A Argentina que Tarcísio não condecorou

Enquanto Tarcísio de Freitas estendia um tapete azul a Javier Milei no Palácio dos Bandeirantes, a Argentina verdadeira seguia de pé, resistindo à onda neoliberal que tenta apagar sua história de luta e soberania. A condecoração foi um ato de conivência com quem trata a democracia como obstáculo e a pátria alheia como moeda de troca.


No último sábado (25/7), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, estendeu um tapete azul no Palácio dos Bandeirantes e entregou a Javier Milei a Ordem do Ipiranga, a maior honraria do Estado. O azul do tapete remetia à “onda azul”, expressão com que Milei celebra o avanço da direita pela América do Sul. Na plateia, Flávio Bolsonaro, horas antes de ser oficializado candidato à Presidência pelo PL. A cena não foi um mero protocolo, mas um ato de conivência. Uma consagração recíproca entre projetos que tratam a democracia como obstáculo e a soberania alheia como moeda de troca. Não à toa, o mesmo Milei que ali foi condecorado já se prestou, em discursos e atos, a hostilizar publicamente o governo brasileiro, tratando o país como adversário ideológico a ser combatido, não como parceiro a ser respeitado.

Mas é importante lembrar, diante dessa cerimônia, que a Argentina e o Brasil não se resumem a essa gente. Enquanto personagens moralmente menores como Milei, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas conduzem os seus seguidores para o desastre, suas histórias nacionais são muito mais ricas e complexas do que imaginam os ignorantes que povoam as redes digitais e se imolam sob o comando dos liberticidas daqui e de fora. A Argentina, principalmente, vai além de Milei. Nossos vizinhos do Prata têm uma tradição republicana, crítica e popular de resistência e construção nacional que não se dobra a lacaios como o atual ocupante da Casa Rosada, que serve submissamente aos interesses do capital estrangeiro e das elites locais.

A Argentina de Sarmiento, Walsh, Fontanarrosa, Quino e Mercedes Sosa é o lugar onde a civilização, a crítica e a resistência se encontram. Domingo Faustino Sarmiento, presidente argentino no século XIX, autor de Facundo: Civilização e Barbárie (1845), talvez tenha sido o pioneiro de uma tradição intelectual e cultural de análise da tensão entre o projeto modernizante e as resistências tradicionais rurais, que sustentavam o autoritarismo e o isolamento. Sua defesa da educação pública como sustentáculo do Estado moderno abriu as portas da Argentina ao século XX, ao novo.

Essa Argentina civilizada, engajada, plural e progressista de Sarmiento é o lugar de gente como Rodolfo Walsh, jornalista, escritor e militante, fundador, juntamente com Jorge Masetti e outros, da Agência de Notícias Prensa Latina, em 1959. Esta foi importante para a defesa da independência latino-americana durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos, assim como hoje, faziam da região o seu quintal. A sua denúncia da violência da ditadura militar de 1976 levou ao seu assassinato em 1977, um dia após publicar a Carta Aberta à Junta Militar.

É também a Argentina de Negro Fontanarrosa, torcedor histórico do Central, de Rosário, mestre na arte de retratar a vida popular e criticar o poder através do humor. E de Quino, o genial criador de Mafalda, que fez de sua criatura um símbolo da crítica política e social de nossa América Latina, com um olhar agudo sobre a hipocrisia e as desigualdades sociais, herança intelectual e cultural que transcende de longe a mediocridade de Milei e dos seus apoiadores libertários.

Não há como esquecer Mercedes Sosa, voz inigualável, expressão da música popular argentina e latino-americana, que fez da canção uma ferramenta de resistência política, em especial durante os anos da última ditadura militar, de 1976 a 1983. La Negra, como era chamada, ainda hoje ressoa a Argentina republicana, crítica e popular, maior do que qualquer serviçal dos ianques, ainda que investido de mandato presidencial.

A guinada à extrema-direita que levou Milei ao poder não é um fenômeno exclusivamente argentino. Ela varre os hemisférios e tem em Trump, hoje, a sua expressão mais bem acabada e perigosa de desrespeito à memória, ao povo e às instituições democráticas e republicanas. Essa “onda azul” que assola a América Latina não é apenas regional. Ela faz parte de um movimento global de desmonte do Estado, precarização do trabalho e submissão aos interesses do capital financeiro. Esse modelo, que já falhou na Argentina dos anos 1990 e em tantos outros países, promete estabilidade, mas entrega desigualdade; promete liberdade, mas impõe austeridade; promete progresso, mas precariza o trabalho e a vida das maiorias.

Assim como o Brasil não se resume ao bolsonarismo e à sua gente, a Argentina é maior do que o sujeito que a preside. O peronismo, com suas contradições e avanços, foi o movimento que garantiu direitos trabalhistas, inclusão social e um Estado ativo na economia, em oposição ao liberalismo que hoje Milei tenta impor. Mesmo com suas críticas, ele segue como símbolo da Argentina que resiste à entrega do país aos interesses estrangeiros. Junto aos movimentos sociais e de direitos humanos, dentre os quais se destacam as históricas Madres de Plaza de Mayo, com sua tradição de mobilização, mantêm viva a memória coletiva de resistência, crítica e construção nacional.

E é essa Argentina de Sarmiento, Walsh, Fontanarrosa, Quino, Mercedes Sosa e das Madres de Plaza de Mayo que segue de pé, resistindo e construindo alternativas. Um tapete azul no Palácio dos Bandeirantes não apaga essa história. Uma medalha não redime quem hostiliza o país que a concede. E nenhuma elite neoliberal, por mais forte que seja, consegue apagar a memória de um povo que sabe lutar. Isso não é apagado por um governo ou por um discurso político. Nem mesmo pelas redes digitais.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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