Desenvolvimento regional e a alma criativa do interior: entrevista a ‘Opinião Taquaritinga’

Cidades de pequeno e médio porte podem enfrentar os desafios do Brasil contemporâneo: da desindustrialização à dependência tecnológica. A inovação de proximidade e a articulação entre educação, arte e política surgem como caminhos para o desenvolvimento regional.

Nota

Esta entrevista, que concedi ao jornal Opinião Taquaritinga em janeiro de 2026, retoma algumas questões para o debate sobre o futuro das cidades brasileiras e o papel do interior na construção de alternativas democráticas. Ao republicá-la, busco ampliar a reflexão sobre como a inovação local, a memória histórica e a articulação política podem responder aos desafios da desindustrialização, da dependência tecnológica e da fragmentação social.

Fale-nos um pouco sobre sua relação com Taquaritinga.

Taquaritinga sempre esteve no meu horizonte intelectual e afetivo. Guardo com carinho a influência da professora Joanina Libanori, minha amiga querida, que me ensinou como o desenvolvimento de uma cidade depende da articulação entre educação, arte e política. Taquaritinga e Araraquara compartilham essa identidade: cidades do interior que, apesar de sua escala, foram protagonistas na descentralização da resistência democrática e da inovação cultural nos anos 80. O Brasil democrático de hoje deve muito à juventude do interior daquele período. Ignorar o interior é ignorar a própria alma criativa do País.

Como analisa a situação do Brasil na nova ordem mundial, sobretudo em relação aos Estados Unidos e à América Latina?

Baptistini: O Brasil enfrenta hoje o dilema de como se posicionar entre a força hegemônica dos EUA e a ascensão de novos polos, como a China, sem resolver sua própria desindustrialização e dependência tecnológica. A soberania não se mede apenas por fronteiras territoriais, mas pela capacidade de gerar tecnologia e controlar recursos financeiros. O risco é nos tornarmos um país que exporta dados e matérias-primas, enquanto importa inteligência e soluções. Sem uma agenda que una inovação digital, distribuição de renda e um projeto de Estado consistente, seguiremos presos a ciclos de euforia e crise. A fragmentação política em torno de disputas eleitorais rasas só adia o enfrentamento desses desafios.

Quais são os desafios para as cidades de pequeno/médio porte, como Taquaritinga, se desenvolverem diante da realidade atual?

Cidades como Taquaritinga são laboratórios ideais para o que chamo de “inovação de proximidade”. Mas há gargalos críticos. Não basta atrair empresas, é preciso atrair negócios que gerem valor local, como agroindústrias inteligentes e economias criativas. Além disso, é urgente conter o êxodo de jovens, criando ecossistemas próprios como incubadoras de cooperativas, laboratórios cidadãos e políticas que dialoguem com a realidade do território. A descontinuidade administrativa é um dos maiores obstáculos, pois projetos sérios não podem ser interrompidos a cada quatro anos. Precisamos de planejamento regional com conselhos deliberativos, não apenas consultivos, e orçamentos que transcendam os mandatos.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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