A hora contada: regressão e mercantilização do trabalho

O Senado vota a redução da jornada para 40 horas semanais, sem corte de salário. A resposta da extrema direita está posta na PEC 12/2026, do senador Rogério Marinho (PL-RN): remuneração apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, acordo individual no lugar da negociação coletiva e o domingo reduzido a variável de demanda. O nome clássico disso é mais-valia absoluta; o desfecho previsto por Robert Castel, desfiliação social. É o alimento do fascismo.


O candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, já classificou a proposta de redução da jornada como “inoportuna e eleitoreira”, apontou uma “grande carga de hipocrisia” na discussão e, no segundo turno, acusou o presidente Lula de “oportunismo” para colher votos1. Os seus apoiadores no Senado apresentaram como alternativa uma proposta de pagamento por hora trabalhada que, na leitura de críticos do texto, pode fazer com que o trabalhador seja remunerado apenas quando convocado pelo empregador, conforme a demanda2. Ainda que haja quem resista a reconhecer o fato, isso significa um retrocesso em termos de direitos e um retorno de mecanismos de extração de mais-valia absoluta.

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pelo fim da escala 6×1, que atende ao reclamo dos trabalhadores e foi encampada pelo governo Lula, reduz gradualmente o limite de horas trabalhadas na semana das atuais 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado — um deles preferencialmente aos domingos — e sem redução dos salários3. Aprovada em dois turnos pela Câmara, a PEC deve ser votada em primeiro turno na quarta-feira (14)4. Isso não agrada os senadores da base bolsonarista.

A proposta dos que sugerem que se pague apenas pelas horas efetivamente trabalhadas não assegura o descanso semanal remunerado, como acontece hoje na vigência da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nela, férias, 13º salário e FGTS seriam pagos de forma proporcional às horas cumpridas5. Ao que tudo indica, o senador Rogério Marinho, do Partido Liberal (PL-RN), primeiro signatário da PEC 12/2026, que altera o artigo 7º da Constituição para permitir ao empregado optar entre o regime comum da CLT e um regime flexível baseado em horas trabalhadas6, não demonstra preocupação, assim como os seus colegas de extrema direita, com a saúde e o bem-estar dos brasileiros que vivem do trabalho. Para eles, o domingo pode deixar de ter repercussão salarial. Mas, como são os que dedicam o país a Cristo, imaginam que os pobres devem fazer ainda mais sacrifícios para dedicar um dia às suas igrejas.

Observando a celeuma criada pelos que se levantam contra a redução da jornada de trabalho com a manutenção dos salários, num país em que os “de cima” têm muito pouco a reclamar dos privilégios, é possível afirmar, sem temor ao exagero, que os senadores Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho têm como projeto para o povo brasileiro a ampliação da mais-valia absoluta e a mercantilização integral do trabalho, transformando o trabalhador em um não membro da sociedade política, alguém que só terá condições de sobreviver se efetivamente for convocado e ocupado pelos que mandam.

Mais do que discutir se o pagamento por hora trabalhada é vantajoso ou não e fazer comparações com a realidade dos Estados Unidos, onde a prática existe e inspira o modelo defendido por Flávio7, importa atentar para a fragilização da função do Direito do Trabalho embutida na PEC 12/2026. Ela autoriza a negociação direta entre trabalhador e empregador, sem a obrigatoriedade de negociação coletiva com o sindicato8, ignorando a condição de hipossuficiência do primeiro. Aos políticos da extrema direita não importa a assimetria de poder entre as partes: basta gritar liberdade e tudo se resolve por mágica. É como se propusessem um apagamento da longa luta histórica por direitos associados ao trabalho, que acompanha a democratização da sociedade.

Robert Castel e a fragilização do trabalho

O sociólogo Robert Castel, em As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário (1998), antecipou o fenômeno da fragilização do emprego protegido, a transformação do trabalho em simples mercadoria e a perda de direitos ligados ao assalariamento9. O avanço dos contratos curtos, o trabalho por demanda, a remuneração por hora, a ausência de garantia de jornada e o enfraquecimento da negociação coletiva não fazem o trabalhador perder apenas renda, mas também previsibilidade, proteção e pertencimento.

De acordo com Castel, a sociedade moderna é uma “sociedade salarial”, um arranjo no qual o emprego assalariado estável constitui uma fonte de renda e um suporte de proteção social, direitos, reconhecimento e integração à comunidade política. A sua flexibilização ou desintegração por conta das novas formas de contratação, remuneração e do enfraquecimento da negociação coletiva realizada por sindicatos conduz à perda de renda e ao fim da previsibilidade, da sensação de proteção e de pertencimento. É quando acontece a desfiliação social.

