O tempo do samba e o tempo do poder

A controvérsia em torno do enredo da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, que exaltou o presidente Luís Inácio Lula da Silva em ano eleitoral, aponta para algo mais profundo do que uma disputa jurídica sobre os limites da legislação ou um debate moral sobre o uso político do Carnaval. O episódio expõe uma fratura simbólica que aflige o samba: o desvirtuamento de sua origem como espaço de resistência e de preservação da memória popular.


A escola de samba Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Lula está vivo e politicamente ativo. Não bastasse, concorre à reeleição. Isso foi suficiente para que surgissem críticas dos oposicionistas e tentativas de impedir judicialmente o desfile. A própria transmissão televisiva do evento foi objeto de especulações sobre uma censura informal, conforme relatos difundidos em mídias alternativas.

No Carnaval de 2026, Lula não foi o único a receber homenagem em vida. O cantor Ney Matogrosso e o histórico mestre de bateria Mestre Ciça também foram tema de enredos de escolas do Grupo Especial.

Tributos a pessoas vivas, ao menos no Grupo Especial, são raros, mas não excepcionais. Os enredos, em geral, privilegiam figuras históricas e simbólicas. A tradição das escolas é cultivar a memória após a morte, de modo que o Carnaval se consolida mais como ritual de rememoração do que de consagração imediata. Os sambas-enredo tradicionalmente fazem referência a personagens históricos ou a temas simbólicos, coletivos ou míticos. Ainda assim, é possível lembrar de alguns homenageados neste século, como Silvio Santos (2001), Nilton Santos (2002), Xuxa (2004), Roberto Carlos (2011), José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (2014), Ivete Sangalo (2017), Elza Soares (2020), Martinho da Vila (2022) e Arlindo Cruz (2023).

O samba como memória

Apesar de ter se tornado negócio e entretenimento, o samba nasceu como forma de transmissão cultural em um contexto de exclusão. A República, surgida apenas um ano após a Abolição, caracterizava-se pelo analfabetismo forçado da população negra e pobre, pela repressão policial e pela herança da escravidão, que incluía a ruptura violenta das linhagens africanas. Tratava-se, de fato, de uma República muito pouco pública e nada democrática.

Nesses termos, o samba praticado nos morros cumpria a função de um canto responsal de matriz africana, no qual o grupo é ativo e constrói coletivamente o canto. Ele retomava os pontos dos terreiros em sua batida e narrava mitos transmitidos de geração em geração; isto é, guardava, repetia e atualizava a memória coletiva em um ambiente urbano que, sob a reforma promovida por Pereira Passos, excluía e europeizava a cidade. Essa tensão entre cultura popular e projeto civilizatório é, por exemplo, o pano de fundo que estrutura O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Por fim, é preciso lembrar, dando um salto do samba ao Carnaval, que há um ritual a ser seguido. A função original da festa guarda paralelos profundos com a lógica do samba. Há obediência a um calendário cíclico (como nas festas de santos), respeito a hierarquias internas (velhos, mestres e iniciados), vestimentas codificadas, lugares sagrados (barracão, quadra, avenida) e uma narrativa mítica (o enredo). O desfile, sobretudo, não conta “apenas” uma história: ele reatualiza uma presença. Aqui se manifesta a lógica ancestral africana segundo a qual o passado não está morto e os ancestrais intervêm no presente; lembrar, portanto, é um ato ativo.

Esse é o motivo pelo qual o samba preferiu, durante décadas, heróis mortos. Eles são figuras assentadas, cuja imagem não oscila mais. Uma pessoa viva está em trânsito, não é ancestral e pode se contradizer. Isso rompe o pacto ritual do samba-enredo, que nada mais é do que um mito cantado, uma forma de dar corpo à memória, de invocar, como nos terreiros da religiosidade africana. Daí decorrem os exageros e a sacralização.

Quando o Carnaval homenageia um vivo, desloca o eixo da ancestralidade e se transforma em afirmação política ou comercial imediata. Perde sua conexão com a raiz histórica e popular da qual vicejou. De narrativa de longa duração, converte-se em instrumento de curto prazo, típico de um mundo em que o capital financeiro tende a desumanizar tudo.

O samba como expressão de uma República popular

Desde sua origem, o samba se organizou como espaço de sociabilidade autônoma, com sistemas e hierarquias próprias, ética comunitária baseada na oralidade e resistência simbólica à cidadania negada aos pretos e pobres, aos que viviam à margem. O circuito formado por Tia Ciata, casas de santo, rodas de samba, terreiros e ruas — passível de reconstrução imaginária — constitui uma forma de autogoverno cultural. Não por acaso, ele floresce quando a República exclui os ex-escravizados e os pobres urbanos. O samba não celebra a República oficial; ele a substitui simbolicamente, como se pode depreender da leitura de Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho.

