O avanço de lideranças iliberais nas Américas não é acidente, mas resultado de uma exploração sistemática das angústias coletivas. Wilhelm Reich, em sua análise sobre a psicologia das massas, demonstrou como medo e repressão se convertem em submissão voluntária. A erosão democrática que assistimos opera por dentro das instituições, transformando a promessa de liberdade em servidão emocional.
Nota
Publicada originalmente pela Bloomberg Línea em junho de 2025, esta entrevista é republicada agora, na íntegra.
Diante do avanço das lideranças populistas e da radicalização dos discursos na América Latina e nos EUA, as reflexões aqui contidas sobre a psicologia das massas e o autoritarismo de face democrática revelam a atualidade do tema para o debate público em 2026.
Estamos diante de um fortalecimento desses discursos em meio à alta polarização e às falas radicais na América Latina?
Durante o século XX, o populismo foi um fenômeno latino-americano. Esteve associado a líderes personalistas do porte de Lázaro Cárdenas, Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón, que mudaram o sistema político de seus países com espírito de luta e enfrentaram grandes resistências das elites locais. No México, no Brasil e na Argentina, seu caráter nacional e popular ressoava.
Hoje, entretanto, o populismo é uma perversão democrática que transborda a América Latina. Lideranças de estilo populista aparecem na Europa e na América do Norte, criam movimentos e partidos e se apoiam em discursos de antagonismo a inimigos reais ou imaginários do povo e da nação, como é típico nesses casos.
Personagens como o argentino Javier Milei e o norte-americano Donald Trump, por exemplo, praticam com despudor o roteiro populista: dão respostas fáceis aos temores dos cidadãos, explorando um imaginário de guerra contra um adversário que deve ser vencido com ações rápidas e decididas. Não importa que, para isso, fraturem a sociedade e criem um ambiente de permanente tensão. É disso que se nutre o populismo: da luta épica do povo bom contra os maus, os corruptos, os inimigos, enfim.
No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com seu lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, encarnou o líder que lutava contra o comunista ateu que corrompia as famílias cristãs. O resultado foi a perseguição às minorias, o retrocesso na valorização dos direitos humanos como direitos fundamentais e a degradação da sociedade política e da vida pública, com sérios danos à democracia como forma de governo.
No limite, os populistas constroem narrativas simples, porém eficientes, que confortam e dão sentido de unidade aos indivíduos atomizados. Em momentos de crise, diante do temor do desemprego e do rebaixamento social, exploram a angústia, o rancor e a frustração das pessoas. Em troca, oferecem uma “verdade” fácil e uma solução simples para problemas extremamente complexos, como são os que demandam resolução na esfera da política. Assim, transformam-se em mitos, heróis condutores da massa esperançosa de mudança. O segredo é a narrativa simples e a criação do inimigo. A lógica do nós contra eles. O conflito no lugar da produção dos consensos.
Se observarmos com atenção as propostas autoritárias que esses novos populistas qualificam como conservadoras da civilização cristã e ocidental, seremos obrigados a relembrar o estudo de Wilhelm Reich, Psicologia de Massas do Fascismo, publicado em 1933, no qual o psiquiatra e psicanalista de Viena argumenta que a adesão das massas ao fascismo tem origem na repressão sexual e na estrutura autoritária das famílias, nas quais os indivíduos, desde crianças, são submetidos à obediência cega e à autoridade do pai. Essa repressão cria angústias e desejos recalcados, que se transformam em submissão à autoridade e agressão contra inimigos externos, sejam eles homossexuais, negros, estrangeiros ou adversários políticos.
Milei, na Argentina, parece encarnar o pai severo contra a “casta” — o homem que vai criar ordem em meio ao caos. Sua intolerância contra o movimento feminista e contra a educação sexual integral, por exemplo, ecoa a repressão sexual e a moral rígida, aquilo que Reich qualificava como a estrutura emocional reprimida das massas. Trump, por seu turno, é o libertador contra o politicamente correto e um certo Estado que governa nas sombras. A insegurança econômica cria ansiedade. Em vez de enfrentá-la, a massa busca culpados, e Trump os apresenta. Em nível psíquico, Reich diria que essa é uma excitação emocional: a liberdade de submeter-se ao autoritarismo, que preserva a repressão inconsciente. Os líderes populistas do mundo todo parecem saber disso e explorar com maestria as estruturas emocionais das massas, o que nos aproxima da fraseologia e da estética do fascismo.
