Ratinho, o Torquemada de botequim

Em um país onde a televisão há décadas transforma a miséria em espetáculo e a política em circo, não surpreende que um ex-feirante enriquecido, donatário de concessões públicas e pai de um governador, use seu programa para vomitar preconceitos contra minorias. O que espanta é a naturalidade com que a sociedade aceita que um bufão como Ratinho encarne o pior do homem médio brasileiro: ignorante, endinheirado e certo de que o dinheiro compra até o direito de definir quem é mulher.


Eu cresci ouvindo Raul Seixas. Devo esse bom gosto ao meu amigo, já falecido, Renato Conde. Em uma de suas canções, o rocker baiano dizia que também iria reclamar. E eu reclamo igualmente. Os jecas ganharam dinheiro explorando a miséria e tornaram-se fascistas. Na verdade, creio que sempre foram fascistas, no sentido de que a ignorância e o ressentimento degeneram em fascismo. Essa é uma menção livre a Wilhelm Reich.

Um populista televisivo, alcunhado Ratinho, que de feirante passou a radialista e, daí, a apresentador de TV, transformando tragédias sociais em entretenimento, resolveu posar de discriminador mais uma vez, como um Torquemada que envia à fogueira os que estão fora da graça. E, como é típico desses valentes endinheirados, escolheu uma vítima de um grupo minoritário, não alguém do “andar de cima”. Isso ele nunca fez e nunca fará.

Qualquer sociólogo de botequim sabe que há uma relação entre mídia, poder e manipulação de massas. O autoproclamado rato enriqueceu servindo a esse jogo. E fez um filho governador. Hoje, continua com o único negócio que sabe praticar: o de lacaio. Feirante, vendedor, radialista, apresentador de TV e empresário, não é um membro autêntico da elite, mas um novo-rico. Seu papel é intermediar a relação com a ralé, fazer o jogo sujo. Não é, nem será, o que imagina. Não tem berço. É preciso recorrer ao patriciado de Robert Filmer, destroçado por Locke, para entender do que se trata: a pretensão de uma nobreza de origem que Ratinho não tem e nunca terá.

O interior paranaense, onde o bufão cresceu, permanece como uma marca indelével em seu caráter. Por trás da defesa da causa das pessoas comuns, há apenas a causa própria do bruto que julga os outros pela própria régua da ignorância e do ressentimento, sem perceber que o dinheiro não apaga a origem. A terapia da literatura poderia redimi-lo, mas isso seria pedir demais do pai de um governador que destrói a escola pública. Fitzgerald e seu Gatsby, o novo-rico que compra tudo, menos o que importa, não passam de um filme na plataforma para quem considera a mulher um ser irritante por menstruar, como deixou claro em seu programa no SBT.

O influencer de extrema-direita que é Ratinho, abrigado no SBT, ao atacar a deputada Érica Hilton, nada mais fez do que ser fiel à sua história. Em um país subdesenvolvido, crescido sob a ditadura militar e a censura, com uma elite antipopular e antinacional, Ratinho é a expressão perfeita do homem médio. O boçal modelo: ignorante, endinheirado, inimigo da sociedade política. Em seu mundo, a política é espetáculo, e a humanidade, uma moeda de troca. E vomita sua ignorância, certo de que o dinheiro que tem compra sua impunidade.

Mas sabe ele que Simone de Beauvoir já havia demonstrado, há décadas, que ser mulher não se resume a ter útero ou menstruar, e que sua ignorância é, acima de tudo, uma escolha?

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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