Bourdieu, Han e o neoliberalismo cultural: a alienação como projeto

As universidades não formam cidadãos críticos. Em vez de questionar as desigualdades, ensinam a aceitá-las como “lei natural”; em vez de debater a exploração, vendem a ilusão de que ‘você pode’, desde que se esforce o suficiente. Mas o que parece um discurso de empoderamento é, na verdade, a face mais cruel do neoliberalismo: a transformação da alienação em projeto pedagógico.


Em 1970, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron publicaram A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Na obra, o sistema de ensino, que as sociedades enxergam como relativamente autônomo, é apresentado como não neutro, como formado por instituições que reproduzem a cultura dominante, as relações de poder e as desigualdades sociais. Sua existência é caracterizada pelo exercício de uma violência simbólica cujo fim é a manutenção da ordem. Esta seria a sua função ideológica.

Como argumentam os autores, o sistema de ensino contribuiria para a manutenção dos privilégios, levando os sujeitos a incorporarem disposições que tornam essa aceitação provável. De certa forma, é a maneira pela qual se impõe como naturais e merecidas as desigualdades, mesmo àqueles que as padecem. É uma sociodicéia1 do andar “de cima”, ou seja: uma justificação dos privilegiados. Os dominantes sentem que merecem o seu lugar, fruto do seu mérito; os dominados aceitam a sua posição como inevitável, resultado de sua indisciplina ou falta de capacidade. É uma espécie de racismo da inteligência ou da vontade, segundo a qual tudo derivaria do mérito individual, sem relação com nada mais.

Instrumento privilegiado da sociodicéia burguesa que confere aos privilegiados o privilégio supremo de não aparecer como privilegiados, ela [a Escola] consegue tanto mais facilmente convencer os deserdados que eles devem seu destino escolar e social à ausência de dons e méritos, quanto em matéria de cultura a absoluta privação de posse exclui a consciência da privação de posse.

Bourdieu e Passeron

Esta lógica, que limpa as consciências dos “de cima” e culpabiliza os “de baixo”, convencendo-os da legitimidade de sua situação, aparece, sobretudo, no discurso que insiste em afirmar que o pobre é pobre porque não se esforça, que trabalha pouco, e que não é fácil ser empregador, empresário ou rico, enfim. A arbitrariedade social, para cidadãos alienados pelo sistema de reprodução da sociedade, que é o sistema de ensino, aparece como uma necessidade, algo como uma lei da física, como a força da gravidade, por exemplo. O que é transmitido pelos currículos serve para naturalizar relações de força que assegurem a estrutura de distribuição de poder entre os grupos e as classes sociais, assegurando valor simbólico perene ao capital cultural instrumental à manutenção de arbitrários socioculturais, como a ideia de leis de mercado inevitáveis, intangíveis à ação humana.

Hoje, mais de meio século após a publicação de A reprodução, as observações ali contidas continuam válidas, mas outros fenômenos tornaram o sistema de ensino apenas um elemento a mais no sistema de ação pedagógica de reprodução da ordem social2. A onda neoliberal que ganha força política com as eleições de Reagan e Thatcher, nos Estados Unidos e no Reino Unido, respectivamente, no final da década de 70 e início dos 80, se transformou numa espécie de neoliberalismo cultural. O que começou com a adoção das ideias econômicas de pensadores que defendiam o Estado mínimo e o livre mercado, e o desmonte das estruturas de bem-estar social que acompanharam a era de ouro do capitalismo do após Segunda Guerra3, se transformou numa visão de mundo, uma espécie de religião do indivíduo.

Graças à popularização da internet e dos smartphones, as redes digitais exploradas pelos oligarcas das big techs tornaram-se difusoras do discurso de gurus do empreendedorismo e da prosperidade. Estes vendem a ideia de que o sucesso depende exclusivamente de mindset, disciplina e fé. Em sua pregação não há sociedade, estrutura social, relações sociais, desigualdade ou contextos históricos e sociais; só frases feitas, tais como “você atrai o que pensa”, “o universo conspira”. O resultado é o mesmo: culpar o sujeito pela sua posição na estratificação social, pois, se está no andar “de baixo”, lhe faltou mérito, disciplina, talento, esforço e fé.