Nicolau Sevcenko, em Literatura como Missão, e João do Rio, em A Alma Encantadora das Ruas, ajudam a compreender o contexto de nascimento do samba. Ele surgiu criminalizado, foi tolerado, apropriado, estetizado e confinado. Hoje, o Estado e as elites dizem ao mundo: “isso nos representa”. Mas sob condições bem definidas. O sambódromo cumpre esse papel. Ele expressa a exigência de ordem, espetáculo, previsibilidade e controle. Nele, o popular espontâneo é enquadrado e transformado em negócio, com liberdade mínima, visibilidade máxima e transgressão coreografada.

É um insulto à inteligência a existência de críticos que enxergam no Carnaval apenas libertinagem ou desperdício de dinheiro. Essas leituras ignoram a origem do que condenam e desconhecem que o sambódromo já realizou o trabalho sujo de domesticar aquilo que um dia foi transgressão real.

Não bastasse essa domesticação, o samba também foi capturado pelo poder informal. Em muitas escolas, instaurou-se um sistema de patronagem no qual figuras ligadas, por exemplo, ao jogo do bicho, oferecem proteção financeira e garantem a profissionalização estética das agremiações, mantendo-as sob dependência política e econômica. A histórica ausência do Estado nas periferias criou um vácuo preenchido pelo patrono, que reconfigura a herança popular. Com isso, o samba deixa de ser apenas expressão comunitária e passa a funcionar como ativo simbólico, moeda de influência e instrumento de legitimação de poder.

O caso da Acadêmicos de Niterói exaltando o presidente Lula da Silva em ano eleitoral é exemplar, não pelo conteúdo ideológico, mas pelo deslocamento simbólico que expressa. Com essa homenagem, o Carnaval deixa de atualizar a memória de longa duração e abandona o tempo mítico. Entra no tempo curto da conjuntura: o ritual transforma-se em declaração, a ancestralidade vira palavra de ordem. Algo do pacto simbólico se rompe. É o tempo do capitalismo, do marketing, do negócio. A política já foi dominada há muito.

A instrumentalização, contudo, não significa traição ao samba ou às suas origens. Em chave positiva, pode-se dizer que o samba venceu e, por isso, passou a ser disputado. Isso ocorre porque a cultura popular se tornou relevante. O desconforto que muitos exprimem em chave moral é, na verdade, histórico. Um ritual de resistência dos pretos, dos pobres e dos excluídos opera agora no mundo da mídia, do marketing, dos negócios e da política profissional. Apesar das apropriações e capturas, os protagonistas continuam sendo os humildes do morro e das favelas, não a grã-fina do “narinas de cadáver”, personagem de Nelson Rodrigues.

Nascido como contra-República, o samba tornou-se símbolo da identidade nacional. Domesticado, transformou-se em campo de disputas simbólicas entre comunidade, mercado, poder e política. A denúncia moral contra o desfile da Acadêmicos de Niterói parte, em geral, de quem nunca reconheceu no samba uma forma legítima de cultura. No fundo, essa gente jamais aceitou que os protagonistas dessa história fossem os humildes do morro e das favelas.

Viva o samba. Viva o povo brasileiro.

Referências:

Azevedo, Aluísio Azevedo. O Cortiço. Rio de Janeiro: Ediouro, 2011.

Carvalho, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras. 1987.

Rio, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1987.

Rodrigues, Nelson. À sombra das chuteiras imortais : crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Sevcenko, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na primeira república.  São Paulo: Brasiliense. 1989.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

3 comentários

  1. Desde jovem aprendi que o mundo é evolutivo e se é verdade acontece em todos os sentidos, inclusive com o carnaval que é a maior expressão cultural do nosso povo. Aí está uma grande mudança ou redirecionamente de valores e reconhecimento!

  2. Excelente texto, uma abordagem forte, direta e eficiente que transmite na “cadência do samba” a descência da crítica que faz a ancestralidade e os de agora, pular com o enredo forte e resistente de suas palavras. Parabéns 👏🏿✊🏿

  3. Obrigado professor Rogério Baptistini! O artigo é uma aula de cultura e ciências políticas e sociais, que deveria ser lido pelos ignorantes ou oportunistas que desfilam idiotices pelas redes sociais!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *