A mudança de nome da Inteligência Artificial para “superinteligência”, anunciada por Trump na ONU, não é um mero capricho linguístico. É uma estratégia de poder: transformar a IA em um objeto de fé, intocável e inquestionável, para justificar seu controle por uma elite tecnocrática. Enquanto a China avança na corrida tecnológica, os EUA tentam impor uma narrativa de supremacia, desumanizando o debate e desviando a atenção dos problemas reais: quem controla a IA, como ela é regulada e a quem ela serve.
O sujeito que preside os Estados Unidos anunciou, em discurso na ONU, que seu governo passaria a usar o termo “superinteligência” para se referir à IA. O tipo noticiou isso ao mesmo tempo em que ameaçou Cuba, Irã e a humanidade inteira sob os aplausos de paspalhos daqui que votarão em um ser repugnante julgando servir a um deus ou a algo semelhante.
Para além das mentiras, do negacionismo climático e das ameaças bradadas pelo bufão, interessa a mudança de nome da IA. É um exemplo claro de manipulação da realidade e de messianismo tecnológico usado intencionalmente para afirmar a supremacia dos EUA, ainda que, na prática, a China esteja disputando e liderando, em alguns casos, a corrida tecnológica. Embora o termo “superinteligência” já circule em debates acadêmicos, Trump o apropria de forma estratégica e distorcida, transformando-o em uma ferramenta de propaganda geopolítica.
É importante atentar que Trump não fala de tecnologia, mas de poder. Ao renomear a IA, ele cria uma hierarquia na qual o seu país teria o monopólio moral e técnico sobre essa coisa que ele qualifica como superinteligência. O seu objetivo é desumanizar e esvaziar o debate sobre a tecnologia. Se ela é super, é muito mais do que a inteligência humana, e não é preciso discutir os seus riscos ou limites, mas aceitá-la como inevitável.
A superinteligência de Trump e de seus aliados no MAGA, junto a uma parcela dos oligarcas do Vale do Silício, como Elon Musk, soa como algo fora do controle das sociedades políticas. Ela é infalível, não submetida aos erros dos humanos. Está na direção dos negócios e, sobretudo, da máquina militar. É quase como um deus imune à crítica e à oposição. A narrativa da “superinteligência” serve aos interesses de oligarcas e rentistas, que veem na IA uma forma de consolidar poder sem controle democrático.
O presidente republicano e a camarilha do MAGA são não apenas repugnantes como os tipos que os idolatram aqui. São perigosos. Negam a ciência e, por consequência, o aquecimento global, porque sabem que admitir a crise climática prejudica o modelo econômico que beneficia os seus negócios, baseado em combustíveis fósseis e consumo ilimitado. Trump, que recebeu milhões em doações de empresas de armas, defende a guerra não como caminho para a ordem, mas como mecanismo de controle social e acumulação de riqueza. E, ao cabo, uma forma de dar vazão ao capital que não encontra aplicação produtiva.
A Assembleia Geral da ONU, que deveria ser um espaço de diálogo e cooperação internacional, foi utilizada pelo presidente de um império decadente, aspirante a ditador, como palanque para agradar a sua base radicalizada e como campo de batalha geopolítico. E setores da mídia corporativa brasileira, alinhados ao bolsonarismo, naturalizaram a situação e resolveram investir contra Lula, que exigiu respeito à soberania brasileira. Um sintoma de nossa situação. Trump parece louco, mas age de forma racional; os analistas daqui parecem doutos, mas apenas parecem.
Enquanto isso, no Vale do Silício, há rumores de que funcionários da Anthropic passaram a tratar a IA Claude como uma espécie de divindade e objeto de culto. Circulam, inclusive, relatos de funerais para versões antigas do modelo. Embora não haja evidências de que isso seja uma prática institucionalizada, os boatos sobre rituais em torno da IA revelam como a projeção humana sobre a tecnologia pode assumir contornos quase religiosos. Não se trata de prática institucionalizada, mas boatos sugerem que a projeção humana sobre as máquinas adquiriu clima ritualístico, ultrapassando a atribuição de intencionalidade, consciência e moralidade ao que não passa de uma ferramenta.
Essa loucura, que faz da IA um objeto de fé e adoração, alimenta o espetáculo e serve ao propósito de gente como Trump. Por um lado, transforma a IA em um ator moral, com vontade própria. Por outro, desvia a atenção dos problemas reais sobre quem a controla, como é regulada e qual seu impacto social. Tudo passa a ser resumido em se a IA salvará ou destruirá a humanidade. E isso é ótimo para quem tem interesse em manter a opinião pública alienada.
A IA não é uma superconsciência como quer Trump, e, tampouco, um deus. Ela não é sequer consciência. Não vai salvar ou destruir a humanidade. Isso, como sempre, depende dos homens. Os oligarcas do Vale do Silício criam mitos para manter e ampliar o seu poder. Usam a tecnologia para polarizar e controlar Estados, corporações e indivíduos. Fazem dessa coisa à qual atribuem consciência um novo ópio do povo. Embora a IA seja, em essência, uma simulação baseada em padrões estatísticos, seu uso pode ter consequências materiais, como a manipulação de eleitores (Cambridge Analytica) ou a automação de desigualdades (sistemas de crédito que discriminam minorias). Padrões estatísticos são transformados em algo maior do que um humano, e essa é a tragédia. As pessoas creem.
Atribuir divindade e inteligência a um modelo de linguagem é como idolatrar um martelo porque ele prega pregos. A IA não tem consciência, intenção ou moral. Ela reproduz, em escala industrial, os vieses e interesses de quem a controla. A manipulação das consciências é o que torna os seres humanos vítimas da própria imaginação e os separa do resultado do seu trabalho, julgando que o mundo lhes é estranho.
Sem ignorantes, no sentido de quem ignora as causas estruturais dos fenômenos que se apresentam como autônomos, não haveria Trump. Mas a ignorância não é apenas individual. Ela é produzida por um sistema que beneficia a alienação
