O Brasil não é um erro. É um Mediterrâneo nos trópicos: luz, mistura, corpo, vida. A elite e a extrema-direita querem nos transformar em um Norte frio, puritano e opressor. A batalha pela alma do país é, como diz o personagem Mirek, de Kundera, a luta da memória contra o esquecimento. E nós, o povo, somos a memória que resiste.
É com resignação que constato que os ricos, que constituem a minoria da sociedade brasileira, são ignorantes ou mal-intencionados. Não fossem, o país, neste 22 de julho de 2026, estaria mobilizado contra a família Bolsonaro e todos os que os apoiam, numa campanha cívica em defesa da soberania nacional. Afinal, essa patota, responsável de alguma forma pela morte de milhares de concidadãos durante a pandemia da Covid-19, conspirou com o governo norte-americano em prejuízo de nossa economia. E as tarifas de 25% sobre as importações levam a sua marca.
A riqueza sem ética protestante
A riqueza, entre nós, tem pouca relação com aquela descrição feita por Max Weber do esforço protestante ascético, do self-made man, presente em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Aqui, diferentemente da civilização anglo-saxã, não prevaleceu a submissão do homem a ordens abstratas numa cultura que o aliene do mundo. Deus, Estado, pureza racial são coisas que não marcaram o nosso cotidiano. Ao contrário, fomos feitos de concretude, natureza, mistura, luz, integração e celebração do corpo, ainda que não em caráter positivo.
Gilberto Freyre, com todas as críticas justas que merece, abordou o tema de nossa formação em Casa-Grande & Senzala. Ele demonstra que, por oposição ao puritanismo protestante dos ingleses e holandeses, os portugueses, com o seu catolicismo ibérico, eram plásticos sexualmente e sincréticos religiosamente. Aqui, surgiu uma civilização tolerante e multirracial, ainda que hierárquica e violenta. Se ele estetizou a desgraça da escravidão e até a justificou, por outro lado, abriu espaço para uma leitura mais complexa de nossa identidade, sem apagar a presença africana e nativa. E mais: deixou claro que a riqueza se fez à custa do trabalho do outro.
Deficiência de origem ou a nova civilização?
A impessoalidade nas relações, exigência weberiana do modelo de racionalidade burocrática, não está totalmente presente em nossa cultura. Isso é o que demonstra Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil. Aqui, a família patriarcal de Casa-Grande & Senzala gerou uma sociedade na qual as leis são flexíveis e estão subordinadas aos laços pessoais, que, de fato, dominam. Essa seria uma deficiência de origem, um desvio em relação ao modelo anglo-saxão, no qual o protestantismo ascético, o individualismo e a racionalidade do Estado teriam conduzido ao capitalismo e à democracia.
Nossa formação social, portanto, para a formação da riqueza, não se conforma ao imaginário difundido pelas escolas de negócios nas quais se formam os ricos e seus herdeiros. Esta é outra sociedade, com uma lógica própria, seja medida pela régua europeia anglo-saxã de Sérgio Buarque, que o leva a um tipo de pessimismo com o caráter incompleto de nossa modernidade; ou pela exaltação do caráter ibérico e mouro de Gilberto Freyre, que, mesmo sem negar a violência da escravidão, olha o Brasil a partir da Casa Grande e parece justificar a ordem social.
