Londres 2005, Minneapolis 2026: A mesma guerra contra imigrantes

O assassinato de uma mulher por agentes federais em Minneapolis, neste início de 2026, não é um evento isolado, mas o sintoma de uma engrenagem global. A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, que completa duas décadas, ressurge agora não como memória, mas como espelho de uma xenofobia que se tornou método de governo. Nesta entrevista, analiso como o perfilamento racial e a militarização das fronteiras forjam uma “guerra perpétua” contra a alteridade.

Nota Introdutória

Em julho de 2025, analisei em entrevista à Sputnik Brasil (acesse a matéria original aqui) os desdobramentos dos 20 anos da morte de Jean Charles de Menezes, brasileiro executado pela polícia de Londres em 2005.

Hoje, em janeiro de 2026, o que era análise sociológica ganha uma urgência trágica: nos Estados Unidos, a violência de um agente federal de imigração em Minneapolis expõe a face mais brutal da perseguição institucionalizada. Sob o pretexto do controle de fronteiras e da segurança nacional, o Estado moderniza suas táticas de exclusão contra estrangeiros, negros e pobres.

Publico este diálogo agora porque as questões de 2005 e 2025 permanecem sem resposta: como enfrentar a normalização do ódio quando ele é chancelado por potências globais? Jean Charles foi vítima de uma fatalidade ou de um processo social deliberadamente discriminatório? A resposta parece estar no sangue que continua a manchar as calçadas do hemisfério norte.

Jean Charles foi vítima de uma tragédia inevitável ou de um processo social discriminatório?

O brasileiro Jean Charles de Menezes, cuja morte completa 20 anos, foi vítima do despreparo da polícia de Londres diante da ameaça terrorista. Ao recuperar o contexto do acontecimento, observamos que naquele julho de 2005 o medo havia se espalhado pela capital inglesa por conta dos atentados do dia 7, que deixaram um saldo de 52 mortos e mais de 700 feridos.

Apesar de os quatro autores dos ataques serem britânicos, nascidos ou naturalizados, e terem morrido durante os atentados, o fato de serem jihadistas — extremistas islâmicos — com conexão com grupos como a Al-Qaeda, gerou um ressentimento social generalizado em relação aos árabes e aos muçulmanos em geral. E isso foi determinante para a morte de Jean Charles.

O que a polícia classificou como uma trágica fatalidade, na verdade resultou de uma prática discriminatória conhecida como racial profiling (perfilamento racial), cada vez mais em uso desde então, ainda que as autoridades neguem. Trata-se da abordagem de sujeitos com base em sua raça, cor, etnia ou origem nacional, sem evidência de envolvimento em qualquer atividade criminosa.

Por ser latino e estar numa área considerada de risco, o brasileiro que vivia em Londres foi abordado por policiais em alerta contra suspeitos de prática terrorista, sobretudo se fossem árabes. O foco em um estereótipo o transformou em ameaça e selou o seu destino.

Houve avanços no combate à desumanização de imigrantes desde então?

Desde a morte de Jean Charles houve alguma evolução no debate sobre a desumanização dos imigrantes, e o preconceito contra esses grupos ganhou maior visibilidade. Entretanto, os desafios ainda são enormes. Movimentos de extrema-direita crescem em todo o mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, e culpam essas pessoas — estrangeiros em seus países — pelo desemprego, pela insegurança e por diversos problemas sociais. Elas servem de bode expiatório para os males gerados pelo funcionamento de um sistema econômico e financeiro pautado exclusivamente na acumulação, sem qualquer preocupação com a dimensão humana.

Por que a xenofobia avança com mais força nos EUA e na Europa?

RESPOSTA: São vários os fatores que se combinam, mas creio que um é particularmente importante: a Europa e os Estados Unidos chegaram antes ao desenvolvimento do capitalismo industrial e se beneficiaram da organização do sistema-mundo. É natural que recebam não apenas fluxos de riquezas do resto do planeta, mas também pessoas em busca de oportunidades de vida e de trabalho digno.

A questão é que o atual padrão tecnológico e administrativo da economia gerou um fenômeno generalizado de desemprego estrutural com rebaixamento das expectativas — inclusive no rico hemisfério norte. E isso faz com que imigrantes de pele escura sejam vistos como invasores e concorrentes, responsabilizados pela degradação da vida social. O ressentimento da classe média e da classe trabalhadora é canalizado contra um adversário frágil e se generaliza a xenofobia como estratégia de manipulação política.

Como os 20 anos da morte de Jean Charles podem ser usados para refletir sobre o tratamento dado aos imigrantes?

Os 20 anos da morte de Jean Charles, para não passar em vão, poderiam servir como uma oportunidade para nos lembrarmos que a noção de humanidade é construída. E, como toda construção, é frágil e requer atenção constante, pois há os que lucram com a disseminação do ódio e da intolerância, explorando a ignorância e os temores das pessoas. Infelizmente, contudo, não creio que isso vá acontecer.

Um debate que aposte na humanização — e que enfrente e rejeite a engenharia social baseada no racial profiling — entra em rota de colisão com adversários poderosos, que hoje travam uma luta pela hegemonia política em escala global. A chamada Internacional da Extrema-Direita, que une líderes políticos sob a noção ideológica de “guerra perpétua”, cunhada por Steve Bannon, parece apostar na xenofobia como base de um nacionalismo antiglobalista. E isso tem consequências não apenas para os imigrantes.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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