Em setembro de 2026, a política brasileira se resumiu à ação de um falso herói e de uma massa incontinente. Ele, movido por paixões e interesses privados; ela, cega pela akrasia e pela degeneração, aplaudindo o que a destrói. A eleição se tornou palco de mais uma farsa, como outras encenadas na história republicana.
A política não é uma fábula com lição moral ao final, mas uma prática que exige rigor e profundidade. Entendida no sentido clássico, como conjunto de conhecimentos sobre a organização e a direção do destino da pólis, ela exige estratégias e sabedoria para ser exercida. Seu objetivo é a eudaimonia, um conceito central da filosofia grega, que remete à realização plena da vida humana ou ao bem-estar duradouro. As ilusões passageiras, os rancores e os ódios de interesses privados a deturpam e conduzem, não raro, ao desastre. Não há virtude nem sabedoria em praticar a política sem considerar a comunidade, a verdade e o bem comum.
Aqueles que imaginam que a política é conduzida por heróis, homens da providência, numa leitura apressada de Maquiavel, estão enganados. Embora obedeça a uma ética própria, ela não pressupõe a existência de heróis e de dragões a serem derrotados. O que existe são interesses em conflito que, se não forem domados por regras claras e universais, destroem o público em favor de privatismos excludentes. Por isso, é sempre importante lembrar Rousseau, quando afirma que o mestre florentino não falava aos príncipes, mas ao povo. O cidadão de Genebra revelava que a intenção secreta de Maquiavel era alertar os povos sobre os perigos da corrupção e da tirania (O Contrato Social, Livro III, Capítulo 4).
Neste mês de setembro, sobretudo à véspera de uma eleição fundamental para o destino do Brasil, a mídia corporativa criou um herói com capa. Este, ignorando o papel fundamental das leis para guiar a sociedade em direção à bondade e à virtude, resolveu agir como um agente político pernicioso, deturpando-a para fins privados. Sobrepôs a paixão à razão e, como o príncipe carismático de Maquiavel, imaginou-se um ser de virtudes, enquanto os outros são tachados de viciosos, vítimas de divulgação seletiva de informações e de suspensões arbitrárias de funções públicas. Tudo isso enquanto protegia aliados políticos e a si próprio. De fato, seu perfil, que confunde um livro religioso com a Constituição, lei maior de todos os cidadãos, o impede de ser a expressão da justiça viva e o guardião de regras universais e da ética.
O que espanta é ver que os cidadãos sejam encantados pelas manchetes e aceitem a fabulação midiática, ao ponto de um degenerado, membro de uma família conhecida pela pleonexia, ser visto como o salvador da pátria. A pleonexia, presente em Ética a Nicômaco, de Aristóteles, é um conceito grego associado à injustiça, à ganância e ao desejo de sempre querer mais. É a tendência dos inimigos da pólis de buscar vantagem excessiva em bens materiais, poder e honra à custa dos demais, opondo-se ao bem comum e, obviamente, à justiça. Esse comportamento prejudica a comunidade, destrói o equilíbrio e a harmonia na distribuição dos bens e na resolução dos conflitos, abala a confiança pública e gera o caos.
O que importa é compreender como as pessoas podem se dispor a aplaudir um homem desprovido de compromisso público, que, na verdade, é a maior ameaça a elas próprias, à sua segurança e à sua prosperidade. Afinal, os que governam guiados por interesses privados, acima das leis e do interesse público, estão sabotando o destino comum. E a explicação está na cegueira por ignorância, que é a incapacidade de enxergar o que está diante dos olhos.
Como descreve Aristóteles, há dois tipos de cegueira. Uma é involuntária, leva a agir por ignorância, quando não se tem condições de saber a verdade; outra é voluntária, conduz à ação na ignorância, quando se age com base na fúria, que cega. Esta segunda atormenta boa parte das pessoas e é a base da manipulação das manchetes da mídia corporativa, dos pastores evangélicos da extrema-direita, dos think tanks que infestam escolas e universidades, e é difundida pelas redes digitais das big techs. Ela é baseada no ressentimento, no temor ao futuro e na decisão consciente de atribuir a alguém o que é resultado de uma estrutura que precisa ser transformada. É mais fácil culpar o outro do que enfrentar o sistema econômico e social que cria as dificuldades da vida.
Esses cegos furiosos, manipulados, falam em nome da moral e de Deus, mas são alienados de si e da realidade. Agem embriagados pelo ódio e pelo medo do futuro, que não controlam. Na treva em que estão imersos, praticam o mal pensando fazer o bem, pois têm a sua razão atrofiada. Sabem o que é o certo, mas não conseguem fazê-lo, pois as paixões os dominam. Estão sob a condição de akrasia, que não deixa de ser um tipo de alienação. Gritam regras morais, mas não compreendem o significado do que falam. São ogros com a razão obscurecida, tal qual o personagem aristotélico “incontinente”, apresentado principalmente no Livro VII de Ética a Nicômaco. Representam o fracasso moral.
Esse exército de jacus que se enrola em bandeiras norte-americanas, vocifera contra o Supremo Tribunal Federal e contra os trabalhadores, seus concidadãos, é vítima de uma dupla alienação. A primeira é estrutural, a que afasta o trabalhador do resultado do seu trabalho e o submete às ilusões de época, e a segunda, em consonância com aquela, é a manipulação imposta pelos instrumentos de reprodução da ordem, agora turbinados pela dupla smartphone/rede digital. Por um lado, o processo real de produção e reprodução da vida (Marx) lhe é desconhecido; por outro, as manchetes reificam (Lukács) a justiça, ocultando as contradições políticas por trás da ação do juiz eleito como herói. O povo, como aves na granja, se anima em bicar os grãos que lhes jogam no noticiário sem questionar quem os atirou e com qual objetivo.
O jacu é uma ave galiforme típica das regiões tropicais da América do Sul, especialmente do Brasil. Tem porte médio, bico curto e robusto, plumagem geralmente preta ou marrom-escura e cauda comprida. Seu voo é pesado e desajeitado, o que a leva a passar a maior parte do tempo em terra. Por conta disso, na linguagem popular, a pessoa ignorante é associada a ela. Diz-se em algumas regiões do interior do país que um jacu é uma pessoa tola, desprovida de inteligência, grosseira, sem sofisticação intelectual e refinamento na ação. Pois bem, jacuzada é um bom termo para designar os cegos furiosos, incontinentes, afetados pela akrasia, que creem resolver tudo à força contra a razão e as leis.
Essa massa não parece querer despertar da alienação e formar uma verdadeira comunidade política de iguais (Rousseau). Com os olhos voltados às telas azuis e o espírito tomado pelo ressentimento, entregam-se ao bombardeio das mídias, dos pastores e dos algoritmos sem conseguir levantar a cabeça e olhar o horizonte. Passivos, entregam-se à manipulação e à exploração sem perceber o mundo para além do que lhes é apresentado.
Enquanto a jacuzada comemora como um feito cada pesquisa de intenção de voto que mostra o avanço da pleonexia sobre a eudaimonia, da ganância e da degeneração sobre o bem comum, homens que se apresentam como “de bem” acumulam luxos privados ao custo do sofrimento de milhões. E a culpada é a política. Ora vejam!
A política, como sabiam os gregos, é justamente o espaço onde o bem comum deve ser construído. Se o povo não despertar, o futuro será apenas um banquete para poucos, enquanto a maioria bica os grãos que lhes jogam.

Uma boa análise sobre a jacusada.
Embora a ave ficará ofendida com a comparação. a