Trump e a decomposição da ordem global: crise interna e multipolaridade conflituosa

Donald Trump não apenas mudou a política externa dos EUA; ele rompeu com o princípio da autocontenção, inaugurando a era do “multilateralismo zumbi”. O resultado? Uma multipolaridade sem centro onde todos exploram os dividendos do caos.

A ordem internacional construída após 1945 não está ruindo por um choque externo repentino, mas dissolve-se lentamente pela erosão dos seus pilares. Nesse processo, os Estados Unidos sob Donald Trump cumprem papel decisivo. Não se trata apenas de um governo, mas do sintoma de uma crise estrutural profunda: a incapacidade da potência hegemônica de sustentar a autocontenção que, por décadas, deu legitimidade à sua liderança. Trump nega o princípio da ordem liberal, substituindo mediações institucionais por demonstrações de poder bruto, bilateralismo agressivo e uma forma de neo-imperialismo performativo, na qual o poder não precisa ser exercido de fato, mas apenas afirmado de maneira ruidosa e imprevisível, como um espetáculo de força sem compromisso com resultados concretos. Embora seus dois mandatos se inscrevam em contextos históricos distintos, ambos expressam a mesma lógica de ruptura, operando sobre um sistema profundamente erodido.

O que marca essa inflexão é que a desestabilização não nasce necessariamente no exterior, mas cresce no interior da própria sociedade norte-americana. A política externa torna-se extensão direta de conflitos domésticos. Polarização extrema, violência institucional, crises de legitimidade e estratégias sistemáticas de distração corroem a autoridade moral dos Estados Unidos e comprometem sua capacidade de agir como potência ordenadora. O resultado não é uma transição organizada para um novo equilíbrio global, mas a emergência de uma multipolaridade conflituosa, fragmentada e estruturalmente instável.

A ordem do pós-guerra apoiava-se em três fundamentos relativamente claros: instituições multilaterais capazes de mediar conflitos (ONU, Bretton Woods, OMC), o direito internacional como linguagem mínima de regulação e uma hegemonia norte-americana que, embora assimétrica, exercia autocontenção estratégica. Trump rompeu sobretudo com esse terceiro elemento. Sua lógica não corresponde ao realismo clássico, mas àquele neo-imperialismo performativo já mencionado.

A retirada de acordos multilaterais, a guerra comercial com a China, o uso seletivo da retórica de direitos humanos no Irã ou na Venezuela e a instrumentalização de crises internas como a de Minneapolis não constituem episódios desconexos. São manifestações de uma mesma racionalidade política, que esvazia o direito internacional como referência e transforma a política externa em ferramenta de mobilização doméstica. Trump não inaugura esses processos, mas atua como catalisador de tendências já em curso na economia política internacional. Episódios recentes de violência envolvendo agentes federais, bem como o tensionamento ou a obstrução de investigações conduzidas por autoridades locais, ultrapassam o campo jurídico e revelam a dificuldade de produzir coerência institucional mínima. A pergunta que se impõe é simples e perturbadora: como liderar o mundo quando já não se consegue governar a própria casa?

A resposta internacional a essa ruptura tem sido marcada menos por resistência coordenada do que por fragmentação estratégica. A Europa oscila entre declarações normativas e acomodações pragmáticas, presa à dependência militar e energética. A China avança com uma cautela calculista, sem oferecer um projeto universal alternativo, apostando na erosão gradual da centralidade norte-americana; a Rússia atua como força de desestabilização permanente, mais interessada em bloquear consensos do que em construir uma nova ordem. As instituições multilaterais sobrevivem como um multilateralismo zumbi:  estruturas formais esvaziadas de autoridade, onde todos exercem poder de veto, mas ninguém assume o custo da liderança.

Crises como as do Irã ou da Venezuela ilustram esse impasse. Elas deixam de ser tratadas como problemas globais a serem administrados coletivamente e passam a funcionar como peças de um jogo geopolítico desagregado. Os Estados Unidos mobilizam a retórica dos direitos humanos de forma instrumental; China e Rússia exploram essas mesmas crises conforme os seus interesses. Não há projeto alternativo em disputa, apenas competição por influência em um cenário de vácuo normativo.

Esse vácuo, contudo, é inseparável da crise interna norte-americana. Episódios de violência policial, mobilização da Guarda Nacional contra cidadãos e escândalos políticos recorrentes são convertidos em narrativas de “lei e ordem” que cumprem uma dupla função: reforçam a coesão de uma base eleitoral radicalizada e legitimam uma política externa agressiva. Trata-se de uma clássica política do desvio. Em vez de enfrentar desigualdades estruturais, precarização do trabalho ou a captura do Estado por interesses econômicos concentrados, desloca-se a atenção pública para inimigos internos e externos.

Mesmo quando indicadores econômicos apresentam melhora pontual, isso não se traduz em confiança institucional ou coesão social. Para o resto do mundo, a imagem projetada é a de uma potência atravessada por conflitos latentes, cuja instabilidade interna se converte em imprevisibilidade estratégica. Longe de reforçar a liderança global, esse quadro alimenta a percepção de declínio e incentiva comportamentos oportunistas de outros atores.

A consequência é uma multipolaridade sem centro e sem regras claras. Os Estados Unidos já não sustentam o papel que exerceram no pós-guerra; a China assiste ruir a ordem existente; a Rússia se satisfaz em produzir instabilidade contínua. Conflitos regionais tornam-se palcos de disputas sistêmicas, e ameaças de intervenção militar, longe de conter crises, tendem a ampliá-las, envolvendo atores regionais e aprofundando o custo humano.

O aspecto talvez mais inquietante desse momento histórico é que a fragmentação é também ideológica. Falta um discurso normativo consistente capaz de disputar a narrativa do medo e da força. As forças progressistas falharam em oferecer respostas críveis à financeirização, à precarização do trabalho e à tecnopolítica que redefine as relações de poder. A direita populista, por sua vez, capitaliza o descontentamento sem apresentar soluções estruturais. A insegurança torna-se, assim, o novo normal.

A hipótese central que emerge desse quadro é clara: não se trata de uma relação causal simples, em que a crise interna norte-americana “produz” mecanicamente a instabilidade externa, mas de um processo de alinhamento e retroalimentação. A ordem mundial contemporânea está sendo desestabilizada por uma potência hegemônica em crise. Sob Trump, os Estados Unidos deixam de funcionar como estabilizador sistêmico e passam a projetar sua própria desorganização interna sobre o cenário internacional. A multipolaridade que se consolida não é fruto de um rearranjo ordenado, mas de um sistema no qual até as superpotências operam sobre bases internas frágeis. Ninguém quer arcar com o custo da ordem; todos exploram, de diferentes maneiras, os dividendos do caos.

Nota

Este ensaio não pretende oferecer uma teoria da crise internacional nem estabelecer relações causais lineares entre política doméstica e geopolítica. Seu objetivo é formular uma hipótese interpretativa sobre o entrelaçamento entre instabilidade interna dos Estados Unidos e a decomposição da ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra. Trata-se de um exercício de reflexão crítica, que busca iluminar tendências estruturais em curso e abrir debate, não o encerrar.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Deixe um comentário