Entre o marketing da ‘Fúria Épica’ e o silêncio dos escombros em Gaza, o Oriente Médio assiste a uma nova e perigosa escalada. Enquanto Trump e Netanyahu reeditam táticas de desumanização sob o pretexto da segurança global, os registros históricos revelam um projeto de poder persistente.
Donald Trump e seu aliado israelense Benjamin Netanyahu atacaram o Irã, escalando as tensões no Oriente Médio. A justificativa para a ação, que atingiu civis, alcançando inclusive uma escola de meninas e vitimando cerca de 50 pessoas entre adultos e crianças1, é a suposta ameaça representada pelo programa nuclear da nação persa.
A investida da vez recebeu o sugestivo nome de “Fúria Épica”, algo que transcende a raiva comum e a eleva à categoria mítica, evocando o avassalador. Os estrategistas e seus especialistas em marketing do terror parecem ter pretendido associar-se aos deuses gregos. Se foi isso, esqueceram que, além da incapacidade de sentir piedade, a fúria épica traz a inaptidão para distinguir amigo de inimigo e um custo sacrificial para o furioso, que conhece um final trágico: perde a energia vital e submerge em um vazio absoluto.
Enquanto isso, na Palestina, a ciranda de loucos continua ao custo de mais de 72 mil vítimas, considerando-se ainda as mortes decorrentes da desnutrição e das infecções causadas por esta tragédia evitável, conforme estudo publicado na revista The Lancet Global Health em janeiro de 20262.
De fato, os Estados Unidos já não são a superpotência de outrora e, não bastasse, perdem a autoridade moral para reivindicar a liderança. Sob Trump, observa-se uma nação que agoniza internamente e que carrega, em seu naufrágio, a ordem construída com sangue e suor sob os escombros de duas grandes guerras. Hoje, atormentada e confundida, a humanidade afunda-se entre a indignação e o ressentimento explorados com habilidade por líderes da estirpe de Trump, Netanyahu e Milei. As Big Techs e seus algoritmos fazem o serviço sujo de difusão da miséria travestida de entretenimento e desinformação pelas redes digitais. E seguimos.
Para compreender a raiz do que hoje atinge o Irã e sufoca a Palestina, resgato abaixo um ensaio anterior, no qual analiso o martírio de Khan Yunis e Rafah e a persistência do projeto de desumanização em curso.
Khan Yunis e Rafah: o martírio de um povo
Khan Yunis e Rafah são cenários da tragédia de um povo. As vítimas são homens, mulheres e crianças da Palestina, árabes, em sua maioria.
Khan Yunis é uma antiga cidade localizada na Faixa de Gaza, a poucos quilômetros do Mar Mediterrâneo. Registros históricos remetem a sua existência ao século XIV, à vila muçulmana de Salgah, governada por Yunis Ibn Abdallah an-Nawruzi ad-Dawadar, de onde deriva o nome Khan Yunis: hospedaria de Yunis.
Em novembro de 1956, durante a Crise do Canal de Suez3, forças militares israelenses ocuparam a Faixa de Gaza, então sob controle egípcio, e promoveram o que ficou conhecido como o massacre de Khan Yunis. Quase três centenas de civis palestinos — 275, conforme reconhece a ONU — foram assassinados em sua terra. A ministra das Relações Exteriores de Israel, à época, era Golda Meir.
Documentos da época revelam a sistemática violência contra a população local. Em correspondência enviada à Organização das Nações Unidas para a Supervisão de Tréguas (UNTSO) em 13 de novembro de 1956, o tenente-coronel R. F. Bayard, observador da ONU, relatou que os militares israelenses impediam a circulação de observadores internacionais para ocultar as medidas tomadas contra civis. Baseando-se em relatórios da UNRWA4 e em depoimentos de testemunhas, o oficial concluiu que o tratamento dispensado à população era cruel e desumano, com execuções a sangue-frio e saques generalizados de bens pessoais e ferramentas de trabalho. Em seu relato, Bayard, um militar norte-americano, destacou que os palestinos imploravam pela presença da ONU como sua única esperança de “fé no futuro” (SACCO, 2010, pp. 390-391).
