O bar, espaço por excelência de encontros e ilusões festivas, transformou-se em espelho da barbárie cotidiana. Nele, a solidão não é apenas um sentimento, mas uma prisão; não pela ausência de pessoas, mas pela impossibilidade de diálogo, o primeiro passo para a morte do espaço público e a ascensão do fascismo que se esgueira pela vida real. Quando o chopp é pago antes do fim e a conversa se esvai em ódio fabricado, resta apenas a sensação de que tudo está perdido.
Não há nada mais doloroso do que se sentir solitário em meio à multidão. Quando isso ocorre até em lugares outrora acolhedores, a capacidade de resistência se esvai. E isso tem se tornado cada vez mais comum neste mundo em que a indignação fabricada, disseminada por algoritmos e discursos midiatizados, ocupa ruas, praças e bares. Morrem a coerência e o apego aos fatos. Tudo passa a ser pretexto para discursos carregados de emoções intensas, que deixam vazar, nas entrelinhas, ódio, raiva e ressentimento. É a morte do espaço público, a negação da possibilidade de comunicação.
A reação dos “bem-pensantes” a isso soa como exagero, mas basta recordar o ambiente da Alemanha dos anos 1930: a repetição de mentiras oficialmente fabricadas buscava explorar preconceitos e medos para promover uma limpeza eugênica e impor o fascismo no cotidiano. Judeus, intelectuais, comunistas e as minorias indesejadas foram expurgados socialmente, confinados a guetos e, mais tarde, à “solução final”, sob o olhar cúmplice de “gente de bem”.
O bolsonarismo, movimento político que reúne a extrema-direita, ganhou força nas redes digitais e, sobretudo, nas igrejas neopentecostais. A mídia tradicional o legitimou. Agora, invadiu a vida cotidiana sem pudor. Lugares neutros, como o bar, tornaram-se palco de conflitos fabricados. E isso não é acidental: o ressentido, que internalizou crenças como “os brancos são vítimas de racismo reverso”, “os gays corrompem a moral” ou “o comunismo destrói as famílias”, não busca diálogo. Deseja apenas externalizar o ódio que carrega.
Esse fenômeno, que nos rouba até o simples prazer de um chopp, me remete a Karl Jaspers, filósofo de Basileia, solitário em sua reflexão. Em 1946, após a queda do nazismo, Jaspers publicou A Questão da Culpa, obra em que busca organizar o caos moral da Alemanha. Nele, afirma que a solidão é inerente à existência humana, mas torna-se insuportável quando o homem se fecha à comunicação autêntica. Eis a questão: no espaço público, é no diálogo e na decisão compartilhada que exercemos nossa liberdade. Quando a comunicação é impossível, resta apenas o monólogo da violência, a negação da existência e da liberdade alheias. Esse é o limite absoluto que conduz ao niilismo e ao autoritarismo.
O nazismo representou a vitória da morte da comunicação. E, pelo que observo, o bolsonarismo, o trumpismo e as variantes da extrema-direita global trilham o mesmo caminho. Esses movimentos visam dissolver o espaço público em favor de um fanatismo que Jaspers descreve como “certeza sem pensamento”. É isso que destrói a possibilidade de comunicação: os ressentidos não buscam diálogo; querem impor suas crenças. São autoritários que exigem obediência cega, ainda que não tenham coragem de explicitar suas intenções. São homens-massa, que perdem a própria existência ao se tornarem engrenagens do que os oprime.
Contudo, a massa é poderosa, mas jamais é total. O indivíduo resiste quando compreende que tem o poder de se retirar, de refletir e buscar uma comunicação autêntica, mesmo quando sente que tudo está naufragando. O que importa é não se render à superficialidade. Essa solidão, não um fim em si mesma, mas um ato de resistência, é o refúgio da dignidade, a fidelidade à própria consciência. É a única forma de manter a sanidade e resistir ao ódio que se alastra pelos espaços públicos.
Quando as esperanças mundanas e a segurança se desvanecem, é que nos confrontamos com o essencial: a transcendência. Não como fuga, mas como afirmação: é o reconhecimento de que, mesmo em meio ao caos, há algo em nós que resiste à barbárie. É a fidelidade à própria consciência, mesmo quando o mundo parece ruir.
Ao escrever este relato, avancei em minha compreensão do presente e da história. Vi a barbárie, mas não me tornei parte dela. Guardei a humanidade em mim e escrevo para compreender e testemunhar.
As ruas, os bares, as praças e os espaços comuns ainda estão aqui. E é neles que resistimos.

Uma leitura da realidade que nunca havia pensado. Mas faz todo sentido.
Pois é, meu amigo.