O São Paulo está linchando o próprio futuro

Jean Valjean foi perseguido por Javert por roubar um pão. Roger Machado é vaiado no Morumbi por aceitar um emprego. A diferença? Valjean tinha Victor Hugo para contar sua história. Roger tem apenas a fúria de uma torcida que, ao sacrificá-lo, está queimando o estádio por dentro.


Eu estudei sociologia não apenas nos livros. Boa parte do que aprendi devo ao meu pai, que me fez conhecer o universo dos estádios, dos vestiários e dos bares, nos quais as dinâmicas sociais aparecem em sua forma crua para quem queira vê-las: pessoas se organizando, competindo e se solidarizando; suas histórias e suas paixões; a criação dos heróis e dos vilões que emprestam sentido à vida de cada dia. Isso acontece nesses locais, ainda que nosso tempo, dominado pelo capital financeiro e pela digitalização, insista em destruir tudo.

É esta espécie de observação participante que me faz direcionar o olhar para o técnico do São Paulo, Roger Machado, e para as pessoas que formam a comunidade são-paulina. Mesmo sabendo que, desde sempre, o futebol cria heróis e vilões, não considero razoável o linchamento que vitima o treinador gaúcho. A narrativa construída não considera a sua trajetória e os fatos.

Roger Machado é um profissional respeitado. Sua biografia não possui máculas. Foi um atleta que, como lateral-esquerdo, fez história no Grêmio de Porto Alegre, clube no qual é idolatrado pela torcida. Como técnico, ficou conhecido pelo estilo de jogo moderno, com posse de bola, triangulações e organização tática. É alguém que sabe o que faz. E, como homem, é um cidadão engajado em causas sociais, conhecido por sua luta contra o racismo. Enfim, no ambiente do futebol, é alguém que foge dos lugares-comuns e fala com propriedade sobre sociologia do esporte e tática e, principalmente, enfrenta as questões da sociedade brasileira com destemor.

No São Paulo, Roger tem um aproveitamento bastante aceitável. Na Copa Sul-Americana, venceu os dois jogos; na Copa do Brasil, venceu o jogo que disputou; e, no Campeonato Brasileiro, em 8 partidas, venceu 3 e empatou 1, mantendo o time entre os quatro primeiros colocados. O seu pecado, certamente, não é ter sido, no passado, premiado com a Medalha Zumbi dos Palmares e a Medalha do Mérito Farroupilha, pois os influenciadores dizem que a torcida não é racista e, tampouco, persegue por motivos ideológicos. Talvez, então, o seu erro seja não ser Hernán Crespo, o antecessor, mas isso é impossível contornar.

Arrisco-me a afirmar, lembrando René Girard e sua obra de antropologia social, que Roger Machado é uma espécie de bode expiatório. Uma solução falsa para uma comunidade em crise que evita enfrentar os problemas reais do São Paulo, que são a má gestão, a falta de investimento no time de futebol e os erros coletivos, inclusive da torcida, que se deixou enganar pela diretoria por muitos anos. De certa forma, o linchamento do técnico faz as vezes de um ritual de purificação para quem quer se livrar da responsabilidade, como se imaginasse que, com a sua demissão, tudo voltará ao normal. Um erro absurdo, mas compreensível para quem queira compreender o fenômeno.

O problema é que, como são-paulino, outra herança do meu pai, não posso deixar de considerar que René Girard, ao falar da mimese, dessa situação em que todos são levados a desejar a mesma coisa, aponta que a violência pode escalar até a autodestruição. E é impossível não enxergar isso no São Paulo, que, ao linchar o técnico, torce contra o time, acelerando o processo de ruína coletiva. Sacrificar Roger Machado num ritual coletivo apenas demonstra o quão pequeno se tornou o Tricolor.

Enquanto digito estas linhas, ocorre-me que Roger lembra um personagem da literatura. Certamente há outros, mas minha imaginação está povoada por um em particular: Jean Valjean. Protagonista de Os Miseráveis, obra de Victor Hugo, este foi perseguido implacavelmente por um sistema que não lhe oferecia redenção por roubar um único pão para alimentar os sete filhos famintos de sua irmã. O inspetor que o caçava após a sua soltura, Javert, não via o homem, apenas o presidiário. Assim faz a torcida do São Paulo com Roger, cujo crime foi aceitar substituir Crespo. Ela não enxerga o homem, apenas o alvo para a sua frustração, e lhe nega a justiça.

No futebol, como na vida, a multidão é cruel, mas ambivalente. Um vento pode mudar o sentido das coisas. É preciso saber se o tempo jogará a favor e se, neste ambiente das redes digitais, os influenciadores não vencerão a disputa pela desumanização completa.

Roger Machado não é um técnico. É um espelho. E, nele, a torcida do São Paulo pode ver a si mesma e decidir que não gosta mais do que vê.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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