O Partido dos Trabalhadores nasceu prometendo romper com o atraso da política brasileira. Quatro décadas depois, sua trajetória revela um processo recorrente de acomodação estrutural ao sistema que prometeu transformar. Um projeto moderno, ascético e democratizante acabou reproduzindo o patrimonialismo que pretendia superar. O atraso passou a ser utilizado como vantagem para a manutenção no poder, num movimento que ajuda a explicar os limites do partido.
O Partido dos Trabalhadores nasceu como expressão do moderno na sociedade brasileira. Fundado em 1980, no calor das greves do ABC paulista, o PT se apresentava como um partido de massas, apoiado nos movimentos sociais, crítico do patrimonialismo, do clientelismo e da promiscuidade entre Estado e elites econômicas que historicamente estruturavam a política nacional. Seu discurso inicial era marcado por um ascetismo quase puritano, que afirmava a recusa de alianças com a chamada velha política e sustentava a crença de que disciplina militante, moralidade pública e conflito social organizado poderiam, enfim, redimir o Brasil de seus pecados originais.
Havia ali algo análogo à ética ascética descrita por Max Weber: uma convicção de que a retidão dos meios garantiria a legitimidade dos fins. Assim como no protestantismo analisado por Weber, não se tratava apenas de um programa político, mas de um ethos, um caráter. O PT não prometia apenas governar melhor; prometia governar de outro modo, ser diferente. Donde seu distanciamento da esquerda histórica, do PCB e do PTB.
Entretanto, como o próprio Weber advertiu ao final de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o ascetismo, quando confrontado com a vida vivida, tende a produzir efeitos que escapam ao controle do ator. A disciplina que pretendia libertar o sujeito acaba por aprisioná-lo na “jaula de ferro” das estruturas que ajudou a criar, e o partido fica sem saída. Com o PT não foi diferente. Ao chegar ao poder, o partido se afastou dos seus princípios de forma súbita ou deliberada, algo que não importa para a nossa análise, e foi progressivamente capturado pelas engrenagens do sistema político que prometia transformar.
A “Carta ao Povo Brasileiro”, em 2002, marcou simbolicamente esse ponto de inflexão. Não foi uma rendição completa nem um gesto isolado, mas o sinal de uma escolha estratégica de acalmar os mercados e as elites políticas para viabilizar a chegada ao governo. A partir daí, o PT passou a operar cada vez mais dentro das regras do jogo, aceitando limites estruturais que, antes, pretendia questionar. O projeto de transformação cedeu lugar à lógica da adaptação. O Atraso como vantagem.
O Brasil, afinal, não é apenas um país marcado pelo atraso institucional; é um país em que esse atraso funciona como recurso político. O patrimonialismo, a concentração de poder e a cidadania incompleta não são meros resíduos do passado, mas elementos ativamente mobilizados para a manutenção de hierarquias sociais. O PT, que surgiu como um projeto moderno e democratizante, acabou aprendendo a operar nesse terreno. Em vez de desmontar o atraso, passou a extrair dele vantagens políticas.
Esse movimento não é exclusivo do caso brasileiro. Claus Offe, ao analisar os partidos social-democratas da Europa Ocidental, mostrou como, ao chegarem ao poder, eles abandonaram projetos de superação do capitalismo e passaram a administrá-lo por meio do welfare state keynesiano. Não se tratou necessariamente traição, mas de uma adaptação funcional às restrições impostas pelo próprio sistema. No Brasil, porém, essa adaptação ocorreu no contexto perverso de um capitalismo politicamente orientado, no qual o Estado opera como extensão dos interesses privados das elites.
É nesse ponto que a análise de Raymundo Faoro se torna central. O Estado brasileiro, historicamente, não se autonomizou da lógica patrimonial; ao contrário, tornou-se seu principal instrumento. O PT, ao invés de romper com essa estrutura, acabou sendo por ela absorvido. Nascido para combater o patrimonialismo, passou a reproduzi-lo. E não fez isso por fatalismo histórico, mas por escolhas políticas sucessivas justificadas em nome da governabilidade e da permanência no poder.
