O pombo e a fronteira

Na noite deste domingo (18), a sete dias do segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro encontram-se pela primeira vez cara a cara, no debate da TV Bandeirantes. Inspirado no agonismo de Chantal Mouffe, este ensaio propõe que o palco não serve para consensos, mas para mostrar ao eleitor por onde passa a fronteira entre a democracia e a barbárie.


Logo mais, nesta noite de domingo, acontece o primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro nesta eleição decisiva para a democracia brasileira. O candidato oposicionista, apoiado por aquele ente que a mídia qualifica como “os mercados”, pratica a política a partir da distinção entre amigos e inimigos, a distinção que o principal jurista do nazismo, Carl Schmitt, filiado ao Partido Nazista em 1933, erigiu em doutrina1. O presidente, que concorre à reeleição, com todos os erros que lhe possam apontar, é um dos que participou da redemocratização da sociedade brasileira e fez avançar a cidadania inclusiva.

Na universidade pública, na década de 1980, tive excelentes professores. No antigo departamento de filosofia, política e antropologia, aprendi sobre a deliberação habermasiana, que é voltada à produção de consensos2. Essa escumalha que se articula em torno de Flávio Bolsonaro não busca isso. Basta observar a assimetria que se instalou nas eleições. Depois do primeiro turno, as duas campanhas despejaram sobre o Tribunal Superior Eleitoral um recorde de recursos judiciais, mais que o triplo do registrado no mesmo período de 2022, num vale-tudo que levou o próprio tribunal a advertir os dois campos3. Não bastasse, o adversário exibe como credencial o elogio público de Donald Trump, que o recebeu em Washington e o descreveu como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”4; e a campanha do presidente denuncia, com pedido de investigação encaminhado também ao relator especial da ONU, a “interferência” das plataformas, com restrições a conteúdos petistas e anúncios desativados que a Meta atribui a “incidentes técnicos”5.

De qualquer forma, o debate desta noite, na TV Bandeirantes, apesar de ser como um jogo de xadrez de um democrata contra um pombo que derruba as peças, não é para a produção de consensos. Ele deve ser visto como algo que imagino que Chantal Mouffe diria aos democratas que apoiam Lula, cujo objetivo é mostrar a fronteira, não agradar ao centro6.

É sabido que não se debate com fascista. E Flávio Bolsonaro e a sua turma são os fascistas deste século. Lula está numa disputa para mostrar a fronteira e, de forma pedagógica, fazer o eleitor compreender que luta contra uma oligarquia da pior espécie, disposta a tudo, inclusive a anistiar o golpe que já foi tentado7. O debate não é para expor o pombo que é o Bolsonaro filho, mas para mostrar que existe um campo popular e democrático, de resistência à barbárie, às big techs, aos “mercados” e ao mal absoluto.

A ideia de Chantal Mouffe, que vale a pena recuperarmos, é a de agonismo, que nada mais é que uma recusa. Recusa ao modelo deliberativo de Habermas, que considero e admiro, e de Rawls. O conflito não será dissolvido por meios racionais. Isso é uma fantasia liberal, uma tolice, ainda mais neste tempo de redes digitais8. Logo, Carl Schmitt tinha razão em algo, infelizmente. A esfera do político é o lugar do conflito, e o antagonismo jamais é abolido. Onde ele erra — e onde Mouffe o corrige — é em tomar o inimigo como o destino dessa esfera; algo que até alguém como eu, um leitor de Bobbio, é obrigado a aceitar9.

Agonismo é um termo de origem grega. Agōn significa combate ritual, disputa. Os gregos fizeram da rivalidade uma instituição civilizatória, na qual o combate é contido pelo reconhecimento mútuo e a disputa é um estímulo à excelência, não a busca pela aniquilação. Foi assim que Nietzsche, na “contesta homérica”, viu o agón como o canal por onde os gregos desviaram seus impulsos destrutivos para a competição. O adversário é a condição da minha excelência, a prova do que sou. Logo, o debate desta noite, tal como o enxergo, é o lugar para Lula domesticar o conflito. Com as câmeras ligadas, o objetivo é mostrar que esse filho de um golpista, esse político do baixo clero, não é interlocutor legítimo de ideias, mas o “testa de ferro” de interesses que buscam o governo do Estado como butim. O objetivo dos que o patrocinam é expoliar a terra e as gentes.