A desfiliação social é um conceito alternativo ao de exclusão social. Castel argumenta que ninguém sai da sociedade, pois as pessoas permanecem nela, mas deixam de dispor dos suportes para participar de forma regular e estável. Ela resulta da fragilização conjunta dos dois suportes do pertencimento. A fragilização do suporte de trabalho aparece como perda de renda, emprego e proteção social; a fragilização do suporte relacional aparece como isolamento, quebra dos vínculos coletivos e enfraquecimento da condição cidadã. E aqui avanço, afirmando que o indivíduo isolado, inseguro e ressentido busca na figura do líder e na promessa de ordem uma comunidade que o trabalho precarizado já não lhe oferece. É quando avança o fascismo e a ordem democrática definha.

O debate sobre a redução da jornada de trabalho não é novo e deveria acontecer de forma natural sob condições normais, em uma sociedade política alicerçada em cultura pública democrática. Mas não é esse o nosso cenário. O Brasil de 2026 está marcado pelas crises da fase atual do capitalismo internacional. Não bastasse, é o centro de uma disputa pela hegemonia no sistema-mundo que se reflete internamente, com atores internos agindo como peões de interesses externos.

Aos trabalhadores, parte da maioria do povo, que compõe os “de baixo”, cumpre ainda a dura tarefa de superar o passado e a sua marca sobre as instituições, a economia e a cultura. Se quiserem não regredir a formas de trabalho sem sustentação em direitos, devem avançar em organização. Essa é a chave para eles, para a sociedade política e para a nossa democracia.


Notas

  1. FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro diz que discussão do fim da 6×1 é oportunismo de Lula para ganhar votos. São Paulo, 6 out. 2026. Disponível em: < https://https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/flavio-bolsonaro-diz-que-fim-da-escala-6×1-e-oportunismo-de-lula-para-ganhar- >
    EXTRA (O GLOBO). “Hipocrisia”, “prejudicial ao trabalhador” e “solução fácil”: o que Flávio disse sobre fim da escala 6×1 antes de declarar apoio à PEC. Rio de Janeiro, out. 2026. Disponível em: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/10/hipocrisia-prejudicial-ao-trabalhador-e-solucao-facil-o-que-flavio-disse-sobre-fim-da-escala-6×1-antes-de-declarar-apoio-a-pec.ghtml. Acesso em: 13 out. 2026. Acesso em: 13 out. 2026 ↩︎
  2. FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. PEC do senador Rogério Marinho (PL) cria regime por hora trabalhada e ameaça avanço do fim da escala 6×1. São Paulo, out. 2026. Disponível em: < https://fpabramo.org.br/pec-do-senador-rogerio-marinho-pl-cria-regime-por-hora-trabalhada-e-ameaca-avanco-do-fim-da-escala-6×1/ >. Acesso em: 13 out. 2026. ↩︎
  3. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Câmara aprova em dois turnos fim da escala 6×1 com jornada máxima de 40 horas semanais. Brasília, 2026. Disponível em: < https://www.camara.leg.br/noticias/1277141-camara-aprova-em-dois-turnos-fim-da-escala-6×1-com-jornada-maxima-de-40-horas-semanais >. Acesso em: 13 out. 2026.
    Ver também FOLHA DE S.PAULO, 6 out. 2026 (op. cit. nota 1): redução de 44 para 40 horas semanais, duas folgas obrigatórias, uma delas preferencialmente aos domingos, sem redução da remuneração. ↩︎
  4. CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES (CUT). PEC do fim da escala 6×1 será votada no Senado na quarta-feira (14). São Paulo, 10 out. 2026. Disponível em: < https://www.cut.org.br/noticias/pec-do-fim-da-escala-6×1-sera-votada-no-senado-na-quarta-feira-14-6ca1 >. Acesso em: 13 out. 2026. ↩︎
  5. FOLHA DE S.PAULO. Entenda as propostas pelo fim da escala 6×1 apoiadas por Lula e Flávio Bolsonaro. São Paulo, out. 2026. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/entenda-as-propostas-pelo-fim-da-escala-6×1-de-flavio-bolsonaro-e-lula.shtml >. Acesso em: 13 out. 2026. ↩︎
  6. SENADO FEDERAL. PEC 12/2026 — Ementa: altera o Art. 7º da Constituição Federal para prever a possibilidade de opção pelos empregados quanto à jornada de trabalho, entre o regime comum da CLT ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. Brasília, 2026. Disponível em: < https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174362 >. Acesso em: 13 out. 2026. ↩︎
  7. UOL. “Hipocrisia” e “oportunista”: o que Flávio já disse sobre fim da escala 6×1. São Paulo, 13 out. 2026. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/13/hipocrisia-e-oportunista-o-que-flavio-ja-disse-sobre-fim-da-escala-6×1.htm > . Acesso em: 13 out. 2026. ↩︎
  8. METRÓPOLES. Flávio chamou fim da escala 6×1 de “oportunista”. Brasília, out. 2026. Disponível em: < https://www.metropoles.com/blog-do-noblat/artigos/flavio-chamou-fim-da-escala-6×1-de-oportunista >. Acesso em: 13 out. 2026. A PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho (PL-RN) e assinada por Flávio Bolsonaro, prevê acordo individual entre empresa e empregado, sem obrigatoriedade de negociação coletiva com o sindicato. ↩︎
  9. CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *