O futebol, às vezes, guarda lições que a política insiste em esquecer. Esta é uma memória sobre herança, ditadura e a diferença entre vencer e ter honra.
Eu sou são-paulino graças ao meu pai. A escalação que povoa a minha imaginação não tem Sérgio, Forlán e Pedro Rocha, craques que me fizeram sonhar. Nem, tampouco, sei se esse time chegou a jogar noventa minutos junto. Mas era o meu time de botões: Waldir Peres; Getúlio, Estevam, Bezerra e Antenor; Chicão, Teodoro e Neca; Viana, Serginho e Zé Sérgio.
Em 1978, esses jogadores faziam parte do elenco que, sob o comando de Rubens Minelli, havia sido campeão brasileiro no ano anterior e me fez feliz por torcer pelo São Paulo vencedor. Era um período difícil. A ditadura desgraçava vidas, meu pai sofria, e eu não entendia.
Muita coisa aconteceu entre a década de 1970 e estes primeiros dias de 2026. O meu pai é lembrança. A ditadura caiu, mas os canalhas que prosperaram graças a ela seguem soltos e conspirando. E o São Paulo Futebol Clube, o time do coração, conhece hoje o impedimento de seu presidente.
Por algum motivo, lembro-me agora de uma história que me comove e faz de mim um dissidente: houve um tenente da Força Pública, chamado Porphyrio da Paz, que empenhou a própria casa por amor ao São Paulo. Perdeu-a. A ele devemos o nosso hino.

