A dissolução do sólido na era da incerteza

Há algumas décadas, acreditávamos que o futuro seria feito de certezas: democracias consolidadas, fronteiras dissolvidas pelo comércio global e tecnologias que nos libertariam do trabalho alienante. Hoje, sabemos que o sólido não resistiu. O capital se tornou um jogo de especulação e dívidas, o trabalho virou algoritmos e tarefas precárias, e a política, um espetáculo de ressentimentos.

Nós, modernos, somos acometidos por uma sensação de vertigem, típica da era que habitamos. Marx e Engels já anunciavam isso quando escreveram, no Manifesto Comunista, que o capitalismo dissolve todas as relações estáveis, substituindo-as por outras mais precárias e efêmeras. Baudelaire, por sua vez, chamou essa experiência de “turbilhão”, ao descrever o caráter transitório, contingente e fugidio da modernidade. Mais de um século depois, Zygmunt Bauman batizou essa condição de “modernidade líquida”, na qual até as identidades e os vínculos se desmancham antes de se solidificarem. Mas foi apenas no final do século XX, com a queda da União Soviética e a euforia da globalização, que muitos de nós acreditamos, por um breve momento, que o turbilhão finalmente se acalmaria.

Nos anos 1990, a narrativa do “fim da história”, popularizada por Fukuyama, era sedutora. Apresentava a vitória da democracia liberal e a promessa de um mundo integrado por mercados abertos e tecnologias que encurtariam distâncias. Parecia que os Estados nacionais, com suas fronteiras rígidas, estavam sendo superados por uma nova ordem global, na qual o capital, as mercadorias e até as ideias circulariam sem barreiras. Mas havia um detalhe incômodo: enquanto o capital e as mercadorias ganhavam o mundo, os pobres e os trabalhadores continuavam presos a vistos, passaportes e muros. A globalização não era um fenômeno uniforme; era um processo que dissolvia o sólido para alguns e aprofundava a exclusão para outros.

O que muitos de nós não vimos foi que, por baixo da euforia, dois fenômenos se aprofundavam, acelerando a dissolução de tudo: a financeirização do capital e a revolução tecnológica. O capital deixou de estar ancorado na produção material para se tornar um jogo abstrato de ativos, dívidas e especulação. Marx já falava do “capital fictício” em O Capital, mas a financeirização contemporânea, com seus derivativos, criptomoedas e dívidas soberanas, levou essa lógica a um patamar que nem mesmo ele poderia antever. A vida virou um portfólio a ser gerenciado, e até a imaginação foi colonizada. As pessoas passaram a sonhar com “startups”, “independência financeira” e “marcas pessoais”, como se a liberdade pudesse ser medida em ações ou criptomoedas. Enquanto isso, a tecnologia da informação não apenas transformou a produção e o comércio, como também explodiu o mundo do trabalho. O emprego estável virou um trabalho por aplicativo; as carreiras, um conjunto de tarefas algorítmicas; e os trabalhadores, dados em um sistema que os descarta quando deixam de ser úteis.

Gramsci, ao reivindicar o pessimismo da razão e o otimismo da vontade, nos alertou para a necessidade de enxergar a realidade com clareza, sem ilusões, mas também sem desistir da luta. Falhamos, porém, no primeiro movimento desse exercício dialético. Acreditamos que a democracia liberal, o Estado de bem-estar e a globalização trariam progresso linear. Subestimamos a capacidade do capital de se reinventar, de corromper até as nossas utopias. Não percebemos que a mesma tecnologia que prometia conectar o mundo também era uma armadilha, capturada pelo capital para aprofundar a exploração e a fragmentação. Enquanto celebrávamos a “nova economia”, milhões eram lançados à precariedade. A esquerda deixou de falar com aqueles que foram esmagados pela globalização.

Hoje, colhemos o que não plantamos. A incerteza já não é apenas um problema das “periferias”, mas está no coração da Europa e dos Estados Unidos. O fascismo ressurge como resposta desesperada de quem foi abandonado pela narrativa progressista. E isso não é acaso. Quando o trabalho estável desaparece e é substituído pela precariedade permanente, quando comunidades inteiras são esvaziadas pela desindustrialização e pela especulação financeira, o ressentimento encontra solo fértil. A promessa globalizante de prosperidade compartilhada revelou-se uma ilusão para milhões, e o vácuo deixado por essa traição foi preenchido por demagogos que oferecem inimigos simples para problemas complexos. As crises se acumulam na forma de pandemias, guerras, colapso climático e inflação, enquanto a política se transforma em espetáculo no qual a manipulação emocional frequentemente prevalece sobre a deliberação coletiva. A democracia, que deveria ser nosso refúgio, parece cada vez mais frágil, capturada por forças que transformam até a resistência em espetáculo ou produto de consumo.

O turbilhão não parou. Tornou-se mais rápido, mais voraz. A financeirização transformou até o futuro em hipoteca, e a tecnologia, que deveria nos libertar, aprisionou-nos em algoritmos que decidem por nós. O trabalho, que antes conferia alguma identidade, tornou-se líquido, precário e descartável. E nós, os democratas, ficamos sem respostas, porque nos faltou a coragem de encarar a realidade como um sistema que dissolve o sólido não por acaso, mas por necessidade.

Talvez a lição a aprender seja a de que não há como parar o turbilhão, mas, como escreveu Marshall Berman, tornar-nos aptos a enfrentar as aventuras e os perigos que estão por vir. Para isso, porém, precisamos primeiro parar de mentir para nós mesmos. A dissolução do sólido não é um acidente da história; é o seu funcionamento normal. E é contra isso que devemos lutar. Não com nostalgia por um passado que não voltará, mas com a determinação de construir, no meio do caos, ilhas de significado, solidariedade e resistência. Aqui reside o otimismo da vontade de Gramsci: mesmo diante do pessimismo necessário para enxergar o real, não podemos abrir mão da convicção de que outro mundo é possível e de que cabe a nós construí-lo.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Lisboa: Gradiva, 1992.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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