Enquanto 12 bilionários concentram mais riqueza do que metade da humanidade, e algoritmos decidem o que é verdade para bilhões de pessoas, a guerra se torna o espetáculo preferido de uma civilização que trocou o mundo real pelas telas.
Vivemos em um mundo no qual a realidade importa pouco. Pessoas com os olhos voltados às telas de seus smartphones aceitam como verdade a mentira industrializada e reagem emocionalmente ao estímulo dos algoritmos. Estes, por sua vez, tornaram-se os gestores de comportamento, funcionais à reprodução de uma ordem pós-humana na qual o poder da abstração se impõe ao real.
Ignorante da realidade, a multidão acompanha o morticínio em territórios distantes como se fosse entretenimento, algo como um jogo com heróis e vilões. Assim, não percebe que há um padrão no que se pratica.
Desde que reassumiu o poder, em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump envolveu os Estados Unidos em ações militares diretas em pelo menos sete países: Irã, Venezuela, Síria, Iraque, Somália, Nigéria e Iêmen. Isso parece representar um movimento com sentido, não um desvio. Talvez a crise econômica interna ofereça uma resposta à escalada bélica, mas a perda de hegemonia global não pode ser ignorada.
Em seu instigante livro “A Loucura da Razão Econômica: Marx e o Capital no Século XXI”, no qual se propõe a atualizar o pensamento de Karl Marx para enfrentar a crise do capitalismo, o geógrafo David Harvey ilumina a razão econômica da destruição. Talvez os norte-americanos estejam revivendo, em escala sem precedentes, os temores de crises anteriores, como as de 1929, 2000 e 20081, nas quais o capital fictício se descolou irremediavelmente da economia real e se tornou irrealizável. E isso ocorre em uma escala inédita, estimada em quadrilhões de dólares2.
Simplificando: quando o capital fictício — ou seja, os ativos financeiros (derivativos, títulos públicos, ações valorizadas) — não corresponde à capacidade de geração de riqueza real, surge o problema da irrealização. A riqueza se torna papel inútil, sem correspondência com a realidade. Keynes alertou para essa loucura. Antes dele, em 1848, Marx sentenciou o destino da coisa ao escrever que “tudo o que é sólido desmancha no ar”.
Num mundo em que 12 bilionários, com fortuna estimada em US$ 2,635 trilhões, concentram mais riqueza do que a metade da população global (4 bilhões de pessoas), e em que sua riqueza cresceu 16,2%, três vezes mais rápido do que a média dos cinco anos anteriores, é possível especular o motivo da difusão da ignorância pelos meios digitais. Boa parte do que esses superbilionários possuem está sustentada em abstrações. E aqui está o nosso ponto de atenção.
Quando ativos financeiros começam a ser desvalorizados, por serem irrealizáveis, bancos colapsam. O mesmo acontece com Estados. Sociedades inteiras padecem pelo simples motivo de que a queda do valor dos papéis aumenta o valor real das dívidas: as pessoas dormem imaginando possuir estabilidade financeira e acordam pobres, devendo, com o futuro desgraçado. É o momento em que ocorrem falências em massa, demissões e o desespero se apodera das gentes. É a destruição da economia real pela crise da economia fictícia, abstrata, financeira. O capital celebrando suas orgias.
Enquanto as pessoas, tal qual autômatos, são controladas por algoritmos e convencidas por demagogos da direita e da extrema direita de que o vilão da vez é o Irã, por exemplo, elas desconhecem que, na história do capitalismo, as crises de superacumulação foram resolvidas com a destruição. A guerra aparece como uma forma de resolução para os tecnocratas a serviço dos donos da riqueza.
A guerra põe abaixo fábricas, infraestrutura e elimina vidas humanas excedentes, não absorvíveis, inúteis para a reprodução do capital. Assim, abre espaço para o salto à frente, criando mercado com a reconstrução. Penso especificamente em Donald Trump, o empreendedor imobiliário e seu plano para uma “Palestina dos ricos e famosos”, mas há o exemplo histórico do Plano Marshall na reconstrução da Europa pós-Segunda Guerra. Não bastasse o espaço para a realização, há o saque que redistribui a riqueza via espoliação dos recursos dos territórios, como no caso do petróleo venezuelano.
Se é certo que as dívidas globais (públicas e privadas) estão em 340% do PIB mundial (FMI, 2023), é crível a hipótese de que exista um sentido nas ações militares do governo norte-americano a serviço dos capitalistas e dos bilionários das big techs, que já não são simples capitalistas, mas senhores feudais tecnológicos.
O militarismo de Trump parece estar associado às guerras por recursos, como petróleo e terras raras. É uma resposta a um problema estrutural de superacumulação que se manifesta com a perda de empregos industriais, o colapso da classe média, o aumento da dívida pública e as bolhas especulativas. A participação da indústria no PIB americano regrediu de 25% (1970) para 11% (2024), segundo o Bureau of Labor Statistics; dados do Federal Reserve de 2023 apontam que 50% dos americanos não têm US$ 500 para emergências; a dívida pública superou 120% do PIB em 2024; e o mercado de derivativos, em 2024, ultrapassava em cerca de US$ 170 trilhões o PIB, conforme o BIS (Bank for International Settlements). É uma situação crítica.
No Brasil, políticos da direita e da extrema direita vestem orgulhosos o chapéu da MAGA (Make America Great Again). Fazem coro com os demagogos que submetem o destino de seus concidadãos aos interesses dos capitalistas, sem se preocupar com a soberania ou com o futuro. Não atentam para os possíveis cenários que se descortinam. E se não houver uma recuperação da hegemonia norte-americana? E se a escalada bélica sair do controle nesta época tecnológica e nuclear?
Para os que creem, é sempre bom advertir: os deuses não se ocupam dos mortais e de suas tolices. Assistem à distância, como lhes é conveniente.
Bibliografia:
Harvey, David. A Loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI. 1ª. Ed. São Paulo: Boitempo, 2018.
- Em 1929, a especulação descontrolada em ações foi seguida por uma depressão global; em 2000, explodiu a bolha das dot.com, com as ações de empresas de internet despencando sem gerar lucro real; a crise de 2008 foi a dos derivativos lastreados em hipotecas podres. ↩︎
- O valor é citado frequentemente para anunciar o risco extremo e quando se somam as camadas de derivativos complexos e não registrados. Em 2026, o BIS (Bank for Internacional Settlements) situa o valor dos derivativos globais na casa das centenas de trilhões, entre 600 e 700 trilhões. ↩︎

Obrigado professor!
A pergunta que não quer calar:
A extrema direita brasileira pretende e tem condições intelectuais de fazer esse debate?
Desesperador os cenários, nacional e internacional!
Ficou muito bom, Rogério!