Ao contrário do que eu mesmo já escrevi e respondi, quando perguntado por repórteres, Mouffe ajuda a ver a extrema-direita não como um polo da chamada polarização, mas como a recusa do agonismo. O mal que nos atormenta é precisamente esse, e é por este motivo que se deve debater com fascistas. Trata-se de mostrar que essa gente prega a eliminação de parte da sociedade política. E que os isentos, o chamado centro político e a mídia conservadora são um perigo, pois fingem que não há um desastre na esquina.

Quem não é capaz de nomear o desastre da anulação da democracia, não compreende o que significa o colapso da fronteira entre oponente e inimigo, ainda que noticie os mortos da intolerância, como o guarda municipal Marcelo Arruda, tesoureiro do PT de Foz do Iguaçu, assassinado em sua festa de aniversário de 50 anos por um agressor que gritava “Bolsonaro” e “mito”10. É a cegueira da ignorância ou da hipocrisia em ação.


Notas:

  1. SCHMITT, Carl. O Conceito De Político. Lisboa: Edições, v. 70, 2009. Sobre a filiação: Schmitt ingressou no NSDAP em 1º de maio de 1933, foi nomeado conselheiro de Estado prussiano por Hermann Göring (julho de 1933) e presidiu a Associação de Juristas Nacional-Socialistas (novembro de 1933). Fontes: Encyclopaedia Britannica; Jewish Virtual Library. ↩︎
  2. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. In: Direito e democracia: entre facticidade e validade. 2002; RAWLS, John. O liberalismo político. São Paulo: Ática, 2000. ↩︎
  3. Foram 162 recursos judiciais registrados no TSE após o primeiro turno de 4 de outubro — mais que o triplo do registrado no mesmo período de 2022 —, impetrados pelas duas campanhas, que se acusam mutuamente de desinformação; o tribunal advertiu ambos os campos sobre o “risco de decisões conflitantes e de restrição ao debate entre candidatos”. Fonte: UOL. Disponível em: < TSE alerta campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro por guerra digital e judicial > Acesso em 18/10/2026. ↩︎
  4. Trump reuniu-se com Flávio Bolsonaro em Washington em maio de 2026 e o elogiou publicamente como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”. Fonte: Correio Braziliense. Disponível em: < Trump posta foto com Flávio Bolsonaro: ‘Jovem que ama seu país’ > Acesso em 18/10/2026. ↩︎
  5. A campanha de Lula pediu às autoridades investigação de supostos benefícios econômicos da Meta à campanha adversária, com denúncia também encaminhada ao relator especial da ONU sobre liberdade de expressão; a Meta nega ter tomado partido no pleito e atribuiu os episódios — restrições de conteúdo e desativação de anúncios — a “incidentes técnicos”. Fonte: UOL. Disponível em: <Campanha de Lula vai ao TSE e acusa Meta de tratamento desigual em relação a Flávio > Acesso em 18/10/2026. ↩︎
  6. MOUFFE, Chantal. Por um populismo de esquerda. Autonomia Literária, 2020. ↩︎
  7. Jair Bolsonaro cumpre, em prisão domiciliar, pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado; Flávio Bolsonaro promete impulsionar, se eleito, lei de anistia em benefício do pai e de bolsonaristas condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. Fonte: CBN. Disponível em: < Flávio Bolsonaro articula proposta de anistia para o pai com aliados no Congresso > . Acesso em 18/10/2026. ↩︎
  8. A crítica de Mouffe ao “consenso racional” de Habermas e Rawls está em MOUFFE, Chantal. “For an Agonistic Model of Democracy”. In: The Democratic Paradox. London: Verso, 2000. Para a matriz deliberativa, cf. nota 3. ↩︎
  9. BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia: Uma Defesa das Regras do Jogo. Rio de
    Janeiro: Paz e Terra, 1986. ↩︎
  10. Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT de Foz do Iguaçu (PR), foi morto a tiros na noite de 9 de julho de 2022, em sua festa de aniversário de 50 anos de tema petista, pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho, que invadiu o evento aos gritos de “Bolsonaro” e “mito”; o crime teve repercussão nacional e o réu foi a júri popular. Fonte: ICL. Disponível em: < Homem que matou tesoureiro do PT no Paraná vai para prisão domiciliar – ICL Notícias > Acesso em 18/10/2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

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