Essa trajetória não foi linear nem desprovida de contradições. Entre 2003 e 2016, os governos petistas implementaram políticas públicas que transformaram a vida de milhões de brasileiros. Bolsa Família, ProUni e Luz para Todos reduziram a pobreza extrema e ampliaram o acesso a direitos básicos. No entanto, como o próprio Faoro sugere ao afirmar que “o rei dá o que não é seu”, essas políticas operaram majoritariamente dentro da lógica distributiva do Estado patrimonial, que é a de conceder benefícios sem alterar as estruturas que produzem a desigualdade. Não enfrentaram de forma decisiva a concentração fundiária, o sistema tributário regressivo ou a captura privada do Estado.
A questão central não é se o PT “fez algo de bom”, mas se poderia ter feito escolhas diferentes diante das mesmas condições. O partido, de fato, optou por aprofundar alianças com setores fisiológicos, transformar acordos táticos em dependência estrutural e tolerar práticas de corrupção sistêmica como custo da governabilidade. Essas decisões não eram inevitáveis; foram escolhas políticas concretas. Resultaram em vantagens para os colarinhos brancos da legenda, que passaram a fazer parte do patronato político ao custo da manutenção do atraso e do vilipêndio da república.
Nesse sentido, a trajetória do PT guarda semelhanças inquietantes com a da União Democrática Nacional. A UDN também se apresentou como partido da moralidade e da ordem contra o “populismo”, mas seu discurso ético funcionava como fachada para a defesa dos interesses das elites. Incapaz de construir uma alternativa democrática, acabou apoiando o golpe de 1964. Evidentemente, PT e UDN não são equivalentes em projeto ou ideologia, mas compartilham o uso recorrente do moralismo político, primeiro como distinção identitária, depois como instrumento retórico esvaziado.
A punição aos parlamentares que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral e o slogan “diferente de tudo isso que está aí”, na campanha para a prefeitura de São Paulo em 1985, expressavam essa ética da distinção. Ao chegar ao poder, o PT reproduziu práticas que antes denunciava e fez alianças com o PMDB, loteou cargos, usou o Estado como moeda de troca. A diferença prometida dissolveu-se na prática cotidiana do poder, reduzindo a cidadania a uma relação clientelista: direitos concedidos como benesses, pagos com o suor do próprio trabalho.
É verdade que governar em um sistema presidencialista multipartidário exige negociação e construção de maiorias. A questão não é se um partido de esquerda deve fazer alianças, mas com quem, em que termos e sob quais limites. O PT cruzou esses limites quando transformou a negociação em método permanente de cooptação e passou a depender estruturalmente de partidos fisiológicos, sem compromisso programático com a democracia da Constituição de 1988.
Hoje, discute-se a possibilidade de alianças do PT com partidos como MDB ou PSD para a sucessão presidencial de 2026. Até o momento, trata-se de uma conjectura e não de um fato consumado, mas levanta questões relevantes, pois esses partidos abrigam setores que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 — interpretado pelos petistas como golpe — e relativizaram ou apoiaram a tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023. Alianças amplas podem ser necessárias para derrotar a extrema-direita, mas tornam-se contraproducentes quando não exigem compromissos democráticos claros e não se dão dentro de limites republicanos. Afinal, o Estado não é butim de uma patota.
Em 1889, após a Proclamação da República, Aristides Lobo escreveu que “o povo assistiu a tudo bestializado”. A frase tornou-se célebre, ainda que relativizada por José Murilo de Carvalho, que mostrou como a exclusão popular foi mais construída do que natural. Mais de um século depois, a imagem ainda ressoa. Projetos que prometem ruptura frequentemente resultam em rearranjos entre elites, enquanto a participação popular permanece limitada. Mudar para manter tudo como está é o que orienta Tancredi ao seu tio, no clássico O leopardo, de Lampedusa.
O PT almejou ser um instrumento de emancipação profunda, mas se tornou mais um ator da “viagem redonda” descrita por Faoro. A capacidade quase infinita do Estado patrimonial de absorver e neutralizar projetos reformadores se fez valer sobre o partido das greves operárias do ABC. Isso não explica, por si só, a ascensão do bolsonarismo. A extrema-direita resulta também da crise econômica de 2014–2016, da polarização digital, do conservadorismo moral e de tendências globais autoritárias. Reduzir o bolsonarismo à “traição petista” seria analiticamente pobre e politicamente irresponsável.
