Em um mundo onde algoritmos manipulam comportamentos, elites desprezam a coexistência e o capitalismo de plataformas precariza o trabalho, a sociologia deve ser resistência. Ferramenta para conectar biografias a estruturas históricas, desmontar ilusões de época e recriar o mundo. Uma sociologia pública, que recusa a alienação e aposta na imaginação como arma contra a naturalização da opressão.
Superado o primeiro quarto do século XXI, os desafios que se impõem à humanidade não são pequenos. As elites que controlam os meios de produção e a política desprezam o destino de bilhões. Hoje, com os algoritmos e a coleta de dados, manipulam o comportamento e desmoralizam as democracias, conforme o seu interesse, pouco se importando com a coexistência, que inviabilizam mais e mais em toda a parte.
Em 40 anos de dedicação à sociologia, sei que as instituições sociais respondem pelos seres humanos, moldando-os. Os homens e as mulheres são agentes de mudança social, mas o seu campo de atuação é determinado pela sociedade na qual as suas biografias se desenvolvem. As possibilidades de recriação do mundo, de transformação e de superação dos desafios dependem de como essas biografias individuais são conformadas. E são as elites quem detém os meios de formação deste cenário no qual se desenrolam as vidas.
O praticante da sociologia deve auxiliar as pessoas a conectarem as suas biografias às estruturas históricas, de forma que possam usar a razão para enfrentar o seu mundo e transformá-lo conscientemente. Deve permitir ao indivíduo a compreensão de sua experiência e a avaliação do seu destino, ajudando-o a se situar em relação a si mesmo em sua época e em relação aos demais que se encontram sob as mesmas condições (Wright Mills). Essa é uma tarefa da imaginação sociológica: traduzir a teoria em prática, a crítica em ação, a análise em engajamento. Isso é urgente e necessário, se faz para além dos muros das universidades e conduz à reinvenção da vida.
Por meio da imaginação sociológica os homens esperam, hoje, perceber o que está acontecendo no mundo, e compreender o que está acontecendo com eles, como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da história dentro da sociedade.
Wright Mills
O trabalho, essa categoria central de toda a construção do mundo social, hoje mais do que nunca enfrenta uma crise. O atual estágio do capitalismo de plataformas (Nick Srnicek) não só o precariza, mas o desmaterializa velozmente. A lógica financeira da ordem econômica e social concorre para o desastre, condenando os trabalhadores à condição de lixo humano, dejeto inessencial e não aproveitável. As elites rentistas e os oligarcas das big techs os transformaram em vagabundos, inúteis, indesejáveis, bodes-expiatórios da insegurança pública (Zygmunt Bauman) e dos programas distópicos de aprisionamento em massa e vigilância social que coalham as sociedades e fazem a alegria dos autoritários.
Como sociólogo que prefere as ruas ao ambiente acadêmico, tendo já vivido uma longa vida, reclamo uma sociologia prática, por inspiração de Wright Mills. Uma que não se limita a perseguir a verdade em pesquisas de gabinete, mas que comunica aos homens e mulheres. Uma cuja função é pública: ajudar a compreender o mundo. É por encarar a política como processo, os seres humanos como sujeitos e a sociedade como objeto de transformação, que continuo sociólogo e rebelde. Porque essa ciência social é uma forma de consciência da qual é impossível se apartar, uma postura crítica e ativa diante da vida. Mas, igualmente, esperançosa, pois implica na recusa em aceitar a realidade como intangível à ação humana.
Enquanto a elite mobiliza meios materiais e culturais para manter os seres humanos alienados de sua condição, e crescem os mecanismos de reprodução da estrutura social desmobilizante, cabe aos cientistas sociais reivindicarem com coragem a sua posição como intelectuais públicos. O isolamento é desmobilizante e tem consequências sociais e humanas irrecuperáveis. Uma delas é o crescimento do fanatismo e a ameaça autoritária à ordem democrática, naturalizadas no Brasil.
Enfrentar e desmontar as ilusões de época é uma tarefa intelectual, assim como apontar alternativas para que a reflexão autônoma possa florescer. Que cada biografia se recuse a ser apenas destino e se torne, também, resistência.
