De 1954 à Lava Jato, passando pelas atuais coberturas seletivas da mídia, a lógica é a mesma: desviar o foco da soberania nacional para manter o povo sitiado. A história é antiga, mas o desfecho agora, como antes, dependerá da nossa capacidade de enxergar a engrenagem que nos sabota.
O Brasil padece sob uma elite nitidamente reacionária e antipopular, que desdenha da formação para a democracia. Não é por outro motivo que a escola pública, um dos mais decisivos problemas para a República, é historicamente negligenciada, apesar dos esforços de reformadores como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira. Estes, entre outros, com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, defendiam a organização de um sistema nacional de educação pública, conduzido por critérios científicos e por uma inteligência reformadora capaz de formar o povo para a vida democrática.
Sem um sistema nacional de educação pública — assentado nos princípios da universalidade, da laicidade, da gratuidade, da formação científica e técnica dos professores e da integração entre educação e democracia — não se formam cidadãos de verdade, nem se constrói um povo autônomo. Esses são os pilares do Manifesto de 1932, surgido no contexto da Revolução de 1930 e do ciclo modernizante que ganhou corpo sob Getúlio Vargas. Não me interessa, aqui, reconstituir as mediações históricas da industrialização brasileira, mas sublinhar que aquele período deu ao país uma ambição de modernização nacional que contrastava com o velho Brasil oligárquico e agroexportador.
Hoje, governadores alinhados à extrema-direita, em São Paulo e no Paraná, por exemplo, transformam a escola em espaço de adestramento. Retiram a autonomia docente, comprimem a formação humanística e apostam numa lógica disciplinar e gerencial que combina plataformização, vigilância e padronização. No caso paulista, isso apareceu na tentativa de substituir livros didáticos por material digital e na vinculação do desempenho dos diretores ao uso de plataformas, como se educar fosse alimentar indicadores e não formar inteligência crítica. É óbvio que não almejam a democracia nem a formação de cidadãos, mas o contrário: a submissão.
E aqui tocamos no ponto fundamental da conjuntura. Com as eleições se aproximando, velhas táticas de manipulação do eleitorado são recicladas para interromper um ciclo popular, ao menos em termos de trabalho, renda, preservação de direitos e afirmação relativa da soberania. Como registrou Getúlio Vargas, vinte e quatro anos depois de iniciar a Revolução de 1930: “Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.” Basta observar a gritaria contra a redução da jornada de trabalho e a moralização do tempo livre, como se o descanso do trabalhador fosse uma ameaça à ordem.
Naquilo que qualifico como a “segunda morte de Getúlio Vargas” — metáfora para designar o encerramento definitivo, em 1964, do ciclo político aberto em 1930 e dramaticamente prolongado por seu suicídio em 1954 —, setores empresariais, militares e civis se envolveram numa longa preparação para o golpe. Para isolar politicamente João Goulart, ex-ministro do Trabalho de Vargas, construíram um clima de crise com o apoio de empresários, da mídia e de organizações voltadas à propaganda anticomunista. O medo e a insegurança ganharam densidade social graças à repetição continuada da “ameaça comunista” contra as famílias, a propriedade, a ordem e a religião. Isso tornou possível a aventura militar. O que veio depois foi regressão democrática, erosão de direitos e submissão nacional.
Algo semelhante já havia ocorrido em 1945, quando Getúlio Vargas foi deposto em 29 de outubro, ao fim do Estado Novo, por uma articulação militar e civil que não se explicava apenas pela redemocratização, mas também pela necessidade de conter e reorganizar, em novo formato, as forças políticas desencadeadas desde 1930. Como registra Hélio Silva, e como a memória política brasileira conhece bem, a imagem de Vargas foi sistematicamente trabalhada por seus adversários como a de um déspota a ser removido da vida nacional. Nem mesmo suas duas mortes — a real, em 1954, e a simbólica, em 1964 — bastaram para liquidar o seu legado. Basta lembrar que, já na década de 1990, Fernando Henrique Cardoso ainda se ocupava de enfrentá-lo no terreno das ideias e da reorganização do Estado.
O que quero demonstrar é que há um padrão histórico recorrente, utilizado pelos setores mais reacionários e oligarquizados do Brasil para manter o status quo: a utilização conjugada da justiça, da mídia e de crises reais ou fabricadas para desestabilizar governos de inclinação popular ou nacional. Para tanto, recorrem à manipulação de uma opinião pública infantilizada e malformada, o que envolve, necessariamente, o desprezo pela escola pública. A má formação política do povo não é acidente: é projeto de poder.
Nessa linha, 1954, 1964, a Lava Jato e a conjuntura atual não são fenômenos idênticos, mas podem ser lidos como momentos diferentes de uma mesma lógica política. Não estou afirmando equivalência mecânica entre Vargas, Goulart e Lula. As conjunturas são distintas, e também o são a estatura histórica dos personagens. Getúlio inventou o Brasil moderno; Lula, embora seja um líder popular decisivo e tenha papel inequívoco na defesa da democracia e da soberania, governou em acomodação com a elite financeira. Ainda assim, há um traço comum: quando se abrem brechas, ainda que limitadas, para trabalho, renda, direitos e afirmação nacional, move-se contra elas uma engrenagem de sabotagem.
Foi assim que a Operação Lava Jato ultrapassou em muito o plano jurídico e assumiu dimensão político-midiática. A “Vaza Jato”, publicada pelo The Intercept Brasil e por veículos parceiros, revelou condutas controversas, coordenação imprópria entre acusação e magistrado e preocupação explícita com efeitos eleitorais. O ponto, aqui, não é absolver ninguém, mas registrar que a operação foi convertida em pedagogia política de massa, ajudando a consolidar a imagem de que o PT teria “roubado o Brasil”, enquanto outros atores recebiam tratamento comparativamente menos devastador.
É por isso que olho com desconfiança para a cobertura recente do caso Master e das fraudes no INSS. Não sustento, neste momento, uma equivalência pronta e acabada com a Lava Jato; sustento algo mais inquietante: a existência de sinais de reativação de um padrão. No caso do INSS, sabe-se que as fraudes e denúncias são anteriores ao atual governo e remontam, ao menos, ao período Temer, tendo se expandido no governo Bolsonaro e prosseguido até serem enfrentadas por auditorias, investigações e afastamentos já sob Lula. Ainda assim, parte relevante do debate público tende a moralizar seletivamente o presente, como se a história do problema começasse agora.
Também no caso Master, o que se vê é uma cobertura intensa em torno de conexões políticas, sobretudo buscando alcançar o atual governo e membros do STF. Isso é notícia e pode ser notícia. O problema aparece quando a cobertura deixa de iluminar estruturas e passa a operar como dispositivo de indução moral, montando na imaginação popular uma equivalência automática: governo Lula igual a corrupção, STF igual a parcialidade, crise igual a falência da democracia por culpa dos de sempre. Não afirmo que todo veículo ou toda reportagem participe disso. Afirmo, contudo, que no Brasil esse tipo de ambiente já foi montado antes, e com consequências graves.
A seletividade, aliás, costuma obedecer a uma regra simples. A corrupção, quando associada à esquerda, aparece como falha moral de um projeto; quando envolve a direita, tende a surgir como irregularidade administrativa ou desvio periférico. É assim que se fabrica a indignação seletiva. É assim que a opinião pública é empurrada, emocionalmente fragilizada, para o abatedouro das eleições, sempre em nome da moral, da ordem e do saneamento da República. E é assim, também, que se desvia o foco da realidade maior: a extrema-direita continua organizada, a democracia continua sitiada e a escola pública continua sendo sabotada por aqueles que jamais desejaram um povo livre.
A história é antiga. Como registrou Vargas em sua Carta-Testamento: “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se.” O desfecho, agora como antes, dependerá de como reagirá esse povo malformado por escolas que não libertam e assediado por uma esfera pública que prefere excitá-lo a esclarecê-lo. O direito mais elementar, que é o de votar livre de pressões, manipulações e campanhas de intimidação moral, continua em disputa.
Bibliografia:
SILVA, Hélio. 1954: um tiro no coração. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1978.
