A pátria não se vende

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, condecorou Javier Milei com a mais alta honraria do estado no mesmo dia em que o presidente argentino discursou na convenção que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência. Uma cena que resume, em poucas horas, a submissão de parte da elite brasileira a interesses estrangeiros.


Em um mundo marcado pelo colonialismo e pela dependência, a pátria não é uma abstração vazia nos livros didáticos ou nos discursos dos “de cima”. Ela é um destino a ser construído e não tem relação com o palavrório dos autoproclamados conservadores.

A pátria, para os “de baixo”, trabalhadores e humildes, é um campo de batalha contra a exploração econômica e a submissão cultural. É a expressão da luta contra os que lucram com a entrega dos recursos naturais, da soberania e da dignidade nacional aos estrangeiros, aos que se arrogam donos do mundo.

A pátria, para um homem e uma mulher trabalhadora, é um lugar de justiça social, soberania popular e vida digna. É o que o libertador José Martí, ignorado pelas elites colonizadas, qualificaria de “Nuestra América”: um território forjado na resistência.

Os grupos rentistas, empresários sem empresas, colonizados e antipopulares nunca foram patriotas. Desde a ocupação portuguesa, serviram a um outro, satisfeitos em seu papel de sócios menores. Temem o povo e a mobilização popular, pois querem serviçais, quase escravos limpando suas latrinas. Adotam valores culturais estrangeiros que não compreendem, apenas para demonstrar um repertório de fachada. São ignorantes fundamentais, de si e de sua condição alienada. Essa gente faz a gestão de um lugar para os privilegiados, não de uma sociedade política.

Como a pátria não é um dado da natureza, ela precisa ser construída dia após dia. E isso é feito pelo povo trabalhador, pelos “de baixo”. Os originários que resistiram à colonização, os escravos e seus descendentes, os intelectuais e os perseguidos políticos, todos os trabalhadores e humildes, eles são a pátria em edificação. Os que se afirmam como elite econômica e empresarial são uma aberração.

Como sintetizou José Carlos Mariátegui, nos “7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana” (1928)1, nos quais lança as bases do antiimperialismo, “nuestra América” é a América Latina unida contra o imperialismo, é a identidade popular, das ruas, dos campos e das fábricas. Os palácios e palacetes são o outro, a submissão, a dependência, a negação. Nossa pátria é a América Latina unida contra o imperialismo, que constrói sua própria identidade. É o povo que batalha e resiste. Não é um conceito vazio, não é cópia de fórmulas estrangeiras. É o nosso projeto de libertação social e econômica.

Quando uma figura como Tarcísio de Freitas recebe Javier Milei e lhe concede a mais alta honraria de São Paulo no mesmo dia em que este intervém na política brasileira, discursando na convenção do Partido Liberal (PL), isso configura traição à pátria, no sentido político e moral.

Milei, hoje, não é apenas presidente da Argentina, é aliado de Jair Bolsonaro – um golpista em prisão domiciliar por decisão da Justiça brasileira – e de Donald Trump, que não só intervém em assuntos domésticos brasileiros, como prejudica a economia local por capricho imperial. Ao condecorar Milei, Tarcísio demonstra aceitar ações que comprometem a soberania nacional, buscam desestabilizar as instituições democráticas e, mais, mostram alinhamento com forças externas para enfraquecer o Estado brasileiro.

Milei é um peão do trumpismo, um bronco estrangeiro. Já Tarcísio, Flávio Bolsonaro e os membros do PL são brasileiros e, por isso, sujeitos à ordem legal nacional. A pátria, ainda que um destino a ser construído, está viva na Carta Constitucional de 1988. Se não temos promotores e juízes dispostos a agir, ainda nos resta o povo e sua capacidade de resistência.

É preciso repudiar esses canalhas que desgraçam nossas vidas e negociam nosso destino com o estrangeiro.

A pátria não se vende!

Notas:

  1. José Mariátegui. 7 Ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Alfa ômega, 2004. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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