A eleição de 2026 no Brasil é uma batalha civilizatória entre democracia e fascismo, entre soberania e submissão ao capital financeiro global. Enquanto o governo petista defende a diversificação de parcerias (BRICS, China) e a redistribuição de riqueza, a extrema-direita busca desestabilizar o país para recolocá-lo sob o controle de um sistema que não pode realizar suas promessas sem destruir a si mesmo.
Nesta eleição presidencial há o candidato da democracia, que é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e os candidatos do fascismo, com Flávio Bolsonaro, cujo pai foi preso em 2025 por ter liderado a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, sendo o mais competitivo dentre eles. A mídia corporativa evita enquadrar a disputa como “democracia x fascismo”, preferindo falar de “Lula contra Bolsonaro”. Mas é essa a disputa por trás dos discursos e do proselitismo político eleitoral.
Embora a utilização do conceito de fascismo exija rigor, sobretudo por parte dos acadêmicos, concordo com Umberto Eco, que propõe uma definição aberta e flexível do fenômeno1. Em seu artigo O fascismo eterno, publicado originalmente na New York Review of Books de 22 de junho de 1995, ele defende a tese de que o fascismo não morreu e pode ser identificado a partir de 14 características que o definem2, bastando apenas uma delas para que ele se apresente e forme “uma nebulosa”.
Umberto Eco, que viveu o fascismo ainda criança sob Mussolini, argumenta que ele é uma mentalidade recorrente, não um sistema ideológico rígido, e floresce em momentos de incerteza econômica, social e cultural, oferecendo às pessoas respostas simplistas e autoritárias para problemas complexos. Dos 14 traços que o compõem, basta a ocorrência de um único para que ele se manifeste de forma sistemática. Não é preciso semelhança completa a Hitler ou Mussolini ou aos seus movimentos para que um político ou um partido contemporâneo seja fascista. Não se trata de uma ideologia fixa, mas de uma lógica de dominação que se espalha como vírus, especialmente a partir do autoritarismo, do culto ao líder, do temor às diferenças e do desdém pela crítica.
Flávio Bolsonaro, o candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL), representa uma ameaça fascista. Basta um pouco de boa vontade para percorrer as páginas dos jornais ou os sites e é fácil encontrar falas que ressoam algumas das características listadas por Umberto Eco. Desde o desrespeito às minorias até ataques às instituições, com fantasias sobre conspirações envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O aliado de Donald Trump e Javier Milei, líderes de extrema-direita global, já defendeu até mesmo o bombardeio da costa brasileira pelos Estados Unidos, algo que não pode ser visto como uma simples brincadeira3.
O fascismo conforme Trotsky e Gramsci
O fascismo, em uma análise clássica de Leon Trotsky, é a expressão da crise do capitalismo4. Ele exprime uma contra-revolução preventiva e acontece porque a classe dominante já não consegue manter o poder nos marcos da democracia liberal, recorrendo à violência para salvar o sistema e as posições de poder. De fato, os donos da riqueza mobilizam a classe média empobrecida e os despossuídos para esmagar as forças democráticas e evitar a mudança social. É o que parece significar, entre nós, o bolsonarismo e o crescimento do movimento neoconservador evangélico. Trata-se de uma solução política para salvar a acumulação capitalista em um momento de crise orgânica.
Neste momento de crise global do capitalismo financeiro, o governo Lula, com sua política de diversificação de parcerias com a China e os BRICS e de defesa da soberania nacional, é um obstáculo à aliança liderada por EUA e Israel e seus aliados internos. O fascismo é a resposta organizada desde fora, como uma estratégia internacional alinhada a Washington. Todos os candidatos da direita, com graus variados, são simbólicos da reação contra o país e a democracia da Constituição de 1988.
Em outra chave de interpretação, o italiano Antônio Gramsci, nas Notas sobre Maquiavel, sobre a política e o Estado moderno5, contidas nos célebres Cadernos do Cárcere, concentra o foco no mecanismo da dominação fascista. Para um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI) — que foi o maior partido comunista do Ocidente —, os fascistas constroem o consentimento e ganham a hegemonia na sociedade civil. O seu mecanismo básico junta a coerção e o consenso, gerenciando as crises a partir da infiltração nas escolas, nas mídias, nas igrejas e nos espaços da sociedade civil. Eles cooptam e mobilizam as classes médias e os setores subalternos ressentidos para a guerra cultural. Assim, impõem a sua dominação ao conjunto da sociedade, preservando a acumulação privada capitalista. O bolsonarismo não deixa de ser o modelo em operação no Brasil, uma sociedade complexa que ameaçou ultrapassar o status quo ante pelos mecanismos da democracia liberal.
