A morte de Jürgen Habermas não encerra apenas a trajetória de um dos últimos grandes herdeiros da Escola de Frankfurt: ela expõe o esgotamento do projeto iluminista. Hoje, assistimos ao derruimento da esfera pública pela insensatez algorítmica, que substitui o diálogo pela manipulação e a razão pela fragmentação. Nesse mundo atormentado por demônios, a ‘ação comunicativa’ de Habermas e a angústia existencial de Karl Jaspers são bússolas para reencontrar o sentido do humano e revigorar as democracias.
Envelhecer traz como condição assistir ao desaparecimento das pessoas antes que o próprio se consuma. Neste 14 de março, foi Jürgen Habermas quem morreu, aos 96 anos, em Starnberg, no sul da Alemanha. Uma perda enorme.
Habermas, que conheci na juventude, na universidade pública ainda no período da transição democrática brasileira, acompanhou-me ao longo da vida. Filósofo e sociólogo, talvez tenha sido o mais influente herdeiro da tradição da Escola de Frankfurt de Adorno, Marcuse e Horkheimer. Um intelectual profundamente preocupado com as questões da modernidade, do Iluminismo, da esfera pública e da comunicação na democracia. Recorri algumas vezes às ideias contidas em seu livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, de 1962, para pensar o tema dos intelectuais e do debate público, bem como a relação entre sociedade, mídia e democracia, algo que foi se degradando ao longo do século XX.
Defensor da racionalidade comunicativa, da democracia deliberativa e da ideia de que a esfera pública é essencial para a sociedade moderna, Habermas talvez seja um dos últimos grandes intelectuais críticos do capitalismo e da burocratização da vida social pelo sistema. O seu argumento em defesa da comunicação livre e igualitária como necessária para a formulação dos consensos democráticos enfrenta, contemporaneamente, o obstáculo das big techs e das redes digitais que, como mencionei em ensaios anteriores, colonizam o mundo da vida com a imposição insidiosa da burocracia algorítmica.
De certa forma, no capitalismo de plataformas (Srnicek), que já configura uma espécie de tecnofeudalismo (Varoufakis), as plataformas digitais que prometem liberdade e conexão entregam o oposto. Elas fragmentam a vida pública em bolhas ideológicas, aprisionando os participantes e impedindo o diálogo genuíno. Na verdade, conduzem a uma interação artificial mediada por algoritmos e métricas de engajamento. Disso resulta a regressão da modernidade iluminista a um arquipélago de monólogos, uma algaravia onde a verdade padece e a deliberação coletiva é substituída pela manipulação das consciências. É o fim da razão comunicativa reclamada por Habermas.
No instigante artigo publicado na revista Dados, no ano de 1983, “O problema da cidadania na hora da transição democrática”, Luiz Werneck Vianna — que me foi apresentado pelos meus professores de Política e Teoria do Estado — argumentava que, na transição brasileira em curso, o desafio era a incorporação das classes subalternas à cidadania, sem o controle “pelo alto” das elites. Livremente, isso remete à esfera pública vibrante de Habermas, na qual os cidadãos livres e iguais podem debater, questionar e produzir consensos para a vida democrática moderna. Algo que a história brasileira demonstra ter sido negligenciado pelas elites políticas e econômicas e, agora, sob a Constituição de 1988, é mais uma vez sabotado pelo uso das redes digitais e pelo controle algorítmico, que degradam o diálogo.
Esse mar degradado, que em nada se assemelha ao espaço racional de debate entre cidadãos proposto por Habermas, remete à obra de outro alemão: A Nau dos Insensatos, de Sebastian Brant. As pessoas com os olhos presos às telas dos seus smartphones são os insensatos do livro de 1494, que, por vício, vaidade, ganância e ignorância, abandonaram a razão e meteram-se num navio à deriva, em mar revoltoso, no qual todos querem entreter e ser entretidos, despreocupados com a questão central: o timão. Hoje, este está sob o controle de políticos de extrema-direita a serviço dos oligarcas das big techs e das finanças. É a razão substituída pela irracionalidade, e a democracia pela demagogia digital.
Quando a tolice organizada chega ao ponto de eleger figuras tão repulsivas como Trump, Bolsonaro e o chileno Kast, estamos, de fato, diante da insensatez como um sintoma de um sistema no qual a racionalidade foi substituída pela lógica algorítmica e pela manipulação emocional. O naufrágio de um projeto moderno e iluminista passa a ser uma possibilidade, e a distopia pós-humana, uma condição real. Este é o motivo que torna ainda mais dramática e triste a morte de uma figura do porte de Habermas. Ele representava o farol da crítica racional. Na metáfora da nau, voltando a Brant e aos insensatos, é exatamente essa luz que garantiu a sobrevivência da humanidade e que hoje está em risco. Num mundo em que a ciência é descreditada, os fatos são relativizados e a verdade se dissolve nisso que chamam de “narrativas”, triunfam a tolice organizada, os dogmas, as identidades e as promessas de salvação. A insensatez, enfim.
E chego ao ponto que me toca particularmente. Habermas propunha a comunicação como fundamental para a democracia; porém, como leitor de Karl Jaspers, o filósofo solitário de Basileia, creio, noutra chave de interpretação, que a realidade da comunicação seja atravessada por silêncios e incompreensões, que ela seja um caminho sem fim. Ela não vai produzir o consenso total ou conduzir à verdade absoluta. É apenas a nossa forma de existir como humanos, sendo sempre parcial e ambígua. Não se trata de refutar Habermas, mas de reconhecer que sua aposta na razão comunicativa é um horizonte necessário, ainda que nunca plenamente alcançável. Nem por isso deixa de ser um ato de fé no outro, mesmo diante da nossa dificuldade de compreender.
Neste mundo em que os algoritmos prometem conexões perfeitas, mas nos encerram em bolhas, difundem o ódio e promovem o dissenso, romper essa babel reclama um duplo processo: político e terapêutico. Por um lado, urge reconstruir uma esfera pública autêntica, analógica, nas escolas, praças, ruas e bares; por outro, levar o ser humano ao encontro de si mesmo, num mergulho interior mediado por outro humano especializado, que conhecemos pelo nome de psicólogo ou psicanalista. É preciso tratar as máquinas como ferramentas e não como substitutos da política, recobrar o sentido da vida, ir em direção aos outros no agir coletivo, saindo da solidão e do ensimesmamento.
É preciso, sobretudo, reconhecer que a incompletude da comunicação não é uma derrota para a democracia ou para o ser humano. Nem, tampouco, a afirmação de vitória do algoritmo. É apenas a confirmação de nossa condição humana, que reclama tanto Habermas quanto Jaspers. Reclama disposição para compreender e vontade para construir sempre, com os olhos voltados para a inclusão dos que aqui estão e dos que virão.
Bibliografia:
BRANT, Sebastian. A nau dos insensatos. Editora Octavo, 2010,
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
SRNICEK, Nick. Capitalismo de plataformas. Buenos Aires: Caja Negra, 2018.
VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. Campinas: Editora Crítica, 2025.
VIANNA, Luiz Werneck. “O problema da cidadania na hora da transição democrática”. In: Dados, Rio de Janeiro, vol. 26, n. 3, 1983.
