Entre um Bolsonaro e outro, a barbárie avança

O bolsonarismo faz do descrédito do outro a sua política. O movimento reduz as pessoas a um rótulo e justifica a sua exclusão e eliminação. Ele estigmatiza. E, ao listar os trabalhadores e os comércios de quem votou em Lula, repete, sem o saber, a marcação de 1933 sobre os judeus.


Hoje, o Dissidente inicia uma nova fase. Um ano transcorreu desde que iniciei a fase 2. Nesta terceira etapa, após a confirmação da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 25 de outubro, o momento é de projetar o futuro sem perder o fio da história que nos trouxe até aqui.

Entre um Bolsonaro e outro, muita coisa aconteceu. No campo da política, infelizmente, nada de novo. A recriação do pior do passado com nova roupagem.

Eu me lembro dos cafajestes que invadiram hospitais durante a pandemia, estimulados pelo presidente Jair Bolsonaro, com o objetivo de desqualificar os relatos sobre a letalidade da Covid-19; me lembro de pais que irromperam pelas salas de aula para ofender docentes, com base na reprodução da ideia macartista de que os professores seriam comunistas, coisa de um movimento intitulado “Escola sem Partido”. E não me esqueço de jovens ignorantes ostentando orgulhosos camisetas com a inscrição “menos Marx, mais Mises”.

Tudo isso foi coroado com mortes. A imprensa noticiou, esqueceu e abraçou como normal o bolsonarismo. Mas não deixarei passar sem menção os assassinatos de Moa do Katendê, em 2018, com 12 facadas, por um vagabundo bolsonarista que se irritou por ele ser petista; de Genivaldo de Jesus, assassinado em 2022, por policiais rodoviários federais, por asfixia, na traseira de uma viatura; e de Marcelo Arruda, militante petista, vítima de um fanático extremista, em 9 de julho de 2022, apenas por ser eleitor de Lula.

Eu, que nasci e cresci sob uma ditadura repugnante, quando adolescente aprendi a lutar pela democracia. No ocaso de minha vida, enxergo o extremismo de direita crescer sob o patrocínio de uma elite econômica que despreza o povo e a nação. Também por isso, sou dissidente. Mas o fundamental é que não pertenço a grupo algum. Sou de esquerda, democrata, e isso basta.

Neste último dia de outubro de 2026, causa asco a postura dos empresários, políticos e outros tipos que fazem listas e sugerem demitir trabalhadores e boicotar comerciantes que votaram em Lula. Isso é o bolsonarismo! Um movimento associado ao extremismo evangélico neopentecostal. Um movimento nazista tropical que emula as práticas do passado com roupagem nova e estimula gente ignorante da história a repetir a barbárie, julgando fazer a coisa certa.

Mais escandaloso ainda é saber que parte da comunidade judaica apoia entusiasmada o bolsonarismo, um movimento que emula, contra os outros, as práticas que, um dia, foram dirigidas contra os seus antepassados. De fato, o capital, esse resultado de relações sociais, essa coisa abstrata, faz os homens se tornarem “especialistas sem espírito, sensualistas sem coração”, nulidades, como escreveu Max Weber.

A violência contra profissionais de saúde, professores, petistas, trabalhadores e comerciantes faz parte de algo grave. O bolsonarismo, como parte de um movimento extremista de direita que reúne seres aberrantes sob a tolerância de uma elite econômica não qualificada a dirigir um povo e uma nação, faz do descrédito do outro a sua política. Ele reduz todos os seres humanos, os concidadãos, a um rótulo e justifica a sua exclusão e eliminação. Ele estigmatiza.

Erving Goffman, ao escrever “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”, fala sobre a atribuição de rótulos e como isso autoriza a humilhação e a discriminação. As pessoas passam a ser vistas apenas pelo estigma que carregam, e suas identidades reais são desprezadas.

Enfim, o eleitor brasileiro rejeitou o segundo Bolsonaro, Flávio, filho do primeiro. O governo Lula, ao que tudo indica, é pressionado a compor com o bolsonarismo por conta da governabilidade, assumindo, inclusive, pautas do chamado mercado financeiro, que não é um ente da sociedade política, como os cidadãos.

Eu continuo dissidente e vigilante. Desafinando o presente e imaginando o futuro.

Autor

  • Rogério Baptistini

    Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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