O Brasil é Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, mas também é precocemente um ocidente capitalista, fruto do Renascimento, de sua cultura e de seus motivos. O problema é que isso, talvez, ajude a compreender o comportamento dos ricos, deste grupo social que parasita o trabalho alheio e tem tão pouco amor pela terra e pelas gentes. Para ele, a lógica é a do intermediário, do que explora e não constrói nada de novo. Uma visão herdada do período mercantil da acumulação, que combina bem com a sua transmutação em classe rentista nesta fase de predomínio do capital financeiro. Afinal, chegamos ao cúmulo de a mais importante federação das indústrias do país ser presidida por um empresário sem empresa. E que é capaz de responsabilizar o governo brasileiro pelas taxas impostas pelos norte-americanos!1
Darcy Ribeiro e a nova Roma tropical
Razão tem Darcy Ribeiro, que enxergou neste amontoado de ricos um grupo que vê o povo como lenha para queimar e a terra como algo a espoliar. Ainda assim, em O Povo Brasileiro, ele vai na direção oposta tanto de Gilberto Freyre quanto de Sérgio Buarque, afirmando que, longe de ser um desvio, nossa sociedade é uma nova civilização, produto da miscigenação, que criou um tipo humano novo, adaptado e criativo, diferente, mas não inferior. Sua crítica ao eurocentrismo das visões culturais dominantes não é colonizada e enfatiza o Brasil como um projeto civilizatório próprio, tropical. Uma nova Roma lavrada em sangue indígena, africano e europeu, sobretudo ibérico.
O Mediterrâneo de Camus e o Magrebe de Bowles
É aqui, nesta Ibéria mediterrânea e moura, que um discurso de 1937, de Albert Camus, por ocasião da inauguração da Maison de la Culture de Argel, ganha nova luz para mim. Enquanto os membros da família Bolsonaro reivindicam um ocidente judaico-cristão idealizado, vendido por think tanks ultraconservadores norte-americanos, ligados à extrema-direita, lembro que Camus expressa em sua fala uma visão cultural e geográfica do Mediterrâneo como espaço de síntese, no qual o cristianismo originado no judaísmo se transforma em catolicismo, absorvendo as influências helênicas e romanas e, mais tarde, árabes, especialmente na península ibérica e no Magrebe.
Por oposição ao ascetismo protestante nórdico e sua rigidez moral, o mar que banha o sul da Europa e o norte da África é um caldeirão de humanismo, no qual a natureza, a luz e o calor embalam a mistura dos povos e celebram a vida, não as abstrações. Portugal, Espanha e a cultura do Renascimento que orienta nosso nascimento e forma a geografia de nossa alma são o Mediterrâneo. Este mesmo que afronta com seus imigrantes a extrema-direita europeia e norte-americana.
A Argélia de Camus foi ponto de encontro e de conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos durante séculos. O Magrebe marcou essa relação contraditória entre os mouros da península ibérica e do norte da África, que são base da cultura mediterrânea. O sincretismo da região, que mistura filosofia grega, direito romano, mística contemplativa do islã e catolicismo, se opõe radicalmente a tudo que seja o modelo protestante e puritano derivado da Reforma de Lutero. Isso é importante para compreender a natureza do mal que nos acomete e que extrapola as tarifas de Trump.
O fascismo e a repressão: Reich e Kundera
A extrema-direita brasileira, que tem no bolsonarismo a sua expressão, mas que se espalha por vários movimentos e conta inclusive com células nazifascistas organizadas, sem que os ricos se incomodem, é um projeto de apagamento de nossa identidade. Como atestam Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, ainda que em chaves diferentes, somos sensoriais (cordiais) e sincréticos (não puritanos ascéticos). O corpo, a natureza e o prazer fazem parte de nossa humanidade. E é isso que buscam subjugar, anular, dominar com o avanço do neopentecostalismo, a organização de bancadas da Bíblia no Congresso e a disseminação de teologias exóticas, como a da prosperidade.
O nazifascismo não surge no Norte por acaso. Ele é resultado de uma visão de mundo na qual a subjugação do desejo e da vontade é essencial para a organização do destino do homem. A ética protestante ascética estudada por Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, que vai desaguar no espírito do capitalismo, não constitui um cárcere de ferro por acaso. É o resultado de uma cultura da culpa e da negação do prazer. É a expressão do recalcado, do reprimido sexualmente e alienado socialmente. É fruto de uma estrutura psicológica pacientemente construída, justamente aquela que dá vida ao autoritarismo.
Wilhelm Reich, em A Psicologia de Massas do Fascismo, estudou como a família patriarcal, com sua moral repressiva e sua hierarquia rígida, gera indivíduos submissos, prontos a projetar as suas frustrações contra bodes expiatórios. É assim que a extrema-direita usa a religião e o mito da família conservadora para manipular e formar hordas prontas a agir contra minorias, intelectuais e tudo que os ameace. Essa classe média e média baixa empobrecida, cada vez mais evangélica, vive num mundo fantasioso em que imagina possuir privilégios ameaçados e que devem ser defendidos à força. A cada culto, pastores cumprem a função de mantê-la segura na fabulação. E as redes digitais facilitam o trabalho com os influenciadores que monetizam com a desinformação em escala industrial.
O Mediterrâneo como destino
Neste cenário, o Mediterrâneo da origem de nossa formação surge como o lugar geográfico de nossa alma. Pelo menos de minha alma. É como um antídoto a essa bobagem de reivindicação de um ocidente judaico-cristão bradado pela extrema-direita. É como aquele Magrebe sensorial e exótico perseguido pelos personagens de Paul Bowles, no belo romance O Céu que Nos Protege. Um lugar distante da repressão, da moral fria e rígida, da negação do corpo e do gozo da vida. É um lugar da experiência humana mais autêntica, um espaço de luz, cheiros, sons e mistura de culturas, no qual os sentidos possam ser despojados de freios inúteis e nos reconciliar com nossa imaginação.
É evidente, porém, que esse Mediterrâneo pode ser tão sedutor quanto mortal. Bowles o apresenta como um lugar de desintegração, para o qual o homem vai se perder para depois se encontrar. Eu penso num lugar de integração, de harmonia com o que somos, de síntese e celebração. Ou seja, a geografia de minha alma, o meu Mediterrâneo, é a realização de nosso destino, da nova civilização nos trópicos. É por este motivo que não se trata de inventar, pois existe na história e faz parte de nossa formação social.
A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento
Mirek. 1971 (O livro do riso e do esquecimento)
Lutar contra o esquecimento
O importante é não esquecer. Lutar contra o poder totalitário que busca apagar a memória, com projetos como Escola sem Partido, Brasil Paralelo e think tanks de extrema-direita. Lembrar é subversivo e desestabiliza os que apostam na ignorância e na manipulação. Os ricos estão condenados, porque são o passado; façam o que fizerem, não há espaço para eles em um Brasil que se redescobre. Mas a batalha pela memória é diária, e a vitória não é garantida. Ela depende de nós.
Somos o povo brasileiro, mestiço, sincrético, criativo: somos o novo. Não somos o outro!
Parabolicamará2
Notas:
- Fiesp culpa governo Lula por tarifaço: ‘ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas. Por O GLOBO — Rio. 16/07/2026, In: < Fiesp culpa governo Lula por tarifaço: ‘ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas’ > Acesso em 22 de julho de 2026. ↩︎
- Parabolicaramá é um neologismo que dá título a uma música de Gilberto Gil. O termo associa parabólica, que exprime modernidade e tecnologia, com camará, uma abreviação de camarada das rodas de capoeira. É uma referência ao mundo globalizado e à cultural local. A canção foi gravada no disco de 1991, Parabolicamará. ↩︎
Referências bibliográficas:
Albert Camus. Conferências e Discursos (1936-1958) [El derecho a no mentir]. Barcelona: Debate/Penguin Random House Grupo Editorial, 2023.
Darcy Ribeiro. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Gilberto Freyre. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 30ª Ed. Rio de Janeiro, Record, 1995.
Max Weber. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Milan Kundera. O livro do riso e do esquecimento. São Paulo: Círculo do Livro, 1994.
Paul Bowles. O céu que nos protege. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
Wilhelm Reich. Psicologia de Massas do Fascismo. 3ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 2ª. Ed., revista e ampliada. Rio de Janeiro, José Olympio, 1948.
