Uma reflexão sobre o erro da neutralidade nas eleições de 2018 e as lições para enfrentar o bolsonarismo em 2026.
A entrevista a seguir foi publicada originalmente no site da Fundação Astrojildo Pereira (FAP) antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Na ocasião, eu analisava a polarização política e o esgotamento do sistema partidário competitivo surgido com a redemocratização. Defendia que o centro político deveria atuar como agente de equilíbrio, garantindo a democracia, uma agenda reformista e um padrão civilizado de governabilidade. Criticava o PT por sua vocação exclusivista e reacionária, bem como por ter contribuído para a desconfiança generalizada nos partidos tradicionais. Acima de tudo, afirmava que o Brasil estava preparado para evitar um governo autoritário, graças ao Congresso Nacional e à vitalidade de uma cidadania ativa.
Hoje reconheço que errei ao defender a neutralidade do centro democrático no segundo turno. Era preciso ter cerrado fileiras para impedir a vitória de Jair Bolsonaro. O Congresso, que eu imaginava como anteparo democrático, revelou-se incapaz de cumprir o papel moderador que lhe atribuí, formado em grande medida por agentes que contribuíram para a instabilidade política. A prova está na aprovação de projetos como a flexibilização do porte de armas, nos ataques aos direitos das minorias e na omissão diante das ameaças ao STF e às urnas eletrônicas. Quanto à cidadania mobilizada, ela não garante, por si só, uma esfera pública de qualidade quando a cultura política se encontra degradada.
As três falhas de análise em 2018
Em 2018, subestimei três sinais que hoje são centrais para compreender a deterioração do processo democrático iniciado com a anistia de 1979:
1. A aliança entre a Operação Lava Jato e a mídia
A Operação Lava Jato assumiu dimensões político-midiáticas, com colaboração estreita entre procuradores, juízes e veículos da grande mídia. Enquanto o PT era colocado no centro da narrativa de corrupção sistêmica, outros atores políticos recebiam menor atenção. A desinformação institucionalizada inflamou o público, destruiu reputações e preparou o terreno para a radicalização que favoreceu a ascensão da extrema-direita.
2. O uso das redes digitais como armas de guerra política
Plataformas como WhatsApp, Facebook e X (antigo Twitter) foram instrumentalizadas para disseminar ódio e desinformação. Algoritmos priorizavam conteúdos emocionalmente carregados, grupos de WhatsApp coordenavam mobilizações e robôs espalhavam mentiras. O Datafolha mostrou que cerca de 60% dos eleitores de Bolsonaro acreditavam em pelo menos uma notícia falsa sobre o PT. Hoje o cenário é ainda mais complexo, pois o extremismo migrou para ambientes como Telegram e TikTok, onde a circulação de desinformação encontra menos freios institucionais.
3. O ressentimento social e sua captura política
Setores populares e segmentos da nova classe média que emergiram durante os governos Lula e Dilma foram duramente afetados pela crise de 2015–2018. Esse ressentimento foi capturado pela extrema-direita, que encontrou em redes religiosas neopentecostais um poderoso canal de mobilização política. Através da chamada “teologia da prosperidade”, difundiu-se a ideia de redenção individual associada ao sucesso material e à luta contra um inimigo político imaginado como ameaça. Isso ajuda a explicar, em parte, a vitória de Bolsonaro mesmo entre parcelas mais pobres da população.
O bolsonarismo em 2026: uma ameaça enraizada
Em 2018, o bolsonarismo era ainda um projeto político em formação; hoje tornou-se uma força social enraizada, com aliados internacionais e um projeto regressivo de erosão das bases institucionais da democracia estabelecida pela Constituição de 1988. O alvo da vez é o Supremo Tribunal Federal, que acabou cumprindo o papel moderador que eu atribuía ao Congresso e à cidadania. Sem o Tribunal, a tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023 poderia ter produzido consequências ainda mais graves.
A republicação desta entrevista não é um exercício de autocrítica vazia. É um chamado à ação. O bolsonarismo, como expressão da extrema-direita contemporânea, não é um fantasma do passado: é um projeto político vivo, que se adapta e avança. Caberá aos democratas tirar lições da história e cumprir o seu papel. Nesta eleição, há um lado certo.
P.S.
Com esta republicação, não busco o conforto da retratação, mas a honestidade de reconhecer que nós, os brasileiros, fomos testados, assim como as instituições. Em 2018, a minha falha foi não perceber que a mudança já estava em curso e que o chamado centro democrático era mais uma aspiração do que um fato. Este texto é um compromisso com o presente e com o engajamento em 2026. Desta vez, não é possível ser neutro: é preciso derrotar o bolsonarismo e a extrema-direita.
FAP Entrevista: Rogério Baptistini Mendes
Publicado originalmente em 5 de outubro de 2018
“A tarefa do centro político é garantir a democracia, a agenda reformista e um padrão civilizado de governabilidade no após-eleições”, avalia Baptistini.
Por Germano Martiniano
Faltando apenas três dias para as eleições, as chances de se modificar um quadro marcado pela forte polarização política são quase mínimas, segundo as pesquisas eleitorais do Ibope e Datafolha. Tudo indica que teremos um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, ou até uma vitória do candidato da direita no primeiro turno. Essa tendência de que há pouquíssimas chances para o centro político se confirmou por meio da debandada da bancada ruralista, que até então apoiava Alckmin, para o lado de Bolsonaro.
