O capitalismo já não é mais sobre fábricas, máquinas ou salários. Hoje, ele se alimenta de dados, algoritmos e da capacidade de manipular comportamentos em escala global. Enquanto uma oligarquia tecnológica acumula poder sem precedentes, as instituições falham e uma nova idade média, agora digital, ganha contornos.
O capitalismo mudou. Não é mais baseado em fábricas, máquinas e na exploração do trabalho físico dos operários. É algo abstrato e, por isso mesmo, perigoso: se orienta pela extração de dados, pelo controle algorítmico e pela manipulação comportamental em escala global. O que vivemos hoje é uma transformação radical do sistema, em que o poder econômico e político se concentra nas mãos de uma oligarquia tecnológica que opera fora das regras da democracia. Enquanto isso, as instituições que deveriam nos proteger falham em compreender a velocidade dessa mudança, ou são cooptadas por ela. É o que acontece com as universidades, partidos e, no limite, os Estados Democráticos.
Esse é um diagnóstico compartilhado por pensadores como Shoshana Zuboff, Byung-Chul Han e Yanis Varoufakis, e confirmado por fatos. As cinco maiores empresas de tecnologia do mundo (Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft) valem mais que o PIB da maioria dos Estados-nação, e seu modelo de negócio não depende da produção de bens, mas da vigilância, previsão e influência sobre o comportamento humano. Zuboff qualifica isso de “capitalismo de vigilância”, pois o sistema não extrai mais-valia do trabalho, mas renda da atenção, dos dados e da capacidade de moldar escolhas, sejam elas de consumo, políticas ou existenciais.
A extração de dados como novo motor do capital
Até o século XX, o capitalismo se organizava em torno da produção material. Fábricas, indústrias e o trabalho assalariado eram o cerne da acumulação de riqueza. Hoje, a lógica é outra. Nick Srnicek em Capitalismo de Plataforma, mostra que as grandes corporações tecnológicas não produzem quase nada no sentido tradicional. Em vez disso, elas controlam infraestruturas digitais (redes sociais, sistemas de pagamento, nuvens de dados) e extraem valor a partir da monitoração constante de usuários. Cada clique, cada busca, cada interação nas redes sociais é transformada em dados, que são analisados por algoritmos para prever e influenciar comportamentos. O produto não é mais um carro ou um eletrodoméstico, mas a própria capacidade de antecipar e modificar ações humanas.
Em 2023, a receita global com anúncios digitais superou US$ 600 bilhões1, mais que o PIB da Argentina. Essa riqueza não vem da venda de mercadorias, mas da monetização da atenção e da venda de “futuros comportamentais” a anunciantes. Como escreve Zuboff, não somos mais consumidores, mas matéria-prima. Os nossos dados são extraídos, processados e vendidos sem que tenhamos controle sobre isso.
O mais grave é que esse modelo não se limita à economia. Ele invade e reconfigura a política. Plataformas como Facebook e TikTok não são neutras; seus algoritmos são projetados para maximizar o engajamento, o que, na prática, significa premiar conteúdos emocionais, polarizantes e muitas vezes falsos. Estudos do MIT Technology Review mostram que notícias falsas se espalham 6 vezes mais rápido que as verdadeiras nas redes sociais2. Não é coincidência que, desde 2016, tenhamos visto a ascensão global de líderes populistas, de Trump a Bolsonaro, que souberam explorar essa dinâmica.
A “nova idade média” e os planos dos oligarcas da tecnologia
O filósofo Byung-Chul Han chama esse fenômeno de psicopolítica: um sistema de controle que não precisa de violência física, apenas de dados e estímulos personalizados para adestrar as massas. Mas há quem vá além. O economista Yanis Varoufakis argumenta que estamos entrando em uma era de tecnofeudalismo, na qual as plataformas digitais atuam como senhores feudais que controlam o acesso aos “feudos” (seus ecossistemas digitais) e cobram uma “renda” (taxas, assinaturas, monetização de dados) dos “servos” (usuários e pequenos produtores de conteúdo).
Esse diagnóstico ganha contornos sombrios quando olhamos para os planos concretos dos bilionários do Vale do Silício. Em 2026, projetos de construção de uma cidade privada financiada por investidores de tecnologia (California Forever)3, ou as iniciativas de Peter Thiel (como o Seasteading ou a cidade “renascentista” Praxis, no Mediterrâneo)4 revelam a estratégia clara de criar enclaves onde as regras são definidas por contratos privados, não por leis públicas. Thiel, cofundador do PayPal e um dos principais investidores do Facebook, não esconde seu objetivo: escapar da “opressão do Estado” e construir sociedades onde a tecnologia e o capital privado substituam a democracia5.
Não se trata de ficção. Em janeiro de 2026, a imprensa internacional revelou que aliados de Donald Trump e empresários do Vale do Silício, como Sam Altman (OpenAI) e Jeff Bezos (Amazon), têm investido em projetos de exploração mineral e infraestrutura privada na Groenlândia, território autônomo da Dinamarca rico em terras raras e recursos estratégicos. Trump chegou a propor a compra da ilha em 2019, e agora, com o derretimento do gelo ártico, o interesse se renova, não como um projeto de Estado, mas como um negócio privado, onde corporações poderiam atuar com pouca regulação. Como escreveu a VEJA em janeiro de 2026, “a Groenlândia é vista como um ‘grande projeto imobiliário do futuro'”, um território onde oligarcas tecnológicos poderiam construir seus próprios “feudos modernos”, livres das amarras da democracia6.
