A escola pública de São Paulo está sendo fatiada em dados. A obsessão por métricas e contratos tecnológicos está asfixiando o pensamento crítico e transformando jovens em meros ‘inputs’ de um sistema de controle. É quando o ensino deixa de ser o ‘método da vida’ para se tornar subproduto do Big Data.
O governo do Estado de São Paulo adotou, na educação pública, um sistema de métricas desumanizado, típico do capitalismo de plataformas. Com isso, o processo educacional passa a ser organizado menos pelo olhar do especialista, que é o professor, e mais por padrões de probabilidade estatística produzidos por sistemas automatizados. Não é evidente que esse modelo seja capaz de estimular a autonomia intelectual dos estudantes, isto é, de ajudá-los a construir o senso crítico necessário para a vida em sociedade. É mais plausível que produza um tipo de adestramento funcional, voltado tanto às exigências do mercado de trabalho quanto à manipulação política.
Nesse cenário, a escola deixa de ser um espaço de liberdade intelectual e passa a ser capturada pela suposta neutralidade corporativa da lógica algorítmica. Tal neutralidade, porém, é uma farsa. Aquilo que se apresenta como um filtro tecnológico “neutro” constitui, na realidade, uma posição política agressiva sobre o mundo: uma posição que tende a excluir a crítica, o contraditório e a própria reflexão humana.
O filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, alerta que essa obsessão por métricas não é inocente. O algoritmo torna-se o novo chicote da sociedade do desempenho, na qual a autoexploração substitui a autonomia. Essa leitura remete às análises de Michel Foucault em Vigiar e Punir, nas quais o poder se exerce por meio da internalização da vigilância. No campo educacional, a governança por algoritmos produz exatamente esse efeito: o controle deixa de ser apenas externo e passa a ser incorporado como regra de funcionamento do próprio espírito do sistema.
A crescente ênfase em indicadores quantitativos, alimentados por sistemas de monitoramento que transforam em dado o rendimento escolar (como o SARESP1), mascara a qualidade efetiva da educação. Mais do que isso, tal lógica subordina a atividade docente a procedimentos previamente definidos, submetendo a autonomia do professor à régua binária do algoritmo. O docente fica reduzido à condição de mero cumpridor de metas, privado da liberdade necessária para mobilizar o “inesperado” pedagógico.
Nesse processo, os estudantes deixam de ser percebidos como sujeitos complexos e singulares. Transformados em meros inputs mensuráveis dentro de um sistema de indicadores, perdem a possibilidade de desenvolver plenamente o seu potencial criativo.
Quando, por meio de contratos tecnológicos pouco transparentes, o governante de turno subordina o pensamento crítico à eficiência processual, não temos um liberal governando, mas um tecnocrata autoritário. Na escola deve-se ensinar o “método da vida”, não a industrialização seriada do pensamento. Os jovens, sobretudo os mais humildes, não são matéria-prima vazia para alimentar o big data. Eles carregam as imperfeições e as potências da sua condição histórica e social. Submetê-los a itinerários baratos de formação técnica, que recompensam a conformidade em vez da criatividade, é condená-los à menoridade intelectual. É quando a escola morre para a liberdade.
- Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. ↩︎

ROGÉRIO.
1) parece que a sociedade da dois passos pra frente é recua um.
Essa quadra da história é de recuo.
2) enquanto os países com elevado nível eduardo retiram os computadores das salas de aula, aqui ele está sendo endeusado.
3) será que o Tarcísio adota essa política de forma intencional , sabendo que está a daa bigtechs ( a la trump), ou é um inocente útil?
Parabéns, pela excelente reflexão.
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