Diante desta nova realidade, muitos analistas já começam a conjecturar qual deverá ser o papel do centro político brasileiro e da esquerda democrática diante dessas duas possibilidades. Para Rogério Baptistini Mendes, doutor em sociologia pela Unesp e dirigente da Fundação Astrojildo Pereira (FAP), o centro político deverá ser “responsável e propositivo” em um possível segundo turno e também nos próximos quatro anos de governo de Bolsonaro ou Haddad.
FAP Entrevista – Tudo indica um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad. Entre os dois, qual seria o melhor ou o “menos pior” para o Brasil?
Rogério Baptistini Mendes – Considero a polarização entre Bolsonaro e Fernando Haddad ruim para o país. Ela aponta para o esgotamento do sistema partidário competitivo surgido com a transição democrática e para a persistência de uma cultura política autoritária e messiânica, o que torna ainda mais dramática a conjuntura que enfrentamos. É pouco provável que o resultado das urnas apazigue a sociedade e seja capaz de produzir consensos em torno das reformas necessárias para que o Brasil reencontre o caminho do desenvolvimento econômico, supere os males herdados e se projete vigoroso rumo ao futuro, com democracia e justiça social.
E quanto ao centro político, que posição deveria ter em um eventual segundo turno?
Nós, do centro, caso se confirme o quadro atual, devemos nos manter neutros no segundo turno. A nossa tarefa é garantir a democracia, a agenda reformista e um padrão civilizado de governabilidade no após-eleições. Temos história, experiência, responsabilidade e visão pública dos problemas. Num ambiente fissurado, teremos de conduzir nossa energia para produzir a justa medida, o equilíbrio, e impedir que o aventureirismo oportunista desgrace o destino dos brasileiros.
Do ponto de vista das reformas que o Brasil necessita, qual destes dois governantes tem mais capacidade de realizá-las e qual deve ser a prioridade do próximo governo?
Em se tratando da pauta das reformas, Bolsonaro e Haddad parecem igualmente incompetentes para realizá-las. O primeiro por estar descolado dos partidos e do sistema político, restando como um deputado marginal, afastado do grande debate; o segundo por atuar como preposto de Lula e representar um partido de vocação nitidamente exclusivista e reacionária.
Em um próximo governo, independentemente de quem seja o vencedor destas eleições, qual deverá ser o papel do centro político?
Conforme afirmei antes, o centro deve ser responsável e propositivo. Deve, também, atuar fortemente no sentido educativo, qualificando a sociedade para a democratização da democracia. O Brasil precisa de uma cultura pública robusta, capaz de conduzir ao consenso e reduzir a algaravia que deprime e rouba o ânimo. Os partidos e as forças que compõem o centro devem — para usar termos datados — produzir uma hegemonia cultural a partir da ação cotidiana e resgatar a ideia moderna e civilizada de que a oposição política é um direito democrático e deve ser exercida para o aprimoramento das vontades políticas.
O senhor é doutor em sociologia pela Unesp, portanto conhece bem a realidade de São Paulo. Por que Alckmin, que foi governador várias vezes, não conseguiu cair nas graças da população brasileira?
Creio que o eleitor perdeu a confiança no sistema de partidos saído da redemocratização. O PT, um dos maiores partidos, contribuiu muito para isso. Desde sempre fez a campanha da acusação e da desqualificação do sistema do qual ele próprio faz parte. Hoje, candidatos ligados aos partidos tradicionais, considerados pelos eleitores como “políticos profissionais”, estão sem prestígio, são vistos com desconfiança e desprezo. E o moralismo de setores da mídia e do Judiciário só piora as coisas!
O Governador Alckmin é vítima de um fenômeno paradoxal: o público não partilha uma convicção política do maior dos problemas públicos, que é o governo da sociedade política. Ao contrário, o público está atormentado por questões morais e visões particularistas e excludentes acerca do destino comum.
O movimento #EleNão impediu que Bolsonaro crescesse nas pesquisas? Ocorre no Brasil o mesmo que nos EUA com Trump: o eleitor está mais preocupado com segurança e economia do que com pautas identitárias?
O #EleNão fez o que poderia ter feito. E recebeu a resposta que era esperada da parte contrária. Os grandes problemas estruturais, nesta eleição, estão emaranhados e confundidos com os temas comportamentais e de costumes. E este é um dos motivos que reforça ainda mais a nossa responsabilidade. O centro político terá de garantir o pluralismo e a tolerância como bases de uma democracia democrática. E quando digo “democracia democrática”, quero dizer que as regras do jogo reclamam uma cultura política que as sustente.
O senhor acredita na tese do fatalismo, que o Brasil está jurado à ditadura de esquerda ou de direita? Ou já temos instituições consolidadas o bastante? Temos um Congresso efetivo e uma população participativa que possam impedir um governo autoritário?
O Brasil será uma grande nação. Em menos de um século, transformamos com o trabalho de nossa gente um país rural e exportador numa grande sociedade urbana e industrial. Hoje, estamos prestes a completar 30 anos sob uma constituição democrática, com a rotina das eleições, uma cidadania ativa e o respeito ao ordenamento jurídico. Há muito trabalho a ser feito, mas estamos preparados. Há que se manter o otimismo e a disposição.