Ainda assim, a frustração com o PT alimentou o cinismo político que abriu espaço para o autoritarismo. Se até o partido que prometia mudar tudo acabou se adaptando ao sistema, por que não apostar em quem rejeita abertamente a democracia? O bolsonarismo é, nesse sentido, menos uma ruptura do que uma radicalização do desencanto.
Há saída para a viagem redonda?
A história do PT é, em muitos aspectos, a história da política brasileira: um projeto que nasceu com pretensões transformadoras foi progressivamente acomodado pelas estruturas que prometera enfrentar. A saída dos democratas, como entendo, não está no retorno nostálgico ao ascetismo dos anos 1980, nem no purismo moral incompatível com a complexidade do governo. Tampouco está no pragmatismo sem princípios.
Superar a viagem redonda exige combinar negociação política com limites éticos claros; alianças amplas com compromissos programáticos explícitos; exercício do poder com transparência e prestação permanente de contas. Exige enfrentar as causas estruturais da desigualdade sem reproduzir os vícios do patrimonialismo. Exige não acomodar com o atraso e assumir o moderno e o moderníssimo, com todos os seus riscos.
Se o PT optar por alianças que ignorem esses limites, confirmará sua acomodação definitiva ao atraso. Se, ao contrário, houver resistência interna e externa capaz de formular alternativas concretas, ainda é possível interromper a viagem redonda. A história permanece aberta. A pergunta não é se o poder corrompe inevitavelmente, mas se é possível exercê-lo sem abdicar do projeto que lhe deu origem.
Referências
CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. 3ª ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 8ª ed. São Paulo: Globo, 1989.
LAMPEDUSA. T. di. O Leopardo. 3ª edição. São Paulo: Editora Difel, 1963.
OFFE, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
VIANNA, Luiz Werneck. Vantagens do moderno, vantagens do atraso. In: A transição: da Constituinte à sucessão presidencial. Rio de Janeiro: Revan, 1989.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 6ª ed. São Paulo: Pioneira, 1989.

Admirável e brilhante texto! Não é possível comparar o PT de hoje com suas idéias e fundamentos com o que existe hoje, para mim perderam a rota dos ideais propostos!!! A possibilidade do ressurgimento ou renascimento da extrema direita muito assusta. Precisamos sim de uma centro esquerda forte e que atenda os princípios da democracia!!!
Um breve resumo do histórico do projeto Lula/PT no governo:
Em 2002, Lula firma aliança eleitoral com Zé Alencar (político conservador de MG, megaempresário) e assume um governo em dificuldade econômica, pra dizer o mínimo, herdando acordo com FMI etc. Aos poucos, estabiliza a economia e recupera certa confiança da população no progresso do Brasil.
Ressalto a tentativa de Lula em construir uma relação de cooperação com a iniciativa privada, entidades patronais e sindicatos, no Conselhão, presidido pelo ex-governador gaúcho Tarso Genro, e suas reuniões periódicas com CNI, FIESP, CUT – empresários e trabalhadores. E de estabelecer uma “institucionalide” no Judiciário e PGR, nomeando sempre o primeiro da lista tríplice do Ministério Público pra Procurador-Geral e diversificando os ministros do STF (o primeiro negro, Joaquim Barbosa, uma mulher, Carmem Lúcia, um conservador, Menezes Direito, um progressista, Lewandowski, um moderado, Peluzzo, e assim por diante).
Tudo começa a piorar com os ataques maciços contra o PT no mensalão, há 20 anos, desencadeado por Roberto Jefferson (do PTB, que você citou como de “esquerda”, do qual, junto com PCB, o PT se distanciou).
Intensificou-se com o desastroso comportamento de Joaquim Barbosa no STF; agrava-se com o lavajatismo de Moro/Dalagnol/TRF4; o golpe midiático-parlamentar do impeachment de Dilma; segue com a prisão arbitrária do Lula e chegou ao ápice com a eleição de Bolsonaro.