Qual é o perigo disso?
Quando lideranças populistas exploram os medos e as frustrações das pessoas, há o grande risco de canalizarem as ações sociais e políticas em direção a formas autoritárias com aparência democrática. Ou seja: a vontade da maioria se expressa via eleições, mas morre o pluralismo e o respeito aos direitos humanos fundamentais. Passa a existir apenas a “verdade” e a perseguição aos dissidentes se instala. O nazismo foi isso.
Indivíduos inseguros e intelectualmente incapazes de compreender a complexidade do mundo social buscam alívio em simplificações dualistas do tipo nós contra eles, em autoridades fortes que ofereçam segurança contra ameaças que não compreendem, contra o pensamento crítico que aprenderam a desprezar. Cada um ao seu modo, Milei, Bolsonaro e Trump, além de outros líderes que ameaçam a democracia mundo afora, exploram as repressões psíquicas das massas e transformam a palavra liberdade, que empunham como bandeira, em um tipo de servidão emocional, enquanto conduzem pessoas aflitas ao abatedouro.
Posfácio: Janeiro de 2026: o populismo em movimento
Em janeiro de 2026, o cenário político que esta entrevista analisava revela sinais claros de confirmação e aprofundamento. O populismo autoritário já não se apresenta apenas como retórica eleitoral ou desvio marginal. Ele se consolida como prática de poder, explorando a insegurança social, a fragmentação das identidades e o desgaste das democracias liberais para redefinir o campo político em chave iliberal.
Nos Estados Unidos, a nação, segundo o discurso de Donald Trump, estaria ameaçada por inimigos internos difusos: a imprensa, o sistema judicial, adversários políticos, universidades e burocracias estatais. Embora os freios e contrapesos institucionais permaneçam formalmente em vigor, instala-se um ambiente de hostilidade às mediações democráticas. Multiplicam-se iniciativas que restringem direitos civis, tensionam o sistema eleitoral e reforçam uma concepção plebiscitária, excludente e moralizada da política. A erosão democrática opera de dentro, sob aparência legal.
Na América Latina, a dinâmica não é distinta. Na Argentina, o governo de Javier Milei aprofunda uma agenda de choque econômico e retração do Estado social, acompanhada de uma retórica agressiva contra sindicatos, universidades, movimentos feministas e a chamada “casta política”. A polarização não é um efeito colateral, mas um método. O conflito é apresentado como virtude política.
No Chile, a eleição de José Antonio Kast, em dezembro de 2025, marca uma inflexão conservadora após anos de instabilidade institucional. Embora o governo ainda não tenha se iniciado formalmente, o discurso que o conduziu à vitória dialoga com o mesmo repertório simbólico observado em outras experiências populistas contemporâneas.
No Brasil, apesar da recomposição parcial do campo institucional sob o governo Lula, a extrema direita bolsonarista permanece ativa e mobilizada. A deslegitimação sistemática das instituições, os ataques recorrentes à imprensa e ao Supremo Tribunal Federal e a exploração contínua de afetos negativos indicam que o populismo autoritário segue operando como força latente, mesmo fora do comando direto do Executivo.
O fio que conecta essas experiências é a instrumentalização do medo e da insegurança como tecnologia política. O populismo contemporâneo não é apenas um estilo de liderança, mas um projeto de poder que substitui o debate público informado por narrativas simplificadoras de salvação nacional. A criação do inimigo interno e a promessa de ordem em meio ao caos ocupam o lugar da política como construção de consensos.
É nesse ponto que as reflexões de Wilhelm Reich, mobilizadas nesta entrevista, revelam sua atualidade incômoda. A adesão ao autoritarismo nasce de estruturas psíquicas moldadas pela repressão, pela angústia e pelo desejo de submissão a figuras fortes. A “liberdade” prometida por esses líderes converte-se, paradoxalmente, em servidão emocional.
Em 2026, a questão central já não é apenas se as instituições democráticas resistirão, mas se as sociedades serão capazes de enfrentar esse avanço sem reproduzir a lógica do inimigo, da exceção permanente e da guerra simbólica. A história sugere que o preço desse atalho é alto. E que raramente é pago apenas por quem o escolhe.

