A pátria não veste chuteiras

Em 1982, vesti uma camisa da seleção pela primeira e última vez. Hoje, não reconheço mais o futebol que amava. O jogo foi transformado em um espetáculo para ricos e brancos. A Copa de 2026 é a prova de que a FIFA enterrou o sonho de Jules Rimet.


Eu vesti uma única vez uma camisa da seleção para torcer. Foi em 1982. Na ocasião, os jogadores que foram à Espanha sob o comando de Telê Santana estavam na boca do povo pelo futebol que jogavam. E me lembro da tristeza das pessoas após a derrota para a Itália, na tragédia do Sarriá. A minha cidade parecia ter morrido um pouco naquele dia.

Eu, que aprendi com o meu pai a torcer pelo São Paulo Futebol Clube, saí com os meus amigos e fui ao estádio municipal jogar futebol.  Uma derrota do tricolor no campeonato paulista sempre doeu mais do que um jogo de uma seleção cujos jogadores eram, como dizíamos no interior, escolhidos pelos cariocas. E o time de 1982 tinha três dos nossos como titulares: Valdir Peres, Oscar e Serginho.

Por algum motivo que só os que amam o futebol vão entender, o time de 1978, que jogou na Argentina, me marcou mais do que o do mestre Telê Santana. Eu jogava botões, lia a revista Placar e não sabia que a ditadura militar infelicitava o Brasil e a sede da Copa, mas sentia no comportamento dos adultos que a vida não estava bem.

Um único jogo, no qual o meu ídolo mostrou a raça com que vestia a camisa 5 do São Paulo, foi suficiente para que eu passasse a usar o número em minhas camisas, substituindo o 2 de Getúlio. Era o futebol que eu amava, o de Chicão, que parou a Argentina em Rosário vestindo a 21 da seleção, um time que, sem saber, carregava o peso de uma ditadura e a esperança de um país. Hoje, esse futebol não existe mais.

Quase cinquenta anos depois das copas da Argentina e da Espanha, a seleção brasileira não me diz nada. Não conheço a maioria dos jogadores e me entedia ouvir os debates sobre Neymar, que é um rico do mundo do entretenimento, não um jogador da linhagem dos que outrora vestiram a camisa do Santos, o seu clube, e da seleção brasileira. Eu que tive em meus botões toda a linhagem sagrada de craques dos anos 1970 e 1980 não cometo a heresia de colocar a estrela decadente da baixada ao lado de um jogador do passado.

À véspera de mais uma copa do mundo, a ser disputada por 48 seleções em três países sede, penso em como o futebol já não me comove. O torneio imaginado pelo advogado Jules Rimet para transcender conflitos e promover a paz e a união entre os povos, após a barbárie da primeira guerra (1914-1918), se tornou sob a gestão dos homens da FIFA e Donald Trump apenas um negócio do mundo do entretenimento e um instrumento da manipulação política. A inspiração original que levou à primeira copa disputada no Uruguai, em 1930, se perdeu. E o próprio jogo foi subvertido, roubado da classe trabalhadora que o fez popular no século XX.

É com melancolia que olho para a copa de 2026 e enxergo o quanto ela se afastou do evento simples e sem luxo que a caracterizou nos primeiros anos, quando a intenção era a promoção da união social, da inclusão e da pacificação entre as nações. O futebol que eu conheci quando menino era assim nos estádios. Hoje, a segregação e o ódio de classes que vejo nas chamadas arenas se faz presente no projeto deste evento de Trump e de Infantino, com ingressos a preços proibitivos para os trabalhadores e barreiras que impossibilitam torcedores de países africanos, asiáticos e latinos (especialmente os mais pobres) de entrar nos EUA. Esse será um evento de celebração da aporofobia, não do fim das distâncias.

Enquanto as estrelas da seleção, patrocinadas pelas grandes marcas, parecem ignorar a realidade e viver em um mundo à parte, o Brasil é alvo de sabotagens do governo norte-americano. O silêncio dessas celebridades diante do sofrimento alheio é ensurdecedor: o Irã e sua seleção sofrem com a violência injustificada. O povo do Haiti padece uma crise sem fim. E não temos mais um jogador como Sócrates para levantar a voz.

De fato, a seleção brasileira não me comove. Estou ocupado com o meu país que sofre os ataques dos que vestem a camisa desses que jogarão a copa e sabotam a soberania e o povo, entregando o seu destino aos norte-americanos.

A pátria não veste chuteiras, mas tem calos nas mãos e precisa ter visão e memória.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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