O deserto e o grito: a morte dos lugares e a ascensão do ódio

Ao perdermos o chão comum, perdemos a capacidade de distinguir a verdade da mentira, tornando-nos presas fáceis para narrativas que se alimentam do medo. No rastro dessa desolação, o bolsonarismo e seus pares globais surgem não como causas, mas como sintomas de uma sociedade que esqueceu como se encontrar.

A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

Milan Kundera – O Livro do Risos e do Esquecimento

O bar fechado na esquina não é apenas um negócio que faliu. É um sintoma. Quando desaparecem os lugares onde as pessoas se reconhecem, o que resta não é o silêncio, mas o grito. O clamor que sustenta figuras como Bolsonaro, Trump e Le Pen nasceu do vazio deixado pela erosão sistemática dos espaços onde a política e a humanidade ainda faziam sentido. A França perdeu 18 mil bares e tabacarias em vinte anos[1], e com eles, os últimos redutos onde trabalhadores, aposentados, imigrantes e estudantes podiam se encontrar sem a mediação de algoritmos ou cartões de crédito.

No Brasil, a desertificação foi mais profunda. Não foram apenas os bares. Foram as fábricas, os sindicatos, as praças e os terreiros. Esses espaços nunca foram paraísos de harmonia: a fábrica era local de exploração; o bar, muitas vezes, de exclusão. Mas eram lugares de fricção, onde se aprendia que o outro, mesmo adversário, era um semelhante. A democracia ali não era um conjunto de regras abstratas, mas uma prática cotidiana, imperfeita, de convivência.

Ferdinand Tönnies já diagnosticava, no século XIX, a passagem da Gemeinschaft — a comunidade orgânica, enraizada em laços de proximidade — para a Gesellschaft, a sociedade contratual e impessoal. Mas o que vemos hoje é o colapso do próprio contrato. O capitalismo flexível, como mostrou Richard Sennett, transformou o filho do operário em um “consultor” nômade ou um entregador gerenciado por algoritmos. Sem sindicato ou bairro, esse jovem vive sem narrativas estáveis, preso à ilusão de que a precariedade é “liberdade”. Onde a fábrica ruiu, restou o galpão abandonado; onde o bar resistia, instalou-se o food park asséptico, projetado para o consumo digital, não para o encontro.

Nesse vácuo, a sociabilidade não morreu, mas migrou. Onde o Estado e a convivência civil recuaram, as igrejas neopentecostais avançaram, tornando-se os novos (e muitas vezes únicos) centros de acolhimento e identidade nas periferias. Elas ocuparam o lugar do sindicato e do clube, oferecendo uma rede de proteção que o mercado nega, mas sob a condição de uma adesão a pautas morais rígidas e a uma gramática de “nós contra eles”. A fé tornou-se o último refúgio de quem foi expulso da praça pública.

Zygmunt Bauman, em Vidas Desperdiçadas, mostrou como a modernidade produz os “descartáveis”. O bolsonarismo e a extrema-direita global são a política que ocupa esse deserto. Quando o bar fecha e a igreja é a única porta aberta, a visão de mundo se estreita. Quando a fábrica demite, o algoritmo isola. Por isso, o 8 de janeiro de 2023, embora tenha contado com articulação política e financiamento, manifestou-se como um ato de raiva catártica e desordenada. Foi o ápice de um processo de alienação, no qual pessoas que, sentindo-se abandonadas pela democracia institucional, tentaram queimar seus símbolos por não possuírem mais lugares onde construir alternativas reais.

Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, alertava que o isolamento é o terreno fértil para o autoritarismo. O súdito ideal não é o ignorante, mas aquele que, sem espaços coletivos para validar a realidade, não distingue mais a verdade da mentira. O bolsonarismo é filho desse isolamento. Seu discurso não precisa de propostas; alimenta-se da eleição de inimigos como o STF, os “globalistas”, as minorias. São as “vidas desperdiçadas” que o sistema não quer integrar, mas gerir através do medo e da punição. Não é acidente que o Brasil tenha uma das maiores populações carcerárias do mundo, majoritariamente negra, ou que ataques a terreiros tenham escalado. É a gestão do “lixo humano” por meio da força, onde a coesão social faliu.

O que fazer quando os lugares desaparecem? A resposta não pode ser apenas digital. As redes sociais são o oposto da sociabilidade. Elas oferecem conexão, mas aprofundam o isolamento. O desafio é reconstruir o encontro físico. Prédios ocupados que viram centros culturais, bares que resistem como pontos de debate, praças que negam a privatização. Escrever, nesse contexto, é um ato de resistência. Não para substituir o encontro, mas para convocá-lo e nomear o que perdemos antes que o esquecimento seja total.

Referências

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

BORDENET, Camille. La disparition des bars-tabacs, lieux de sociabilité, nourrit la progression du vote RN, selon une étude. Le Monde, Paris, 02 fev. 2026. Disponível em: < https://www.lemonde.fr/societe/article/2026/02/02/la-disparition-des-bars-tabacs-lieux-de-sociabilite-nourrit-la-progression-du-vote-rn-selon-une-etude_6665042_3224.html.>  Acesso em: 06 fev. 2026.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.

TÖNNIES, Ferdinand. Comunidad y sociedad. Buenos Aires: Losada, 1947.


[1] La disparition des bars-tabacs, lieux de sociabilité, nourrit la progression du vote RN, selon une étude. Le Monde, Paris, 02 fev. 2026.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

Um comentário

  1. O medo é uma das ferramentas mais eficazes de manipulação social porque opera diretamente no nosso sistema de sobrevivência, anulando a racionalidade.

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