O filósofo coreano Byung-Chul Han, em um ensaio instigante no qual discute a crise da democracia, explica que vivemos uma crise da verdade sob o capitalismo da informação. Isso nos levaria a viver em um “universo desfactuado”, no qual circulam informações desacopladas da realidade, criando uma hiper-realidade4. E isso faz desaparecer o mundo comum. Extrapolando livremente, é o que permite a emergência do individualismo exacerbado, funcional à cultura do neoliberalismo e à reprodução e manutenção da ordem. Neste, os sujeitos são submetidos à autoexploitação5, na qual se tornam carrascos de si mesmos. Enquanto na sociedade disciplinar, característica das sociedades analisadas por autores como Foucault, o poder era visualizado na figura de um agente externo, como o professor ou o patrão, por exemplo, na sociedade da informação isso não acontece, pois é difundido o mote de que “somos empresários de nós mesmos”. Assim, a noção de “dever” se altera para “poder”: “sim, você pode”. A pressão não vem mais de um chicote externo, mas da própria cabeça, o que não deixa de indicar uma patologia. Freud a descreveria como a ação de um superego severo e punitivo, que pune o ego de forma desproporcional, gerando culpa inconsciente intensa6. Algo parecido com uma neurose obsessiva.

Não é, então, a posse dos meios de produção que é decisiva para o ganho de poder, mas o acesso aos dados utilizados para vigilância, controle e prognóstico de comportamentos psicopolíticos. O regime de informação, que está acoplado ao capitalismo da informação, que se desenvolve em capitalismo de vigilância e que degrada os seres humanos em gado, em animais de consumo e dados.

Byung-Chul Han

Na exploração clássica, a opressão vinha de fora, focava no corpo dos sujeitos a ela submetidos e buscava a obediência às normas sociais. Essa sua condição externa e focada nos corpos físicos possibilitava a visualização do outro e a resistência e a revolta contra a exploração, ainda que de forma confusa e anárquica. Esse era o motivo do sistema de ensino, do exercício da violência simbólica e de sua função na reprodução da ordem: a sociodicéia burguesa de Bourdieu. Hoje, entretanto, no capitalismo da informação e de vigilância, a pressão vem de dentro e está centrada na mente, na performance cognitiva (o “você pode”). O discurso do neoliberalismo cultural, explorado com habilidade pela direita e pela extrema-direita política em favor de uma liberdade absoluta do indivíduo, é o cimento da autoexploitação. Gera o cansaço e produz transtornos psíquicos em indivíduos levados à exaustão, que buscam algo atingível apenas socialmente. Lhes é ocultado que a vida é organizada e que a divisão do trabalho social e as especializações a tornam possível e produtiva. Igualmente lhes é ocultado o caráter distributivo da luta que se desenvolve nas sombras da economia. A riqueza que lhes mostram os gurus foi apropriada do trabalho deles próprios, não criada pelos que a exibem ou obra de uma divindade.

A naturalização social da responsabilidade individual e da competição7 aponta o Estado, a sociedade política na qual vivemos e organizamos o destino comum, como um obstáculo ao sucesso, um inimigo a ser derrotado. As próprias noções de justiça social e de solidariedade são encaradas como ingenuidades, pois cada um deve gerenciar a própria vida. Assim, termos oriundos do universo dos negócios, tais como gestão, finanças e produtividade, por exemplo, ocupam o espaço da língua comum de todos os dias, impondo uma colonização cultural. Tudo facilitado pelas big techs, suas redes digitais e seus algoritmos, que premiam os conteúdos simplistas e emocionais, que alcançam viralização e geram engajamento rápido. A ideia de que essas plataformas servem para transmitir conteúdos complexos, por enquanto, não passa de uma ilusão. Na verdade, elas não foram criadas para formar cidadãos críticos e os oligarcas que enriquecem com o negócio estão longe de se preocupar com algo que não seja a manutenção e a extensão do seu poder.

