Em 18 de julho de 2026, a BBC Brasil publicou uma matéria sobre o Dia Nacional do Futebol e a história do Sport Club Rio Grande, o clube mais antigo do Brasil. Colaberei com o repórter Edison Veiga para ajudar a enteder como a ditadura militar instrumentalizou o futebol como ferramenta de propaganda, como o Rio Grande resistiu ao esquecimento e por que o 19 de julho — data de fundação do clube — foi escolhido para a efeméride.
A matéria confirma o que sempre defendi: o futebol não é apenas um esporte, mas um campo de disputa política, cultural e social. Enquanto a ditadura tentava domesticar a paixão nacional, clubes como o Rio Grande e figuras como Afonsinho mostravam que o esporte também pode ser resistência.
Abaixo, a entrevista completa, com reflexões sobre história, poder e a centralização do futebol no eixo Rio-São Paulo.
1. Em primeiro lugar, queria falar um pouco sobre a razão da escolha da data. Esse clube do Rio Grande do Sul destoa do imaginário de que o futebol no Brasil tenha “nascido” em São Paulo (com Charles Miller) e no Rio (com os clubes tradicionais cariocas). Como explicar que o clube mais antigo do Brasil seja do Rio Grande do Sul e qual a importância desse Sport Club Rio Grande? Como esse time foi criado, afinal?
O Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900, é oficialmente reconhecido como o clube mais antigo do Brasil em atividade contínua. Mas a história não é tão simples assim. A Ponte Preta, de Campinas, fundada 23 dias depois, em 11 de agosto de 1900, também reivindica um lugar de destaque nessa história: foi criada por um grupo de estudantes do Colégio Culto à Ciência, em Campinas, e sua fundação é amplamente documentada. Há registros que atestam que o futebol já era praticado lá antes da fundação formal do Rio Grande.
O Rio Grande do Sul, com sua forte influência europeia, foi um dos berços do futebol no país. O clube Rio Grande foi fundado por Johannes Minnemann e outros estrangeiros que trouxeram a prática do esporte para a região. Era um clube de elite, mas que abria espaço para operários e funcionários de empresas britânicas, o que o diferenciava dos clubes mais aristocráticos do eixo Rio-São Paulo.
É possível dizer que a importância do Rio Grande reside no fato de ser um clube resistente e que, apesar de fundado por membros da elite europeia, criou raízes populares. Sobreviveu a crises e à hegemonia dos grandes centros, integrando-se à cultura local. Não bastasse, é fundador da Federação Rio-Grandense de Futebol (1918), o que lhe confere participação na institucionalização do futebol gaúcho e brasileiro.
Apesar do pioneirismo, o Rio Grande está afastado dos grandes centros do futebol, que são o Rio de Janeiro e São Paulo. Isso faz com que a sua história seja praticamente desconhecida pela massa dos torcedores.
2. Qual foi a importância da criação desse Dia Nacional do Futebol? Era mais uma tentativa da ditadura de se apropriar do futebol como instrumento de marketing político? O que sabemos sobre os bastidores dessa lei?
Durante a ditadura militar, especialmente a partir do governo Médici, entre 1969 e 1974, o futebol foi transformado em uma das principais ferramentas de propaganda política e controle social do Estado. Essa engrenagem seguiu funcionando no governo seguinte, o de Geisel (1974-1979), quando a CBD, então presidida pelo almirante Heleno Nunes, oficializou o Dia Nacional do Futebol, em 1976. E a escolha do 19 de julho não foi por acaso: era o aniversário do Rio Grande, mas também uma forma de “legitimar o regime” através do esporte mais popular do país.
Apesar de os presidentes militares Médici e Geisel serem gaúchos, o primeiro de Bagé e o segundo de Bento Gonçalves, a escolha da data em alusão à criação do Rio Grande, e não da Ponte Preta, observou o critério histórico incontestável da anterioridade. Havia outros clubes no país criados antes dos dois, como os cariocas Flamengo e Vasco da Gama, por exemplo, mas foram fundados para esportes aquáticos, conforme seus próprios nomes atestam.
