Ao substituir o pensamento crítico pelo empreendedorismo neoliberal, governos como os de São Paulo, Paraná e Goiás não apenas alteram currículos, mas pavimentam o caminho para uma massa acrítica, governada por algoritmos e mitos digitais.
Há algo de perturbador por trás do progresso proporcionado pela tecnologia em seu atual estágio. Apenas os encerrados em si mesmos não percebem a regressão moral, cognitiva e democrática acelerada pelas big techs e pelo capitalismo de plataforma. É um mal-estar que remete a Edgar Morin e ao seu livro Lições da História. Na décima quinta lição, ele lembra que o mito do progresso linear, como lei suprema da História, foi formulado por Condorcet e se espalhou desde o século XIX. Mas a História confronta o avanço técnico com a barbárie de Auschwitz, Hiroshima e Gaza. A tecnologia em si não é o problema, mas o uso que dela se faz. Sua associação com discursos religiosos para o domínio político, nesta era das redes digitais, apaga a memória e avança rápido rumo a uma distopia pós-humana.
Edgar Morin não está sozinho em sua reflexão sobre a importância da História para a aventura humana. Também C. Wright Mills, com sua “imaginação sociológica”, sugere que a História é a base sem a qual se torna impossível entender as estruturas sociais e os processos de mudança. Setores da extrema direita brasileira, com influência em esferas governamentais, têm promovido um cerceamento sistemático das ciências humanas e sociais. Em São Paulo, a gestão estadual reduziu drasticamente a carga horária de História e Sociologia no Ensino Médio. A Sociologia, por exemplo, foi retirada do 1º e 3º anos, enquanto a Filosofia foi suprimida do 2º e 3º anos. Esse caminho foi trilhado também em estados como Goiás, Paraná e Rio de Janeiro, cujas diretrizes optaram por priorizar disciplinas técnicas e o empreendedorismo em detrimento da base humanística. A consequência vai muito além da formação para o mercado: pratica-se o esvaziamento da História e o enfraquecimento da educação crítica, criando uma geração formada para consumir, não para questionar.
A ascensão do empreendedorismo nas escolas não é um movimento isolado; ela reflete a pedagogia neoliberal, que individualiza responsabilidades, despolitiza a formação e naturaliza as desigualdades. Nesse contexto, a pobreza passa a ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, ignorando as estruturas sociais; a noção de cidadania é substituída pela de consumidor; e o mercado torna-se o único espaço de realização. Esse projeto é funcional a correntes políticas que dependem de uma população massificada, acrítica e muitas vezes movida pelo ressentimento diante das dificuldades estruturais da vida.
Dificultar a capacidade crítica é uma estratégia de domínio. Como explica o filósofo Jason Stanley, ao limitar o acesso aos conceitos necessários para entender o mundo, cria-se um ambiente onde as pessoas reagem de forma meramente emocional aos acontecimentos. Isso compromete a autonomia necessária à vida democrática, retirando do cidadão a capacidade de questionar tradições e reescrever narrativas. O que sobra é o dogma: a imposição de uma ordem moral rígida que, ao repelir a realidade complexa, acaba por abrir espaço para tragédias como o feminicídio, o ecocídio e as tiranias. Onde morre o dissenso, nasce o autoritarismo.
Os smartphones cumprem um papel fundamental como infraestrutura nesse processo. Não são aparelhos neutros, mas suportes de algoritmos que premiam o engajamento emocional em detrimento da factualidade. Conteúdos baseados no medo e na nostalgia espalham-se com velocidade superior às análises complexas. Grupos de pressão e setores do neopentecostalismo utilizam essas plataformas para disseminar narrativas mitológicas que mobilizam emoções e alcançam pessoas intencionalmente privadas de ferramentas críticas. Um exemplo concreto é o uso de redes de mensagens para a propagação de desinformação sobre o sistema eleitoral ou o uso de dispositivos digitais por organizações religiosas para a captação de dízimos e a promessa de prosperidade imediata, mercantilizando a fé por meio de aplicativos.
Trata-se da era do domínio das big techs e dos novos oligarcas, que comandam a transição do capitalismo ao que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo. Uma elite que opera em aliança com forças políticas radicais para extrair renda e acumular poder. Figuras como Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Elon Musk e Larry Page controlam as plataformas que moldam as narrativas globais. Enriquecem com o progresso técnico sem o devido compromisso com a estabilidade das sociedades. Vendem uma ideia abstrata de liberdade de expressão enquanto controlam autocraticamente os meios de comunicação, permitindo a erosão da vontade popular. Os “servos” desta nova era são os trabalhadores de aplicativos: entregadores e motoristas sem direitos, monitorados por algoritmos. No Brasil, esse modelo encontra eco em discursos religiosos que pregam a prosperidade individual como único sinal de benção divina.
Nessa engenharia social, convergem a desinformação industrializada, o empreendedorismo como ferramenta de controle e o apagamento da História. Esse ecossistema serve a forças políticas que ocupam o Congresso e governos estaduais, unidas em torno de um projeto que transcende figuras individuais. É uma mudança de época dinamizada por tecnologias disruptivas sob controle de poucos, escapando aos mecanismos de controle jurídico criados no século passado.
A resistência democrática deve enfrentar o tecnofeudalismo regulamentando as plataformas e recuperando a centralidade da escola pública. É urgente resgatar as disciplinas humanísticas e promover o diálogo como forma de socialização. Mas, sobretudo, é preciso ter coragem para denunciar o obscurantismo e defender, com firmeza, a ciência. Não é possível assistir passivamente à vida passar nas costas de jovens pedalando, exaustos, pelas ruas do país, com mochilas carregadas de lanches noite adentro, enquanto imaginam empreender solitariamente o próprio destino.
Referências:
MILLS, Charles Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1959.
Morin, Edgar. Lições da história. Porto Alegre: L&PM Editores, 2025.
Stanley, Jason, Apagando a história: como os fascistas reescrevem o passado para controlar o futuro. Porto Alegre: L&PM Editores, 2025.
Varoufakis, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.