Rafah, localidade histórica cujo primeiro registro remonta à antiga civilização egípcia, é uma cidade que, em 1982, durante a retirada de Israel do Sinai, foi dividida entre a Faixa de Gaza e o Egito. Foi ali que, um dia antes da carta do tenente-coronel Bayard, o terror se intensificou. Durante a Crise de Suez, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Moshe Dayan, defendeu a importância estratégica do lugar em seu diário de campanha5. No entanto, em 12 de novembro, o alvo escolhido foram os civis.
A imprensa internacional ecoou a gravidade dos eventos. Relatos do jornalista Donald Wise, do Daily Express, descreveram soldados israelenses pulando dos caminhões para agredir cidadãos sem motivo algum, com fontes da ONU confirmando dezenas de mortes naqueles incidentes (SACCO, 2010, p. 393). Registros oficiais indicam 111 mortos naquele dia em Rafah, embora os palestinos acusem 197 vítimas e 213 desaparecidos em um fuzilamento premeditado.
Khan Yunis e Rafah permanecem como cenários da tragédia palestina. O desenvolvimento desse enredo tem como espectadores os poderosos que decidem o destino da humanidade a partir de gabinetes de entidades políticas e instituições financeiras, cercados de luxo e segurança. Os atores, no entanto, continuam sendo os homens, as mulheres e as crianças da Palestina.
Os que operam os interesses de Israel recorrem ao que Eric Hobsbawm denominou “tradição inventada”6, a construção de uma continuidade histórica sacralizada para justificar a violência presente. Obscurecem o que deveriam esclarecer, pois o reconhecimento da humanidade do outro não é um dado natural, mas uma construção histórica. Os que se julgam escolhidos ou membros de raças superiores continuam a infestar os ambientes. As ideologias que embasam sua crença de preeminência continuam a circular com vigor em nosso mundo. Elas não pertencem a um povo específico, mas a estruturas mentais de poder que atravessam sociedades e épocas, sempre prontas a desumanizar o outro em nome de um projeto político ou da falácia da eleição divina.
Bibliografia:
DAYAN, Moshe. A guerra do Sinai. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1967.
DEVI, Sharmila. Ceasefire barely improves “horrific” situation in Gaza. The Lancet. World Report. Volume 407, p. 210-211, January 17, 2026. In: The Lancet < https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)00086-3/abstract > Acesso em 28/02/2026.
EUA e Israel lançam ataque coordenado contra o Irã; Teerã reage com mísseis. In: UOL < https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/02/28/israel-ira-ataque-explosoes.htm > Acesso em 28/02/2026
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
SACCO, Joe. Notas sobre Gaza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- Um ataque de Israel deixou mais de 50 mortos em uma escola no sul do Irã, segundo a imprensa local. Meninas teriam sido mortas durante o ataque aéreo contra uma escola primária no sul do país à medida que o conflito se intensifica. EUA e Israel lançam ataque coordenado contra o Irã; Teerã reage com mísseis. In: UOL < https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/02/28/israel-ira-ataque-explosoes.htm > Acesso em 28/02/2026 ↩︎
- Sharmila Devi. Ceasefire barely improves “horrific” situation in Gaza. The Lancet. World Report. Volume 407, p. 210-211, January 17, 2026. In: The Lancet < https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)00086-3/abstract > Acesso em 28/02/2026. ↩︎
- A Crise do Canal de Suez iniciou-se em 26 de julho de 1956 e foi provocada pela decisão norte-americana e britânica de suspender o financiamento para a construção da Barragem de Assuã pelo Egito, como haviam prometido. A medida foi uma resposta à política nacionalista do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e à sua aproximação com países do bloco comunista. Em resposta, Nasser nacionalizou o canal, declarou lei marcial na zona e assumiu seu controle. ↩︎
- Sigla em inglês da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees). ↩︎
- Moshe Dayan. 1967. ↩︎
- Eric Hobsbawm & Terence Ranger (orgs.). 1984. ↩︎
