Nelson Rodrigues e a tragédia brasileira da hipocrisia

Esta entrevista foi concedida ao jornalista Edison Veiga. Partes das respostas foram utilizadas em reportagem publicada no site da BBC Brasil no início de 2026 (Nelson Rodrigues: o ‘imoral’ da literatura brasileira que era um conservador na vida privada – BBC News Brasil).
A versão abaixo corresponde à íntegra das respostas, publicada aqui em caráter autoral.

Nelson Rodrigues continua sendo um autor incômodo porque não cabe nos esquemas morais nem políticos do presente. Ele se dizia conservador, mas sua obra é uma denúncia implacável da família patriarcal, do moralismo religioso, da hipocrisia da classe média e da violência exercida em nome dos “bons costumes”. Seu olhar não é progressista nem reacionário no sentido contemporâneo: é trágico. Nelson expõe o desejo, a culpa e a mentira como forças estruturantes da vida social brasileira. É aí que reside sua universalidade, pois toda sociedade organiza seus conflitos a partir de recalques, silêncios e interditos.

O paradoxo entre o conservadorismo declarado e a transgressão literária não é uma contradição a ser resolvida, mas uma tensão constitutiva de sua obra. Ele critica as utopias morais e destrói, ao mesmo tempo, a ilusão de uma ordem social virtuosa. Nesse sentido, Nelson está mais próximo de uma crítica radical da hipocrisia do que de qualquer projeto de conservação da ordem. Sua obra é revolucionária no plano cultural e simbólico, ainda que não tenha sido reconhecida como tal em seu tempo.

Seu amor pelo Brasil é popular, afetivo e cultural, jamais submisso. Isso é visível, por exemplo, em suas crônicas de futebol. Ele desprezava o complexo de inferioridade das elites e a idolatria do estrangeiro. Por isso, qualquer tentativa de apropriá-lo como símbolo do conservadorismo moral contemporâneo ou da extrema direita resulta em uma leitura empobrecida. Nelson não tolerava o moralismo, nem a obediência, nem a pureza. Sua permanência se explica justamente por isso: porque, em vez de confortar, ele desvela.

Quais são os grandes legados de Nelson Rodrigues para a literatura e a dramaturgia do Brasil?

O legado de Nelson Rodrigues é duplo. Na dramaturgia, ele trouxe para o palco tudo aquilo que a “boa sociedade” preferia manter trancado: o desejo, a culpa, a violência, o racismo, a hipocrisia na família e a loucura. Na literatura e no jornalismo, ele fez do cotidiano um campo de revelação moral — não no sentido religioso, mas no sentido de desnudar máscaras.

Por que Nelson Rodrigues se definia como um “imoral moralista”?

Acredito que essa autodefinição fosse, antes de tudo, uma provocação. Ele é “imoral” porque recusa o pacto social do decoro e põe em cena aquilo que a moral oficial tenta esconder; mas é “moralista” porque não é um libertino. Há sempre um juízo, no sentido de uma visão severa do humano: o desejo cobra preço, a mentira tem consequências, a família pode ser um teatro cruel. A moral, para ele, não é catecismo; é tragédia.

Como conciliar, em uma análise contemporânea, seu conservadorismo declarado com uma obra literária profundamente transgressora?

Penso que a conciliação se dá por meio da tensão. Nelson se dizia conservador, mas seu conservadorismo é, muitas vezes, uma posição contra utopias e contra moralismos progressistas, e não uma adesão simples à ordem social. A obra, por sua vez, é transgressora porque mostra que a ordem já é transgressora por dentro, marcada pela violência, pelo adultério, pela perversão, pelo racismo e pela hipocrisia, que não são exceções: são engrenagens. Em outras palavras, ele é conservador no discurso, mas radical no diagnóstico.

O que explica a permanência de suas peças e frases no debate público brasileiro?

Suas frases, curtas, contundentes e exageradas, foram escritas para o Brasil e são precisas no alvo. Suas peças tratam de algo que persiste como parte de nossa estrutura social mais profunda, uma herança da qual não nos livramos: o autoritarismo doméstico, a moral sexual como instrumento de poder, o racismo, o medo do escândalo, a aparência como valor central da classe média. Nelson é atual porque o Brasil ainda não resolveu muitas de suas tragédias privadas. E são exatamente essas tragédias que povoam o imaginário social e atravessam o debate político contemporâneo.

O que em Nelson Rodrigues envelheceu mal — e o que continua atual?

Envelheceu mal tudo aquilo que, lido hoje, pode soar como naturalização da violência ou uso de estereótipos. O que continua atual, porém, é o núcleo de sua obra: a crítica à hipocrisia, a percepção de que o moralismo público convive com a degradação privada e a capacidade de transformar a família idealizada em laboratório de poder, desejo e ressentimento. A atualidade de Nelson está menos no “conteúdo polêmico” e mais na inteligência com que ele desmascara o pacto social da aparência.

Como suas obsessões (sexo, morte, culpa, família, traição) ajudam a entender o Brasil?

Sexo, morte, culpa, família e traição não são apenas “temas”; são chaves para compreender como a sociedade brasileira organiza o que pode e o que não pode ser dito. Nelson mostra que a família é também uma instituição política de regulação dos corpos, silenciamento dos conflitos e administração das reputações. A culpa e a vergonha, em seus textos, funcionam como dispositivos sociais, não apenas como sentimentos individuais. Ele dramatiza um Brasil que se apresenta como cordial, mas é atravessado por violência, controle e medo do julgamento alheio.

Ele seria “cancelado” hoje — ou continua impossível de ignorar?

É possível que fosse alvo de campanhas e leituras apressadas, como aquelas que a extrema direita utiliza para manipular consciências. Isso seria até previsível. Ainda assim, acredito que continuaria impossível de ignorar. O cancelamento funciona melhor contra obras que dependem de consenso; Nelson depende do dissenso. O que ele provoca não é adesão, mas fricção. Talvez a melhor resposta contemporânea não seja “absolver” nem “condenar” Nelson, mas lê-lo com consciência histórica e crítica, sem domesticar sua potência literária.

Como novas gerações de leitores, encenadores e críticos devem encarar sua obra?

Com leitura crítica e sem moralismo simplificador. Não se trata de transformar Nelson em santo, nem em vilão. Trata-se de tratá-lo como clássico: um autor que ilumina zonas obscuras do país e que, justamente por isso, continua a incomodar.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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