cenário, a China surge não como uma potência revolucionária no sentido clássico, mas como uma beneficiária estrutural do vazio deixado pela retração americana. Seu movimento é menos o da conquista direta e mais o da ocupação gradual de espaços diplomáticos, econômicos e institucionais abandonados. A aposta chinesa parece ser a de que a instabilidade gerada pela coerção abrirá oportunidades para uma liderança baseada na previsibilidade, na interdependência econômica e na promessa de desenvolvimento, ainda que essa promessa esteja longe de ser isenta de contradições.
O ponto central, contudo, não está apenas na dinâmica entre grandes potências. Ele está nos efeitos dessa transição sobre sociedades periféricas e semiperiféricas, como as da América Latina, e, de modo particular, sobre o Brasil. Em momentos de reorganização do sistema internacional, em que, como explica David Harvey, a geografia do capitalismo se reorganiza, países como o nosso raramente ocupam posição neutra. Tornam-se, ao contrário, espaços de disputa, campos de prova, territórios onde se cruzam pressões externas e fragilidades internas.
No Brasil, essa transição global encontra uma democracia marcada por feridas recentes. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não foi um acidente nem um desvio anacrônico. Foi a expressão local de uma crise mais ampla da democracia liberal, incapaz de responder às angústias produzidas por um mundo em transformação acelerada. Três anos depois, às vésperas de novas eleições, a extrema direita segue mobilizada, articulada e adaptada ao novo ambiente informacional. As forças democráticas, por sua vez, parecem dispersas, presas a linguagens, estratégias e expectativas que pertencem a um tempo que já não existe.
Conforme entendo, há aqui uma assimetria decisiva. A política tradicional, fundada em partidos estáveis, mediações institucionais e na imprensa como filtro privilegiado do debate público, perdeu centralidade num mundo atravessado por plataformas digitais, algoritmos de engajamento e circulação contínua de afetos. Medo, ressentimento e insegurança tornaram-se recursos políticos centrais. A extrema direita compreendeu isso com rapidez e eficiência. Ofereceu respostas simples a problemas complexos e construiu narrativas baseadas menos em projetos de futuro do que na idealização de um passado que nunca existiu.
Essa retrotopia, conforme a expressão de Zygmunt Bauman, que é a promessa de retorno a uma ordem supostamente perdida, encontra terreno fértil numa sociedade marcada pela incerteza e pelo esvaziamento de horizontes coletivos. O futuro aparece como ameaça, não como promessa. Nesse contexto, defender a democracia apenas como um conjunto de regras institucionais revela-se insuficiente. As regras, por si só, não produzem sentido. E sem sentido compartilhado, a democracia se fragiliza.
O problema, portanto, não é apenas a agressividade das forças antidemocráticas, internas ou externas. É a ausência de um novo programa capaz de articular democracia, soberania e transformação social num mundo que já não é regido pelas coordenadas do pós-guerra. Os democratas seguem tentando preservar instituições concebidas para uma ordem internacional relativamente estável, enquanto operam num ambiente marcado pela instabilidade permanente, pela competição entre grandes potências e pela fragmentação do espaço público.
No caso brasileiro, essa defasagem é particularmente perigosa. A disputa pela soberania não se dará apenas no plano diplomático ou econômico, mas no interior da própria sociedade. Ela acontecerá nas universidades, nas redações, nas igrejas, nas redes sociais e nos mercados financeiros. Para os familiarizados com Gramsci, trata-se de uma verdadeira guerra de posição, em que ideias, interesses e afetos se entrelaçam. A influência externa raramente se impõe de forma direta; ela opera por meio de alianças internas, de vínculos econômicos, de consensos fabricados e de divisões cuidadosamente exploradas.
Nada disso autoriza leituras simplificadoras do mundo social. Mas tampouco permite ingenuidade. A política do nosso tempo é atravessada por disputas que combinam economia, cultura e tecnologia de forma inédita. Ignorar esse fato é condenar a democracia à irrelevância.
O desafio não é apenas resistir. É imaginar. Imaginar uma democracia capaz de oferecer sentido num mundo em transição, de articular soberania sem isolamento, de enfrentar a desigualdade sem nostalgia, de disputar o futuro sem medo dele. Não há garantias de sucesso. A história raramente oferece atalhos seguros. Mas é certo que continuar pensando e agindo como se a ordem que conhecíamos ainda estivesse de pé é uma forma lenta de rendição.
Talvez o nosso primeiro passo deva ser reconhecer, sem melancolia, que aquele mundo acabou. E que a tarefa que se coloca diante de nós não é restaurá-lo, mas construir, com todas as ambiguidades e riscos, algo que ainda não sabemos nomear inteiramente. A democracia, para sobreviver, terá de habitar esse tempo incerto, não como herança a ser protegida, mas como projeto a ser reinventado.


Excelente análise
Otima materia