Esse movimento não é isolado. Ele faz parte de uma tendência maior, descrita pelo sociólogo Alain Minc em A Nova Idade Média: a fragmentação do poder e o enfraquecimento dos Estados-nação em favor de atores privados, sejam corporações, bilionários ou plataformas digitais. O que Minc previu há 30 anos parece se concretizar hoje. Surge, no horizonte, um mundo onde o poder é difuso, as leis são substituídas por termos de serviço, e a cidadania é reduzida a um conjunto de “preferências” monitoradas por algoritmos.
A falência das instituições democráticas
Diante desse cenário, universidades, partidos políticos e Estados têm falhado de maneiras distintas, mas igualmente graves. Essas instituições já não protegem a democracia.
As universidades, especialmente no Brasil, estão presas a um dilema: as públicas, asfixiadas pela burocracia e pelo ritmo lento da pesquisa acadêmica, perdem relevância no debate público; as privadas, cada vez mais, funcionam como think tanks do mercado, formando mão de obra para corporações em vez de cidadãos críticos. Enquanto a academia discute em revistas especializadas, as redes sociais e os algoritmos moldam a opinião pública em tempo real. O resultado é que o conhecimento rigoroso chega tarde demais, quando já foi substituído por narrativas fabricadas por influencers ou bots.
Os partidos políticos, por sua vez, não souberam responder a essa transformação. A esquerda tradicional, em particular, continua presa a discursos do século XX, enquanto a direita populista domina as redes sociais com mensagens simples e emocionais. Ao que parece, a democracia liberal não está preparada para enfrentar um inimigo que não usa tanques ou exércitos, mas algoritmos e desinformação. Os partidos democráticos não aprenderam a lutar nessa guerra e, pior, muitos dependem das mesmas plataformas que os corroem para fazer campanha.
Por fim, o Estado tem sido incapaz de regular as plataformas digitais. Enquanto a União Europeia avança com leis como o Digital Markets Act (que tenta limitar o poder das big techs), governos pressionados pela extrema direita renunciam à regulação em nome de um suposto direito à “liberdade de expressão”. O resultado é que corporações como Google e Meta operam como Estados paralelos, definindo regras, cobrando impostos (na forma de taxas sobre apps ou anúncios) e até influenciando eleições, sem qualquer prestação de contas.
Conclusão: a democracia não está morta, mas precisa ser reinventada
O que estamos vivendo não é apenas uma crise do capitalismo, mas uma mutação profunda em como o poder é exercido. As big techs não são apenas empresas; são novos centros de poder, que controlam não só a economia, mas a política, a cultura e até a subjetividade. Diante disso, a democracia precisa se reinventar.
Isso não significa abandonar as instituições tradicionais (partidos, universidades, Estados), mas repensá-las radicalmente. Significa entender que, em um mundo dominado por algoritmos, a resistência também precisa ser algorítmica. É fundamental usar a tecnologia para criar alternativas, ocupar espaços digitais com conteúdo crítico, e construir redes que não dependam das plataformas corporativas.
O desafio é enorme, mas não é novo. Como escreveu Gramsci, em tempos de crise, “o velho morre e o novo não pode nascer”. Caberá aos democratas acelerar a morte do velho, representado pelo capitalismo de vigilância e pela democracia de fachada, e criar as condições para o surgimento do novo na forma de uma democracia que seja capaz de enfrentar os oligarcas da tecnologia.
Referências citadas:
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Belo Horizonte: Âyiné, 2020.
MINC, Alain. A Nova Idade Média. São Paulo: Ática, 1994.
SRNICEK, Nick. Capitalismo de Plataforma. São Paulo: Ubu, 2018.
VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo. São Paulo: Crítica, 2025.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
- The Economic and Social Impact of Platform Transparency: Ad Regulation for the Construction of Inclusive Digital Markets. In: < https://netlab.eco.ufrj.br/post/the-economic-and-social-impact-of-platform-transparency-ad-regulation > acesso em 20/01/2026. ↩︎
- The spread of true and false news online. In: < https://www.science.org/doi/10.1126/science.aap9559 > acesso em 20/01/2026. ↩︎
- A cidade (quase secreta) que bilionários do Vale do Silício estão construindo. In: <
https://neofeed.com.br/negocios/a-cidade-quase-secreta-que-bilionarios-do-vale-do-silicio-estao-construindo > acesso em 20/01/2026. ↩︎ - Seasteading is making a comeback — but these utopian paradises on the high seas have a history of failure. In: < https://www.independent.co.uk/news/science/seasteading-peter-thiel-silicon-valley-oceanix-b2822563.html > acesso em 20/01/2026. ↩︎
- Peter Thiel, um capitalista militante. In: < https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2023/05/17/peter-thiel-um-capitalista-militante/ > acesso em 20/01/2026. ↩︎
- Por que o aquecimento global transforma Groenlândia em alvo estratégico de Trump. In: < https://veja.abril.com.br/agenda-verde/por-que-o-aquecimento-global-transforma-groenlandia-em-alvo-estrategico-de-trump/#google_vignette > acesso em 20/01/2026. ↩︎


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