Os ataques grosseiros do presidente Javier Milei ao seu par brasileiro são um exemplo concreto do avanço do fascismo em nossa eleição6. Eles estão coordenados com a estratégia de Washington de intervir no processo com vistas a desestabilizar o governo Lula, que ameaça o capital financeiro internacional com as suas medidas nacionais e populares. O presidente petista representa a resistência, a defesa do multilateralismo, a soberania e a redistribuição econômica, com suas políticas de justiça social. Quando Milei o chama de ladrão e corrupto, ecoando a extrema direita local, visa facilitar a vitória de Flávio Bolsonaro e, por consequência, de seu chefe, Donald Trump. É o fascismo internacionalizado em ação.
Para tornar a compreensão simples, os agentes do capitalismo financeiro global estão numa cruzada para desestabilizar governos progressistas. A reprodução do seu sistema está ameaçada e o seu método de ação é esmagar a oposição democrática e popular onde ela aparecer, recolocando as regiões do mundo sob o seu controle. Os “de baixo” pagarão a conta da crise, com a vida, se for o caso. A guerra cultural construída com a ajuda de tipos repugnantes como Milei, Trump e políticos locais visa justificar a reconfiguração da sociedade civil, isolando os democratas e os progressistas, desconfigurando as instituições e facilitando a imposição de uma lógica autoritária. Nós já vimos isso. Pena que não aprendemos.
A crise do capitalismo financeiro
O capitalismo financeiro representa a fase avançada do sistema econômico do capitalismo. Nela, a acumulação de capital acontece através, principalmente, do mercado de ações, derivativos e fundos de investimento. A produção de bens e serviços conta cada vez menos. É o setor financeiro que domina a economia real e dita as regras do seu funcionamento. O lucro não se origina na produção, mas na especulação. É ganhar sem produzir.
Rudolf Hilferding foi o pioneiro na sistematização de uma teoria dessa fusão entre capital industrial e bancário, que criou o capital monopolista com controle sobre o Estado7. E Lênin, em O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo8, de 1916, fez a crítica dessa forma econômica parasitária, na qual bancos e corporações controlam a economia global, criando uma desconexão cada vez maior com a economia real, tal qual teorizou Marx no Livro III d’O Capital, no Capítulo XXV (“Crédito e Capital Fictício”).
E é exatamente essa riqueza baseada em títulos de propriedade legalmente válidos, mas sem correspondência direta em riqueza material ou atividade produtiva imediata que conhece mais uma crise de grandes proporções neste século XXI e faz ressurgir o fascismo.
Essa economia abstrata, baseada em títulos de dívida, ações, derivativos e fundos, é baseada na promessa de pagamentos. Logo, o seu valor está atrelado às expectativas quanto ao futuro. Toda essa riqueza é intangível, pois não se refere a algo existente, mas a existir. Como analisa Marx, o lucro direto vem da especulação, mas indiretamente ainda depende da exploração da força de trabalho na economia real, a qual o capital fictício parasita. Logo, o risco não depende de relações de oferta e demanda, mas da volatilidade dos sentimentos desse ente que os analistas qualificam como “o mercado”. Uma mudança de percepção pública é capaz de produzir desastres de proporções gigantescas9.
Imaginemos a fortuna do trilionário dono da Tesla, do X e da SpaceX, Elon Musk. Cerca de 90% dela é baseada em ações de suas empresas, capital fictício, portanto. Depende de expectativas futuras de realização e não corresponde à produção efetivada. Se essas ações forem colocadas à venda, o mercado desmorona, pois não há riqueza real para cobri-las. A financeirização, que é o motor das crises do capital financeiro, é um processo no qual o valor dos ativos é inflado artificialmente por meio de dívidas para comprar mais ativos (alavancagens), compras e vendas de ativos sem relação com a economia real (especulações) e inovações financeiras que criam camadas sobre camadas de capital fictício (os chamados derivativos). Os que creem que isso reproduz uma lógica científica, que é preciso obedecer cegamente, estão enganados. No fundo, isso é uma forma de mistificação, opera como religião e leva os seus fiéis para o abismo, crendo encontrar a salvação.
O capital fictício depende de fé. Quando ela falta, como na grande crise financeira de 2008, iniciada nos Estados Unidos pela bolha imobiliária e pelos empréstimos de alto risco (subprime), o valor desvanece e vem a pobreza. Isso acontece porque não há produção suficiente para justificar as expectativas anteriores no mundo real. É quando o sistema vem abaixo.
Hoje, os donos das Big Techs que concentram uma riqueza sem precedentes não podem converter o seu capital fictício em poder real sem destruir o sistema capitalista. Se Elon Musk tentasse vender 20% de suas ações da Tesla, o preço despencaria, porque não há compradores suficientes para absorver essa oferta. A riqueza dessa gente lhes permite mandar no mundo. Eles influenciam governos, mídia e políticos, mas não podem gastar os seus trilhões de forma tangível sem causar um colapso. Aliás, a questão da realização é o problema do capitalismo financeiro que faz dos trabalhadores as suas principais vítimas.