A consolidação de uma sociedade em que os explorados são condicionados a dizer sim reclama que tenhamos presentes, em perspectiva histórica e dinâmica, as noções mobilizadas por Bourdieu e Passeron e Byung-Chul Han. Mas é impossível deixar de citar Michel Foucault como um autor que contribui com uma ideia de transição entre a sociodicéia e a autoexploitação. A internalização que ele descreve em Vigiar e punir, de 1975, na qual o mecanismo central é o Panóptico de Bentham, é central para compreender como o olhar externo se torna desnecessário para o cumprimento de regras e obrigações. O poder disciplinar sobre os corpos é internalizado e o resultado é um sujeito dócil à ordem8. Donde temos que, enquanto Foucault fala de um sujeito que obedece e está sob o “não” da norma, Byung-Chul Han descreve outro tipo: o que diz “sim” e baseia o seu comportamento no rendimento individual. Este último é funcional à atual fase do capitalismo baseado na tecnologia de dados e nas finanças, marcado pelo alto desemprego estrutural e sem compromisso com políticas sociais redistributivas.

No Brasil, embora a Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 205, estabeleça que a educação deve objetivar formar não somente para o mercado de trabalho, mas para a cidadania e, também, dedicar-se integralmente ao pleno desenvolvimento da pessoa; e o Artigo 207 consagre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, diferenciando a universidade de um simples centro de treinamento; o que temos está distante disso e pouco contribui para além de entregar diplomas. Numa sociedade vitimada pelo cansaço e sequestrada pelo neoliberalismo cultural, o artigo 43 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB — Lei 9.394/96), se efetivo, seria um marco de resistência. Ao detalhar as finalidades do ensino superior, saltam aos olhos o estímulo ao pensamento reflexivo, à capacitação para a participação no desenvolvimento da sociedade e à pesquisa e difusão de conhecimentos que constituem patrimônios da humanidade. Mas isso não é feito. Universidades privadas e confessionais, com raras exceções, substituem a crítica pelo pragmatismo e se dedicam a formar sujeitos adaptados à lógica do mercado, dóceis, incapazes de enxergar os mecanismos sociais e de questionar. É a alienação como projeto pedagógico disfarçado de ênfase nas carreiras e no empreendedorismo. Nada de “perda de tempo” com filosofia, sociologia, história e literatura. Apenas linguagem matemática para interpretar um universo social tido como dotado de regularidades intangíveis à ação transformadora dos homens. Nem a própria natureza é enxergada desta forma! No fundo, se ensina a prática de uma fé, uma adesão ao neoliberalismo cultural e ao individualismo possessivo. É a dogmatização diplomada. A conclusão de algo que já é feito para além da academia, de forma massiva: a perpetuação das desigualdades como se fossem obra de uma divindade.

E aqui estamos. Cansados, longe da verdade, caminhando para o abismo, com universidades legitimando o ridículo. Cabe a nós, professores, alunos e intelectuais, recuperar seu papel crítico, mesmo que nas frestas. Como Bourdieu diria, a luta simbólica é também uma luta política. E ela começa quando damos nome à coisa: alienação.


