Enquanto bombardeios devastam o Oriente Médio e algoritmos manipulam eleições no Brasil, a tecnologia se tornou o novo campo de batalha da política global. A captura da atenção e a desinformação programada estão redefinindo a democracia. A resistência exige mais do que leis: exige a reconquista dos commons digitais.
A violência praticada por norte-americanos e israelenses contra o Irã e as eleições presidenciais brasileiras são eventos que guardam ao menos uma conexão: o uso da tecnologia para o exercício de pressões políticas particularistas sujeitas a lógicas de mercado. Em ambos os casos, o que está em jogo é a captura de vontades coletivas por instrumentos que concentram poder para fins privados, desprezando o bem comum. Desde a segurança de gabinetes acarpetados, líderes políticos e oligarcas das finanças decidem o destino público e repartem o mundo entre si, enquanto as pessoas padecem conectadas às redes digitais, sob um processo de colonização da atenção movido por algoritmos, com os olhos focados em seus smartphones. É a alienação programada.
Enquanto o Oriente Médio é devastado por bombardeios que destroem não apenas a estrutura física, mas sacrificam vidas humanas inocentes, tecnologias com imenso poder civilizatório concentradas em poucas mãos, localizadas num contexto cultural e político específico, que é o Vale do Silício, expõem a humanidade às pressões do governo Trump e de seus sócios. Ainda que dirigentes nacionais reafirmem a soberania de seus Estados, isso soa como retórica vazia num mundo que consome os produtos tecnológicos, mas não exerce influência sobre a sua governança, que é privada e localizada nos Estados Unidos.
O caso brasileiro é significativo. Com uma eleição presidencial já nas ruas extraoficialmente, o ambiente da informação aparenta estar muito mais degradado do que em 2022 pelo uso de ferramentas de desinformação sofisticadas. A geração de cidadãos que experimentou a ditadura e a censura, hoje reduzida em número de membros por conta da idade, assiste a direitos conquistados e à própria democracia serem atacados de uma forma que os mais jovens não percebem, em função da interdição cognitiva a que são submetidos pelos novos mecanismos tecnológicos de controle social.
Smartphones, redes digitais e IAs criam uma combinação inédita que contribui para a fragmentação da atenção e a captura das subjetividades, sobretudo da juventude e dos ressentidos de todas as idades, que são aprisionados em monólogos narcisísticos, inúteis e fechados. Isso leva à personalização do engano em escala massiva com baixíssimo custo para quem o explora e, sobretudo, à erosão da esfera pública essencial à convivência democrática. Tudo por conta da mobilização emocional e não racional. Basta observar o comportamento de manada diante dos eventos, sempre com conotação moralista e com ausência completa de hierarquização. Um desfile de escola de samba fica no mesmo nível de uma guerra que mata dezenas de milhares na consciência coletiva; a tentativa de golpe de Estado é equivalente ao furto de um smartphone na esquina.
Grande parte das pessoas presas em bolhas algorítmicas está encurralada em órbitas privadas. Mesmo quando imaginam participar do debate público, não o fazem, pois estão sob o feitiço da manipulação. São incapazes de distinguir as suas questões pessoais das grandes questões públicas em jogo. Não enxergam o que ocorre no Oriente Médio, e tampouco percebem o que está em jogo nas eleições brasileiras. De fato, a mesma lógica tecnológica que financia o complexo militar-industrial que bombarda Gaza é a que captura suas atenções nas redes. Atuam como massa, movidas pela captura do afeto, como torcedores em jogo de futebol. Clamam por seus ídolos, ainda que estes os levem ao matadouro das jornadas de trabalho degradantes, da perda de direitos sociais e trabalhistas, do desamparo e da sujeição. Não importa. Há um véu que lhes tolhe a visão e os mantém em um estado de fanatismo. Daí a associação com a religião nesta era absolutamente tecnológica, o que remete ao excelente O Mundo Assombrado pelos Demônios, um dos livros finais de Carl Sagan.
Se fôssemos recorrer livremente a uma imagem de C. Wright Mills, em A Imaginação Sociológica, diríamos que os seres humanos de nosso tempo, que já elegeram Bolsonaro pai em conjuntura passada, Trump duas vezes, Milei e outros tipos semelhantes, são como “robôs alegres”. São tipos que, embora dotados de competência técnica, carecem de capacidade cognitiva para agir com razão substantiva e já não desejam a liberdade, embora falem dela a todo momento. Estão perfeitamente adaptados à estrutura que os reproduz, sem consciência social ou histórica.
Resgatar a atenção dessa massa e reconstruir um público autêntico será muito difícil. Não basta produzir legislação de controle algorítmico no Brasil. Isso é pouco e insuficiente; só colocará os aplicadores da Lei na linha de tiro, como já acontece com os ministros do Supremo Tribunal Federal. É preciso algo que exige muita imaginação sociológica e disposição política. É necessário trocar as lentes da observação para entender como o poder se reorganizou. As categorias analíticas antigas alcançam apenas de forma insuficiente os fenômenos contemporâneos. Portanto, é preciso atualizar a crítica estrutural, sem se deixar fisgar pelo otimismo ingênuo ou pelo ludismo reativo.
As tecnologias têm de ser conquistadas para a civilização, para a realização de uma promessa moral e política que transforme o mal-estar em crítica organizada e libertadora, nos termos de Mills. Isso exige, em primeiro lugar, reconhecer que a disputa não é apenas regulatória, mas constitutiva: trata-se de decidir quem governa a infraestrutura que governa as mentes. A luta pela governança coletiva de recursos — os commons digitais — é, nesse sentido, o horizonte político mais consequente de nosso tempo. Ela abrange desde a defesa da neutralidade da rede até a criação de cooperativas de dados, passando pela construção de plataformas públicas e não mercantis de comunicação. É o espectro que ronda as Big Techs e o seu modelo extrativista e manipulador. Enquanto não formos capazes de nomear esse horizonte com clareza e organizá-lo politicamente, continuaremos a combater sintomas, não a estrutura que os produz.