Essa insanidade tem sido sustentada pelos Bancos Centrais que, quando necessário, injetam liquidez na economia. Também os governos emitem dívida para sustentar a farra. Há ainda as taxas de juros artificiais que sustentam os preços dos ativos ao custo de empobrecer os trabalhadores e transferir riqueza para os rentistas. E, quando tudo falha, cumprem-se as ameaças de fuga de capitais para os paraísos fiscais ou para os mercados emergentes, coisa que certamente alegra os traidores da pátria abrigados na campanha de Flávio Bolsonaro.
A batalha civilizatória
A eleição de 2026 no Brasil não é apenas uma disputa entre candidatos, mas um confronto civilizatório entre dois projetos de futuro. De um lado, Lula e a defesa da soberania nacional, da redistribuição de riqueza, do multilateralismo e dos direitos sociais. Do outro, Flávio Bolsonaro e a submissão ao capital financeiro global, a desestabilização das instituições democráticas e a imposição de uma agenda autoritária alinhada a Trump, Milei e às elites rentistas. Democracia contra fascismo.
A crise do capitalismo financeiro não é apenas um problema econômico, mas político e existencial. Um sistema que não pode realizar suas promessas sem destruir a si mesmo recorre ao fascismo como último recurso. A resistência, portanto, não pode ser apenas eleitoral. É uma batalha pela democracia, pela soberania e pela justiça social.
O futuro não está escrito e depende de nossas escolhas a contenção da barbárie.
Notas:
- “O termo ‘fascismo’ adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista.” In: Umberto Eco, Cinco escritos morais. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1998. P. 42. ↩︎
- As 14 características listadas por Umberto Eco são: 1. Culto à tradição, 2. Rejeição do modernismo, 3. Culto à ação pela ação, 4. Desacordo é traição, 5. Medo das diferenças, 6. Apelo à classe média frustrada, 7. Obsessão por uma conspiração, 8. Inimigos são ao mesmo tempo fortes e fracos, 9. Pacifismo é se confraternizar com o inimigo, 10. Desprezo pelos fracos, 11. Todos são educados para se transformarem em heróis, 12. Machismo e desdém pelo fraco, 13. Seletividade popular (o povo como entidade monolítica), 14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua” (George Orwell). In: Umberto Eco. Op. Cit. ↩︎
- ‘Que inveja!’: Flávio Bolsonaro sugere ataque dos EUA a ‘barcos com drogas’ na costa do Rio de Janeiro. CBN. 23/10/2025. In: < https://cbn.globo.com/politica/noticia/2025/10/23/flavio-bolsonaro-sugere-ataque-dos-eua-a-barcos-com-drogas-na-costa-do-rio.ghtml > Acesso em 03 de agosto de 2026. ↩︎
- Leon Trotsky. O fascismo: o que é e como combatê-lo. In: Leon Trotsky; Benito Mussolini. A doutrina do fascismo – O fascismo: o que é e como combatê-lo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. ↩︎
- Antônio Gramsci. Maquiavel, a política e o estado moderno. 8ª edição. Rio de Janeiro: ed. Civilização Brasileira, 1991. ↩︎
- El presidente Lula ordenó retirar a su embajador en Argentina. Por Felipe Yapur. 05 de agosto de 2026. Página 12. In: < https://www.pagina12.com.ar/2026/08/05/lula-retiro-al-embajador-brasileno-en-buenos-aires/ > Acesso em 05 de agosto de 2026. ↩︎
- Rudolf Hilferding. O capital financeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1985. ↩︎
- LENIN, Vladimir Ilích Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo: ensaio de vulgarização. Lisboa: Edições Avante, 1975. ↩︎
- Essa interpretação é baseada nos escritos de Karl Marx contidos no Livro III d’O Capital, Quinta seção: Divisão do lucro em juro e lucro do empresário: O capital produtor de juro. Em especial no capítulo XXV: Crédito e capital fictício. Karl Marx. O capital: crítica da economia política – o processo global de produção capitalista. Livro 3. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. ↩︎

Excelente reflexão, professor! Um texto muito bem fundamentado e que provoca uma reflexão importante sobre o cenário político e econômico do Brasil. Obrigada por compartilhar essa análise e contribuir para um debate tão necessário.
Obrigado, Tatiane. Estamos juntos.
Excelente comentário.👏🏿
Obrigado, Jackson.
Excelente artigo, Rogério! Sempre aprendo com seus textos, suas reflexões elevam o nível do debate e têm muita clareza.
Muitos eleitores estão flertando com o fascismo e vivemos sob sua ameaça. É preciso dizer claramente: fascistas!
É isso, Zé Nabuco. É preciso lutar contra o fascismo.