A loucura antes da ruína

Antes do colapso das instituições, instala-se o delírio. Este ensaio examina como a manipulação sistemática da informação, o espetáculo digital e a corrosão das mediações públicas do real enfraquecem o julgamento democrático. Mais do que a perda de consensos, está em jogo a capacidade de disputar a realidade sem destruir o vínculo político.

Nota ao Leitor

Este ensaio foi escrito originalmente em julho de 2025 e publicado no Substack, em um contexto no qual as narrativas de ódio e a desinformação já se consolidavam como instrumentos centrais de erosão da vida democrática. Para esta republicação em 2026, o texto passou por uma revisão crítica, com dois objetivos principais:

  1. Atualização e precisão: Foram incluídos exemplos concretos para ancorar as análises em fatos documentados. Esses acréscimos não alteram o argumento central, mas buscam torná-lo mais tangível, especialmente para leitores que acompanham de perto os desdobramentos políticos recentes.
  2. Reflexividade e nuance: O texto foi ampliado com breves considerações sobre seus próprios limites.

O núcleo analítico do ensaio original permanece intocado, assim como seu tom crítico e urgente.

Esta versão, portanto, é uma ampliação dialogada, que busca responder a questionamentos legítimos sem ceder à tentação do relativismo ou do academicismo.

Conforme um antigo provérbio atribuído à tradição grega, a desgraça de uma pessoa é precedida pela loucura: “aqueles que os deuses querem destruir, primeiro enlouquecem”. O mesmo pode ser dito dos povos e das nações. O desastre político costuma ser antecedido pelo alheamento da realidade, pelo delírio coletivo. É exatamente esse processo que os chamados “engenheiros do caos”, na expressão de Giuliano da Empoli, aprenderam a explorar com notável eficiência.

O que a novilíngua contemporânea costuma chamar de “construção de narrativas” tornou-se o cimento da crise social e política que atravessa as democracias. Ao substituir a experiência compartilhada por versões fabricadas da realidade, cria-se um ambiente de hostilidade permanente, uma espécie de guerra de todos contra todos, explorada com habilidade por movimentos de extrema-direita. Esses movimentos se alimentam do ódio e do ressentimento; produzi-los e mantê-los em circulação não é efeito colateral, mas parte estruturante de sua estratégia de poder.

Não surpreende, portanto, que, enquanto o Brasil enfrenta tensões relevantes em torno de sua soberania institucional, como as investigações sobre o uso político da Polícia Federal ou os ataques sistemáticos às urnas eletrônicas, setores autoritários se dediquem prioritariamente a manipular a opinião pública e a obscurecer os fatos. Multiplicam-se disputas em torno do papel do aparato jurídico na arena política, com acusações recorrentes de seletividade na aplicação da lei e de instrumentalização jurídica como forma de constrangimento de adversários. Em tais contextos, o interesse público cede lugar à lógica do poder absoluto.

Em certos aspectos, esses movimentos assumem traços que lembram formas de fundamentalismo político-religioso, adaptadas ao contexto ocidental e às linguagens do neopentecostalismo. Não se trata de equivalência histórica direta, mas de uma analogia que ajuda a compreender o desprezo pela mediação institucional, pela pluralidade e pela razão pública.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a radicalização da extrema-direita também se expressa por meio do ataque sistemático às instituições democráticas. Episódios como a invasão do Capitólio em 2021 ou as tentativas de anular resultados eleitorais ilustram como a corrosão do julgamento público pode levar à negação explícita da legalidade democrática. Em ambos os países, as redes sociais tornaram-se o palco privilegiado dessa disputa.

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, já havia diagnosticado esse fenômeno ao afirmar que a vida social tende a se apresentar como uma “relação social entre pessoas, mediada por imagens”. No contexto das plataformas digitais, essa mediação se radicaliza: a experiência vivida é substituída por representações incessantes, cuidadosamente moldadas para produzir adesão emocional e bloquear a reflexão. A verdade deixa de ser resultado de verificação compartilhada e passa a ser objeto de fabricação e imposição. Não se trata mais de representar a realidade, mas de construí-la para servir a interesses de poder.

Nesse universo de verdades fabricadas, frequentemente agrupadas sob o rótulo impreciso de “pós-verdade”, o julgamento individual e coletivo se deteriora. E quando o julgamento falha, a democracia se torna inviável, pois ela pressupõe a capacidade de cidadãos deliberarem de forma minimamente esclarecida sobre seus próprios interesses. Indivíduos submetidos à manipulação constante têm dificuldade de compreender contextos, discernir situações e reconhecer limites. Ainda assim, julgam e são julgados.

Viver é julgar e ser julgado. Michel Foucault, em obras como Vigiar e Punir  e A Ordem do Discurso, nos ensinou que o julgamento não é um simples ato de opinião, mas uma tecnologia de poder, operando por meio da disciplina, da normalização e da exclusão. Quando esse mecanismo se exerce sobre uma realidade artificialmente construída, o resultado é previsível: o caos social e político. A corrosão do julgamento público abre espaço para soluções autoritárias apresentadas como salvação.

A esse processo soma-se outro fenômeno inquietante: o retorno do pensamento mágico em larga escala. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), advertia que a exploração da irracionalidade coletiva, sustentada pelo charlatanismo e pela pseudociência, poderia produzir consequências devastadoras. A substituição do pensamento crítico por crenças infalsificáveis cria o terreno propício para perseguições simbólicas, políticas e, em certos casos, materiais.

As plataformas digitais potencializam esse quadro. Jaron Lanier, em Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, alertou repetidamente para os efeitos corrosivos dos modelos de negócio baseados em engajamento permanente. Algoritmos desenhados para maximizar atenção operam como máquinas de ansiedade, desinformação e condenação mútua. Criam bolhas de realidade que funcionam como prisões cognitivas, nas quais a empatia e a verdade se tornam obstáculos.

Isso não significa que a barbárie seja inevitável. Iniciativas como as mobilizações pela democracia em 2023 ou o trabalho de veículos independentes de fact-checking mostram que a disputa pelo real segue aberta. Mas o risco persiste, e sua gravidade não pode ser subestimada. Não se trata apenas de uma disputa entre projetos políticos concorrentes. O que está em jogo é a própria possibilidade de uma vida democrática fundada na razão pública, na confiança institucional e em referências compartilhadas do real. Quando essas referências se dissolvem, tudo se torna possível, inclusive a barbárie com aparência de fé e a mentira com aparência de verdade.

Este diagnóstico, é claro, também é um enquadramento e, como tal, está sujeito a limites. Mas é justamente por reconhecê-los que insistimos na pergunta: quem julga, e com base em quê?

Referências

Carl Sagan. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência como uma Vela no Escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Giuliano Da Empoli. Os Engenheiros do Caos. São Paulo: Vestígio, 2019.

Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

Jaron Lanier. Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

Michel Foucault. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

Michel Foucault. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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