Temos, ainda, que considerar que, nesse caminho, o PT perdeu quadros fundamentais, como Betinho, o samurai Gushiken, Marco Aurélio Garcia, Paul Singer, Maria Conceição Tavares, além do aliado do campo conservador Zé Alencar…
Para as eleições de 2022, Lula “reiventou” a Frente Ampla com Alckmin, que se estendeu ao MDB de Simone Tebet e setores do que restou do PSDB, como Pérsico Arida, Malan entre outros, para enfrentar a máquina estatal bolsonarista (gabinete do ódio, PRF, setores das FFAA, igrejas neopentecostais, mídias digitais e suas fake news, orgãos de imprensa etc.) e teve que lidar com os 5.ª Colunas (como Ciro Gomes e radicais da extrema-esquerda dos nanicos PCO e tais).
Ficou evidente a dificuldade de montar uma equipe ministerial de alto nível, destaque aos “desastres” Arielle Franco, que destruiu o talvez mais promissor quadro, seu amigo Silvio de Almeida, e o pífio secretário de Comunicação Social, Paulo Pimenta.
A nova reeleição de Lula e a prisão de Bolsonaro et caterva foram um “alento”, mas a volta de Trump colocou o País na mira da Guerra Híbrida, alvo do tarifaço e de intensas pressões econômicas e políticas, às quais Lula, com muita sabedoria e cautela, tem contornado com algum êxito.
Concluindo:
Na trajetória dos primeiros governos Lula/Dilma, acho que você, ‘data venia’, SUBVALORIZOU a importância dos inúmeros programas estratégicos – Bolsa Família, ProUni, Fies, Minha Casa Minha Vida, Luz pra Todos, agricultura familiar (Lei 11.326/2006), Rede de Saúde (UPA, UBS, SAMU, Mais Médicos), abertura de novas universidades e institutos federais) entre tantos outros – ao classificar como “ascetismo” e ao invés de compreendê-los como “políticas públicas emancipatórias” e fundamentais para romper a tradição patrimonialista do Estado.
O saldo foi, entre outras coisas: i) a redução brutal da miséria; ii) a mudança de status de devedor do FMI para credor; iii) a consolidação da economia nas 10 maiores do mundo; iv) a conquista de considerável reserva internacional, em torno de U$ 360 bi; v) a reinserção na geopolítica global, com BRICS, Mercosul e G20; vi) a estabilidade econômica, aumento do emprego e renda da população.
Neste mandato, apesar de um Congresso extremamente hostil, avançou-se com a criação do Núcleo Estratégico de Combate ao Crime Organizado, sob orientação dos ministérios da Justiça (Polícia Federal, PRF, Força Nacional) e da Fazenda (Receita Federal), para atuar com MPF e Ministérios Públicos estaduais; da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil e redução da alíquota para R$ 7 mil; e o Gás do Povo*, que contemplará 15 milhões de famílias (± 50 milhões de pessoas, mais que a população da Argentina).
(Além de investimentos na indústria bélica e na modernização das FFAA, tema a que me interesso e que não tem repercussão midiática, apesar de sua importância estratégica, tanto geoeconômica como geopolítica, sobre o qual poderemos falar, especificamente, em outra oportunidade).
Por fim, vejo, hoje, que a tal “polarização” se dá entre o neofascio (com traços de neonazi, perseguição a LGBT+, negros, mulheres, religiões de matriz africana, aporofobia etc.) do bolsonarismo e as forças democráticas (esquerda, centro e direita moderada). Daí a necessidade de Lula/PT buscar uma aliança eleitoral ainda mais heterogênea, que incluirá até mesmo parte do PSD (como Rodrigo Pacheco, em MG) e os diretórios da Bahia e Pernambuco.
*Gás do Povo: me antecipo à eventual crítica de que se trata de “paternalismo” ou algo assim, lembrando que países do G7 e produtores de petróleo/gás, como Irã, Venezuela, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Rússia etc. garantem a oferta de energia ao mercado interno, com preços baixos, via controle estatal e subsídios.