Este ensaio foi publicado originalmente no Substack. Sua republicação integra o processo de consolidação deste espaço editorial.
A democracia moderna vive menos o colapso espetacular do que a erosão silenciosa de seus fundamentos. Ela não desaparece de uma vez; esgarça-se aos poucos, à medida que princípios centrais vão sendo relativizados em nome da eficiência, da técnica ou de supostas inevitabilidades econômicas.
Durante anos, ao lecionar Teoria do Estado Moderno, sustentei uma ideia simples e exigente: o Estado moderno é a única forma histórica de organização política que integra todos os seus membros como participantes plenos, em condição de igualdade jurídica e política. Trata-se de uma sociedade política de iguais, orientada ao bem comum, e não de um mero arranjo administrativo destinado a arbitrar interesses privados.
A república e a democracia não são ornamentos institucionais dessa forma estatal. Elas radicalizam a ideia de que o destino comum deve ser deliberado por cidadãos livres e iguais e de que todo privilégio permanente, todo particularismo protegido ou toda exceção socialmente organizada constitui uma perversão do ideal moderno. Onde há privilégios estruturais, há regressão política.
É por isso que causa perplexidade a naturalização contemporânea de políticas que protegem os muito ricos, o capital financeiro e grandes corporações, ao mesmo tempo em que expõem trabalhadores e populações vulneráveis ao desamparo em nome do ajuste fiscal, da austeridade ou de alguma versão tecnocrática do ultraliberalismo. O que se apresenta como neutralidade econômica esconde uma escolha política: a renúncia ao bem comum como horizonte normativo.
Vivemos em sociedades políticas. Não somos um amontoado de estranhos em competição permanente, lançados a uma condição hobbesiana. Mercados, contratos, propriedade, moeda e crédito só existem porque há Estado, direito e autoridade pública. Quando teorias ultraliberais ignoram esse dado elementar, não estão apenas cometendo um erro analítico; estão promovendo uma despolitização deliberada da vida social.
Essa despolitização não ocorre espontaneamente; ela é produzida. Think tanks ultraliberais, como a Atlas Network e seus múltiplos braços na América Latina, compreenderam isso com notável clareza estratégica. Ao penetrar universidades, centros de formação política e redes digitais, iniciam um processo sistemático de “evangelização” ideológica, especialmente entre os jovens. Slogans como “Mais Mises, menos Marx” funcionam como dispositivos de guerra cultural: não apenas rejeitam uma tradição teórica, mas deslegitimam a própria ideia de sociedade como totalidade política.
O resultado desse trabalho paciente é visível. A ascensão de figuras como Bolsonaro, Milei ou Kast não pode ser compreendida apenas como fenômeno eleitoral. Ela expressa uma transformação mais profunda: o deslocamento da linguagem da cidadania para a moralização do sucesso individual, a conversão da desigualdade em destino “natural” e a reinterpretação dos direitos sociais como vícios que produziriam indivíduos “dependentes” do Estado.
Paradoxalmente, trata-se de uma forma sofisticada de luta de classes, disfarçada de neutralidade técnica e liberdade econômica. Penalizam-se os vulneráveis, desmontam-se mecanismos redistributivos e preservam-se privilégios patrimoniais, enquanto se proclama o fim das ideologias. O conflito não desaparece; apenas muda de linguagem. A desigualdade deixa de ser injustiça e passa a ser mérito mal distribuído.
Na América Latina, esse processo encontra terreno fértil. Nossa história de colonialismo, imperialismo e subdesenvolvimento produziu elites que raramente se pensaram como dirigentes de um projeto nacional. Em grande medida, atuam como feitoras do capital internacional. Desfrutam os prazeres que o dinheiro pode comprar ao custo da submissão dos povos, da precarização do trabalho e da degradação dos territórios. Soberania política, integração social e desenvolvimento nacional nunca foram prioridades consistentes.
Nesse contexto, a ideia do Estado moderno tende a se esvaziar. Como sugeriu Anthony Giddens ao falar de “instituições-casca”, lidamos frequentemente com estruturas que preservam forma, linguagem e rituais modernos, mas perderam substância. Há constituições, eleições e tribunais, mas a sociedade política permanece atravessada por privilégios patrimoniais e exceções permanentes. A igualdade formal convive com a desigualdade real como se isso não fosse uma contradição.
Diante desse cenário, a responsabilidade recai, mais uma vez, sobre os democratas, não no sentido estreito da disputa eleitoral imediata, mas no campo mais profundo da cultura. A hegemonia que sustenta projetos antidemocráticos não se constrói apenas com reformas econômicas; ela se forma na educação dos afetos, na linguagem, na imaginação social, na formação de corações e mentes.
É aqui que reside o maior equívoco do campo democrático contemporâneo: confundir presença digital com formação cultural. Não basta povoar a internet com vídeos curtos, indignação episódica e respostas reativas. As redes sociais, dominadas por big techs, recompensam a simplificação, a polarização e o choque emocional. Jogar apenas segundo essa lógica é aceitar a derrota no médio prazo.
Disputar a democracia exige projeto. Exige falar a língua da cidadania informada, da complexidade social e do pertencimento coletivo. Exige chegar verdadeiramente à juventude, não como consumidora de conteúdo, mas como sujeito político em formação. Isso supõe articulação entre escola, universidade, cultura, mídia alternativa e espaços presenciais. Supõe tempo, paciência e imaginação.
Talvez Edgar Morin tenha algo a nos dizer. Há décadas ele insiste na necessidade de uma reforma do pensamento, capaz de enfrentar a complexidade do mundo contemporâneo e superar a fragmentação que produz cegueira política. Sem isso, não há democracia viva, apenas procedimentos vazios. A questão, no entanto, não é se Morin tem razão. A questão é mais incômoda: queremos, de fato, ouvi-lo?
A crise da democracia não é apenas institucional. Ela é cultural, moral e civilizatória. Enquanto não reconhecermos isso, continuaremos a administrar sintomas, enquanto a corrosão da ideia de sociedade política de iguais seguirá operando como problema de fundo.

