A vantagem da casa: a universidade não quer que você pense

As universidades não formam mais cidadãos. Formam clientes. Clientes que pagam mensalidades para receber um diploma que, no final, pouco vale. Como num cassino, a ilusão é tudo o que importa.


O que acontece quando um professor ministra aulas em um cassino? Existe a possibilidade de o ensino ser, de fato, transformador? Considerando que o cassino é um estabelecimento para o jogo de azar, que funciona sob a perspectiva econômica da vantagem da casa, no longo prazo, o que se pratica nele não reverte socialmente para os jogadores, mas fica concentrado privadamente nos investidores da instituição. Em um sistema de ensino superior financeirizado e baseado em marketing agressivo e plataformas digitais, o diploma é um tipo de bilhete de loteria, que vende a ilusão da ascensão individual enquanto entrega uma educação precária e alienante.

Por detrás do uso instrumental de conceitos pedagógicos legítimos, transformados em eufemismos de gestão, tais como “sala de aula invertida” e “protagonismo estudantil”, as fábricas de ilusão em que se transformaram boa parte das universidades trocaram projetos educacionais pela gestão de clientes. Vendem aos jovens a promessa de que um diploma garante emprego e este leva ao sucesso financeiro, mas ocultam o funcionamento real das estruturas econômicas e sociais que explicam a riqueza e a pobreza, por exemplo. E, para além disso, se desresponsabilizam pelo eventual insucesso do aluno, pois ele é o protagonista e, se não aprendeu ou evoluiu, o fracasso é individual, não institucional. Neste mundo, cujo risco é transferido para o aluno, tal qual em um cassino, há apenas uma lógica, que é a facilitação do diploma, o que gera menos evasão e mais lucro, que é o que importa ao final. Aprender, de verdade, gera custo. Isso não interessa.

A ilusão de modernidade ofertada por aulas automatizadas, nas plataformas digitais, repletas de jargões pedagógicos que substituem o professor bem formado e a leitura, cria um sujeito sem curiosidade intelectual, que desconhece a sociedade em que vive e na qual vai atuar, incapaz de pensar criticamente. Um técnico, não um cidadão. Um analfabeto funcional, pronto para o mercado, até que a inovação tecnológica imponha novo salto na produtividade e novos egressos do sistema o substituam em condições mais vantajosas. Quando em posições de poder, como gestor ou empresário, faz o que aprendeu a fazer: priorizar o sucesso individual sobre o bem comum e naturalizar as desigualdades, pois é incapaz de enxergar a sociedade como projeto coletivo. O que torna risíveis os juramentos feitos nas colações de grau pelo país.

Esse tipo socialmente alienado, entretanto, não é produto exclusivo da universidade. Ele começa a ser forjado nos primeiros anos de acesso da criança no sistema educacional. O público, sobretudo, como já denunciava Darcy Ribeiro nos anos de 1980, é uma calamidade. Uma educação de qualidade ameaça os privilégios históricos das elites. Por isso, é importante manter a lógica da reprodução que perpetua as distâncias na estratificação social. Nada de formar a população para criticar os mecanismos da desigualdade e participar ativamente, como cidadãos plenos, da democracia. Isso é inconveniente. O correto é manter a pedagogia da exclusão, ensinando o básico, que é ler e escrever, além de realizar as operações fundamentais. Isso é suficiente para os que vão servir como mão de obra. No máximo, nos colégios privados de classe média, há o adicional das aulas de idiomas, tecnologia da informação, física, química, educação física e educação financeira, mas nada que ultrapasse o modelo funcional que a sociedade quer perpetuar. O que importa é vender a ideia de que o sucesso é derivado do esforço individual e não possui relação com privilégios de classe, cor de pele ou gênero.

Nesse sistema de ensino capturado pela lógica das elites, há um currículo oculto que faz das universidades, na ponta final, verdadeiras “fábricas de diplomas”. Por detrás da ilusão de qualidade lustrada por rankings de jornais e revistas de negócios ou aprovações em exames oficiais, o ensino, a pesquisa e a extensão são reduzidos à disseminação da noção de que o sucesso é sinônimo de consumo e status, não de contribuição social. Este é o motivo para a exclusão de disciplinas como Sociologia, Filosofia e Literatura, vistas como meros “enfeites” e ladrões de tempo nos cursos superiores. É um projeto de alienação em curso, que tem o aplauso de famílias alienadas, incapazes de enxergar o ensino como espaço de formação intelectual e política. Querem apenas um serviço que leve ao mercado de trabalho, donde vem o sucesso de empreendimentos fascistas como o famigerado Escola Sem Partido, que fiscalizava professores e denunciava ementas.

A universidade, que deveria ser um espaço de formação intelectual e crítica, virou uma máquina de produzir dívidas e frustrações.

Neste ambiente em que a educação se torna uma espécie de ativo financeiro, focando no valor de troca do fluxo de mensalidades e de ações na bolsa, chegamos à triste situação de ter cerca de 70% dos alunos do ensino superior que não leem livros para além dos obrigatórios das disciplinas, conforme dados do Instituto Pró-Livro em suas sucessivas edições da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Pior ainda, conforme sabemos pelo levantamento OCDE/PISA de 2022, apenas 12% dos jovens brasileiros possuem plena proficiência de leitura. E, não bastasse, cursos como Administração de Empresas e Engenharia sistematicamente esvaziam ou oferecem pro forma as disciplinas de humanidades previstas em suas grades. É um projeto de abestalhamento das gentes, que considera os alunos nada mais do que consumidores passivos de conteúdos, likes e diplomas. Jogadores em um cassino. Um sistema violento e doente, que rouba a energia da juventude e a imobiliza. Uma tragédia social.

Com a proximidade das eleições, o debate sobre o Brasil e o seu destino passa pela educação. É urgente recuperar o caráter público do ensino em todos os níveis e, mais do que isso, valorizar os professores como intelectuais públicos e não apenas transmissores de conteúdo. O sistema de ensino, como um todo, deve ser reformado para conduzir a avaliações que não sirvam apenas para classificar, mas, sobretudo, sejam processos que façam os estudantes refletir sobre o seu papel como cidadãos. Essas instituições de domesticação e de mercantilização têm de ser enfrentadas politicamente por todos que desejam construir a nação democrática, livre, justa e soberana inscrita na Carta Constitucional. O resto leva à “Vantagem da Casa” (House Edge) e à manutenção do cassino.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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