Em 1984, no final do regime militar, o Congresso Nacional chancelou e oficializou a data no calendário do país. Até então, a intenção dos militares tinha sido a de utilizar o futebol para obter legitimidade popular para o regime. A Seleção Brasileira, sobretudo, foi um símbolo de identidade nacional e manifestação de ufanismo, para mostrar um país forte e unido. E os campeonatos nacionais e estaduais serviam como distração política e ferramentas de alienação, afastando os olhares do público da censura, da tortura e do exílio dos democratas.
3. Como a ditadura usava o futebol? Podemos citar outros exemplos dessa ligação entre o regime e o esporte?
Como tentei demonstrar na resposta anterior, a ditadura usou o futebol de várias formas. O tricampeonato mundial de 1970, por exemplo, durante um período de brutal repressão política, foi transformado em propaganda oficial. O cinema brasileiro, em 1982, produziu o clássico Pra Frente, Brasil, dirigido por Roberto Farias, que mostra um país inteiro em êxtase, anestesiado pela euforia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, enquanto o protagonista é brutalmente torturado nos porões da ditadura. Este filme foi censurado no período final do regime.
Jogadores como Pelé, que não se posicionavam politicamente, foram usados em campanhas do regime, como a que bradava “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Por outro lado, jogadores como Afonsinho ficaram marcados por sua postura política e enfrentamento ao regime militar, sofrendo perseguição e ganhando o rótulo de subversivos.
4. Do ponto de vista institucional, essas datas comemorativas têm alguma relevância? Não parece que o Dia Nacional do Futebol seja exatamente lembrado, mesmo este sendo o esporte principal do país… Mas neste ano há a coincidência de ser a final da Copa…
Eu creio que, na prática, essa data não tem relevância. Em geral, o Brasil é um país que esquece suas datas cívicas quando não há interesse imediato. O Dia Nacional do Futebol não tem o peso do 7 de Setembro ou do 1º de Maio. E, neste ano, com a final da Copa no mesmo dia, poderia ganhar um significado caso a seleção não tivesse feito uma campanha ridícula.
O futebol, apesar de todo o empenho dos que o exploram financeiramente, ainda é o esporte mais popular do Brasil. Faz parte do cotidiano e não precisa de uma data comemorativa para ser celebrado. No mais, a data é tão insignificante que nem mesmo os clubes e as federações a promovem anualmente.
5. Há alguma explicação peculiar para o Sport Club Rio Grande, apesar de ter tanta história (e não ter fechado as portas), jamais ter se tornado um dos grandes?
Eu não sei responder com exatidão a essa pergunta, mas ouso algumas interpretações.
A primeira é que ser um clube do interior, em um estado afastado do eixo Rio-São Paulo, constituiu um obstáculo. A atenção do público e os investimentos não alcançaram o pioneiro gaúcho, e isso foi determinante para a sua condição.
A segunda, condicionada pela primeira, é que o Estado do Rio Grande do Sul concentrou a nacionalização do futebol na capital. Internacional e Grêmio absorveram o investimento e a atenção da mídia, e os clubes do interior ficaram na lateralidade. É a parte perversa do negócio que esvazia a relação dos clubes com as cidades neste modelo de ligas nacionais voltadas ao jogo como entretenimento.
É importante ressaltar que clubes surgidos nas fábricas, agregando operários nas cidades e acompanhando a expansão das ferrovias, estão mortos ou morrendo. E o primeiro clube de futebol a escalar um jogador negro, o Bangu, da Fábrica de Tecidos Bangu, não é sequer lembrado por muitos como pioneiro na história de nosso futebol. Em 1905, Francisco Carregal se tornou o primeiro negro a jogar formalmente no futebol brasileiro, num país formado por negros e mestiços.
6. Fique à vontade caso queira complementar com informações adicionais e/ou correlatas.
O caso do Rio Grande e do Dia Nacional do Futebol é sintomático de como o Brasil lida com sua história. O que não está no eixo Rio-São Paulo é tratado como periferia; por isso há o pouco conhecimento sobre o Rio Grande. Não bastasse isso, há a tentativa de instrumentalização política dos fatos. A ditadura tentou moldar a história do futebol, assim como fez com a história do país. Mas este esporte pertence à sociedade e resiste.
Entre nós, o futebol é política, cultura, resistência e, também, alienação. A escolha do 19 de julho como Dia Nacional do Futebol é um exemplo de como o Estado tentou domesticar essa paixão. Mas ela resiste, mesmo que, às vezes, de forma desorganizada e caótica.
