A democracia atacada pela mentira e pelo fundamentalismo

No Brasil, a democracia está sob ataque coordenado. De um lado, a mentira institucionalizada, blindada pela imunidade parlamentar e amplificada por algoritmos que lucram com o ódio. Do outro, o fundamentalismo religioso, que transformou o Congresso em trincheira de uma moral seletiva, subvertendo a laicidade do Estado e criminalizando direitos.

No Brasil, a democracia está sob cerco, e os responsáveis são extremistas perigosos. Não se trata apenas dos algoritmos que premiam a polarização e a desinformação, nem do capitalismo de vigilância, que transforma dados em moeda de manipulação. O problema central é a leniência ou a cumplicidade das instituições. Deputados e senadores de extrema direita usam as prerrogativas do mandato como escudo para disseminar notícias falsas, enquanto as casas legislativas, o sistema de justiça e a imprensa observam e, não raro, são coniventes. A imunidade parlamentar, criada originalmente para proteger o mandato do arbítrio e da perseguição política, tornou-se um salvo-conduto para a mentira institucionalizada. Essa estratégia serve aos operadores políticos e às elites econômicas que, aliadas às big techs, encontraram na desinformação uma ferramenta eficiente para encurralar os democratas e subverter a representação popular.

A infiltração de autoproclamados pastores no Congresso não é um fenômeno de fé, mas de poder. É a consolidação da subversão da laicidade do Estado, princípio garantido pela Constituição de 1988, mas sistematicamente violado em nome de uma moral seletiva. Projetos de lei que criminalizam corpos, atacam direitos reprodutivos ou negam a ciência não são expressões de religiosidade; são instrumentos de controle social. Quando um parlamentar usa o púlpito do plenário para ofender minorias ou promover dogmas particulares, está impondo uma teocracia autoritária disfarçada de democracia. Enquanto isso, a justiça frequentemente age com lentidão, as plataformas digitais lucram com o ódio, e a imprensa tradicional oscila entre a falsa equivalência e a omissão.

O que está em jogo não é apenas a ética, mas a própria soberania nacional. As big techs, sediadas fora do país, ditam as regras do debate público, enquanto elites locais se beneficiam do caos. A combinação é letal: de um lado, algoritmos que radicalizam; de outro, uma classe política que instrumentaliza a religião para justificar retrocessos. O resultado é um Estado refém de interesses privados, uma opinião pública manipulada e uma Constituição esvaziada de seu espírito original.

O ordenamento jurídico brasileiro prevê conselhos de ética, ações no STF e crimes contra o Estado Democrático de Direito, mas sua aplicação esbarra na falta de vontade política. A imunidade parlamentar não é absoluta; ela não cobre crimes comuns, discursos de ódio ou abusos comprovados. O STF já deu sinais de que não tolerará ataques às instituições, como na condenação do deputado Daniel Silveira ou nos inquéritos sobre milícias digitais. No entanto, enquanto a sociedade não pressionar por responsabilização e os democratas permanecerem na defensiva, a mentira seguirá impune.

A resposta exige pressão institucional para exigir que o Congresso e o Judiciário apliquem as sanções já previstas em lei; mobilização social para fortalecer redes de checagem, educação midiática e organizações da sociedade civil; e, finalmente, reforma política e regulatória para limitar prerrogativas abusivas, regular as plataformas digitais e garantir transparência total.

Não vivemos uma crise passageira, mas um projeto deliberado. Um projeto que usa a fé como arma, a desinformação como tática e a complacência das instituições como aliada. Se não agirmos agora, a democracia brasileira corre o risco de se tornar um regime de fachada, onde as regras existem, mas só valem para alguns.

É hora de dar um basta.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Deixe um comentário