Notas

  1. Sociodicéia é um termo essencial na sociologia de Pierre Bourdieu. Deriva da Teodiceia, termo da teologia que, grosso modo, busca justificar a bondade e a onipotência de Deus diante da existência do mal e do sofrimento no mundo. Na sociodicéia, a intenção, como se depreende, é naturalizar as desigualdades socialmente criadas. “Instrumento privilegiado da sociodicéia burguesa que confere aos privilegiados o privilégio supremo de não aparecer como privilegiados, ela [a Escola] consegue tanto mais facilmente convencer os deserdados que eles devem seu destino escolar e social à ausência de dons e méritos, quanto em matéria de cultura a absoluta privação de posse exclui a consciência da privação de posse.” (Bourdieu e Passeron. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1975. p. 218.). ↩︎
  2. Bourdieu e Passeron falam do poder que deriva da violência simbólica, isto é, do poder de impor simplificações e legitimá-las, dissimulando as relações de força que estão na sua base. O livro utiliza conceitos como ação pedagógica, violência simbólica, modo de imposição, capital cultural, habitus, reprodução cultural, entre outros. Ver especialmente o livro 1: Fundamentos de uma teoria da violência simbólica (pp. 15-75). ↩︎
  3. Margaret Thatcher, que ficou conhecida como a “Dama de Ferro”, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra britânica. Esteve no poder entre 1979 e 1990. Privatizou as indústrias estatais (carvão, aço, energia), reduziu o poder dos sindicatos e cortou gastos sociais. O ex-ator de Hollywood Ronald Reagan implementou uma agenda econômica que ficou conhecida como Reaganomics. Esteve no poder entre 1981 e 1989 (foi reeleito em 1984). Reduziu impostos para empresas e para os mais ricos (teoria do gotejamento ou trickle-down economics), desregulamentou o setor financeiro e aumentou os gastos militares. ↩︎
  4. Byung-Chul Han. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Editora Vozes, 2022. “Chamamos de regime de informação a forma de dominação na qual informações e seu processamento por algoritmos e inteligência artificial determinam decisivamente processos sociais, econômicos e políticos. Não é, então, a posse dos meios de produção que é decisiva para o ganho de poder, mas o acesso aos dados utilizados para vigilância, controle e prognóstico de comportamentos psicopolíticos. O regime de informação, que está acoplado ao capitalismo da informação, que se desenvolve em capitalismo de vigilância e que degrada os seres humanos em gado, em animais de consumo e dados.” (p. 7). ↩︎
  5. Byung-Chul Han. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. ↩︎
  6. Essa dinâmica está na raiz de neuroses, da melancolia e do masoquismo, temas desenvolvidos por Freud em O ego e o id (1923) e em O mal-estar na civilização (1930). Assim como o superego freudiano pune o ego, o discurso neoliberal, internalizado como “você pode”, gera uma culpa difusa em quem “falha”, precisamente quando as condições objetivas são desfavoráveis. “O estabelecimento da autoridade interna, do Super-Eu, mudou radicalmente a situação. Antes o sentimento de culpa coincidia com o arrependimento; nisso observamos que se deve reservar a designação de ‘arrependimento’ para a reação após efetivamente haver sido realizada a agressão. Depois a diferença entre agressão internalizada e realizada perdeu sua força, devido à onisciência do Super-eu; o sentimento de culpa podia ser gerado tanto por uma violência realmente consumada — como todos sabem — quanto apenas por uma intencionada — como verificou a psicanálise. O conflito entre dois instintos primordiais, oriundo da ambivalência, produz o mesmo efeito, com ou sem mudança na situação psicológica. […] O sentimento de culpa por arrependimento em virtude da má ação teria de ser sempre consciente, aquele por percepção do mau impulso poderia permanecer inconsciente. Não é tão simples, porém. A neurose obsessiva contradiz enfaticamente isso.” (Sigmund Freud. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, 2011. p. 84). ↩︎
  7. Um universo marcado pela liberdade absoluta e pela competição lembra a condição de natureza descrita por Thomas Hobbes em O Leviatã (1651). Enquanto Hobbes via no Leviatã a saída para o caos, o neoliberalismo celebra a guerra de todos contra todos como “liberdade”, negando a necessidade de qualquer pacto coletivo. ↩︎
  8. Michel Foucault. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Editora Vozes, 1987. O mecanismo central do Panóptico de Bentham, desenhado em 1791, é uma arquitetura prisional com uma torre central em que o detento nunca sabe se está sendo observado, e por isso passa a se vigiar a si mesmo (à introjeção da norma) por temor à punição, tornando o olhar externo desnecessário. “Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade do seu exercício; que esse aparelho arquitetural  seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce; enfim, que os detentos se encontrem presos em uma situação de poder de que eles mesmos são os portadores.” (pp. 224-225). ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *