A Casa Verde de Milei: o continente da insensatez

O governo Milei tem sido marcado por uma queda histórica na utilização da capacidade industrial e uma reprimarização da economia que ignora os desafios do capitalismo de plataforma.


Definitivamente, a loucura é um continente, como pensava Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis em O Alienista. E, no caso, o continente é a América. No Sul, prostrado ao Norte, um demente que imagina conversar com seus cães mortos e pensa ser um popstar destrói a autonomia econômica da Argentina, convencido de estar fazendo um ótimo trabalho, com olhos voltados ao passado do modelo agroexportador. O sujeito não percebe que os desafios, hoje, são outros; e que o próprio capitalismo, se é disso que se trata, já não é de produção, mas de plataformas, ou está a ser superado por um tecnofeudalismo.

Em instigante artigo estampado na edição de 21 de fevereiro do periódico Página 12, Marcial Amiel expõe a tragédia que aflige o povo argentino. Sua elite conduz o país à reprimarização da economia e à desregulamentação do trabalho. É a peruanização da Argentina. Citando o economista francês Thomas Piketty, atualmente professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), o analista explica que o resultado esperado é instabilidade política e desigualdade econômica. E é bom lembrar que isso já existe.

A desindustrialização durante o governo de Javier Milei, iniciado em dezembro de 2023, é marcante. Em 2024, a utilização da capacidade instalada na indústria operou em patamares críticos, frequentemente abaixo dos 58,3%, no que foi um dos piores desempenhos em décadas. Fábricas encerraram atividades e postos de trabalho foram fechados, especialmente nos setores de metalurgia e manufatura, aprofundando a dependência externa e a vulnerabilidade do país a oscilações globais. A pobreza, que chegou a 52,9% no primeiro semestre, recuou para 38,1% no segundo semestre, um efeito estatístico de “rebote”, volátil e meramente contábil; ainda assim, a recessão e a queda do poder aquisitivo dos salários, devido à inflação acumulada e aos cortes em programas sociais, afetaram diretamente a demanda interna, com consequências perversas para o setor produtivo.

Apesar de o cenário apontar para uma aceleração da desindustrialização ao ponto da irreversibilidade, com impactos sociais e econômicos previsíveis de longo prazo, uma parte da população vive imersa nas bolhas das redes sociais, incapaz de debater o próprio destino. E, ao contrário dos habitantes de Itaguaí, não verá o louco se trancar na Casa Verde, mas acabará ela própria, e os seus descendentes, aprisionada no subcontinente, sem acesso a uma simples geladeira, trabalhando sob jornadas do século XIX, sem direitos elementares, imaginando ter alcançado graus de civilização e progresso nunca vistos. Terão chegado ao Peru, de fato. Ao Peru de Vargas Llosa e sua Casa Verde. E pensar que Sarmiento, ao tentar extirpar a barbárie em nome de uma civilização importada, acabou por semear o solo onde hoje padecem los hermanos.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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