Em 1964, os adversários da soberania usaram a imprensa para difundir a ideia de um “perigo comunista” e justificar o golpe. Em 2026, os mesmos instrumentalizam uma citação histórica de Lula para criar instabilidade. A estratégia é antiga: manipular a opinião pública, desestabilizar o governo eleito e impor interesses externos. A democracia brasileira, mais uma vez, está sob ameaça.
Passadas seis décadas do golpe militar que impôs uma longa ditadura sobre a sociedade brasileira, há ainda apologetas de liberticidas e que anseiam a entrega da nação a poderes estrangeiros. Para estes, o que importa é a acumulação privada, não o destino da terra e da gente que a habita. Falam de pátria e de valores, geralmente cristãos, mas suas palavras são vazias.
Na imprensa, nas TVs, rádios, jornais e sites, pululam sujeitos que se prestam a manipular a opinião pública. Exploram a indignação popular com análises enviesadas, apresentadas como isentas. Fazem o trabalho sujo para seus patrões daqui e de fora, ainda que não pretendam. Em sua arrogância, aceitam como normal participar de campanhas de desmoralização de líderes populares sob o pretexto de denunciar corrupção, despreparo ou desvios comportamentais. Emprestam palavrório culto a fuxicos.
René Armand Dreifuss, em obra clássica — 1964: a conquista do Estado1 —, mostra como membros do andar “de cima” articulam seus interesses e usam a imprensa para difundir a ideia de que havia caos social, corrupção e ameaça à ordem. À época, jornais, rádios e TVs atuaram como caixas de ressonância de entidades como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), financiados por empresários e com vínculos com a CIA. Essas organizações promoviam palestras, cursos e produziam filmes, panfletos e relatórios sobre o suposto perigo vermelho, criando uma percepção favorável ao golpe.
Ler Dreifuss hoje é ser levado a pensar na história recente: a deposição de Dilma Rousseff, a prisão de Lula, a destruição de setores estratégicos da economia nacional, como o das grandes construtoras e, sobretudo, o papel da Operação Lava-Jato, com promotores e juízes agindo para erodir a democracia de 1988. A imprensa, especialmente a rede campeã de audiência, foi fundamental nesses processos, manipulando a informação e mobilizando amplos setores da população. O resultado foi a tentativa de um novo golpe, em 8 de janeiro de 2023, um episódio que não pode ser esquecido.
Hoje, os Estados Unidos dão sinais de que seu poder imperial está em declínio, enquanto a nova ordem global ainda não se consolida. Nesse contexto, Donald Trump — um líder que lembra um híbrido de Calígula e Nero2 — busca impor o poder norte-americano sobre a América Latina. Intervém ativamente, sem respeito às soberanias locais, para eleger presidentes submissos a Washington. Esse processo tem sido qualificado como “onda azul” por analistas críticos, embora conservadores o atribuam a fatores internos, como segurança pública ou desgaste de governos de esquerda. O certo é que, assim como documentos desclassificados revelam o monitoramento e a colaboração dos EUA no golpe de 1964, hoje a intervenção nos assuntos internos brasileiros é indisfarçada. A reeleição de Lula é ameaçada por esse projeto trumpista, que conta com aliados locais, como os bolsonaristas.
Nesse contexto, a grosseria e o desrespeito às regras diplomáticas não são casuais. A participação de Javier Milei, um aliado de Trump, na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, por exemplo, não foi um gesto isolado. Foi parte de uma estratégia para criar tumulto e instabilidade. O mesmo vale para a reação exagerada do presidente paraguaio, Santiago Peña, a uma fala de Lula sobre um conflito ocorrido no século XIX. A imprensa brasileira, em vez de contextualizar a fala, uma breve citação factual sobre a invasão do Paraguai ao Brasil em 1864, usada para ilustrar a necessidade de investimentos em defesa nacional, preferiu destacar a crise diplomática, omitindo que a reação foi desproporcional e politicamente motivada.
Durante visita à Avibras, em Jacareí (SP), em 24 de julho, Lula falou da importância de defender a soberania nacional e citou, de forma breve e factual, a invasão do território brasileiro pelo ditador paraguaio Solano López, em 1864, evento que deflagrou a Guerra do Paraguai3. Não houve aprofundamento, juízo de valor ou desrespeito ao povo paraguaio. A fala foi apenas um exemplo histórico para ilustrar a necessidade de investimentos em defesa, visando a proteção do povo e do território nacional.
O presidente paraguaio, Santiago Peña, é um aliado estratégico de Trump. Em fóruns internacionais, o Paraguai tem se alinhado automaticamente a Washington, como ao votar, pela primeira vez, contra resoluções da ONU sobre Cuba e Palestina. Internamente, o país abriu as portas para a interferência norte-americana: permitiu a presença de tropas e equipamentos militares dos EUA sob o pretexto de combate ao terrorismo e firmou parcerias para exploração de minerais críticos, essenciais para a indústria de defesa dos Estados Unidos. Junto com o chileno Kast, o argentino Milei, a recém-empossada presidente peruana Keiko Fujimori, o colombiano Abelardo de la Espriella (cuja posse está marcada para 7 de agosto) e o equatoriano Daniel Noboa, Peña compõe o grupo que lidera a chamada “onda azul”, cercando o Brasil de Lula com governos alinhados aos interesses de Washington.
A cobertura da mídia brasileira sobre a reação de Peña à fala de Lula destacou, com razão, a sensibilidade histórica do povo paraguaio em relação à Guerra do Paraguai. No entanto, ignorou o contexto. Tratou-se de uma breve citação factual, sem intenção ofensiva. A reação desproporcional do governo paraguaio, no entanto, transformou Lula em suposto criador de uma crise diplomática. Poucos analistas ponderaram que Peña age como aliado estratégico de Trump, em uma cruzada contra a soberania brasileira, que visa desestabilizar não apenas o governo, mas as instituições, inclusive o Judiciário.
Um observador atento, amparado na razão e não dominado pelo clima emocional das redes sociais, percebe que a fala de Lula foi instrumentalizada. Os analistas, ainda que sem intenção, ao priorizarem o ruído imediato em vez do contexto, podem estar contribuindo para ampliar o clima de instabilidade e radicalização que já levou, no passado, à deposição de Dilma Rousseff. O padrão é o mesmo de 1964: uma opinião pública mobilizada por questões emocionais, interesses externos agindo de forma deliberada contra o governo eleito e a fabricação de crises para justificar mudanças políticas.
A democracia brasileira da Carta de 1988 e a nossa soberania estão sob ameaça. Não se trata de Lula, mas de quem ataca o Brasil e os brasileiros.
Notas:
- René Dreifuss. 1964: A Conquista do Estado. Ação, Política e Golpe de Classe. Petrópolis: Editora Vozes, 1981. ↩︎
- Recurso retórico livre do autor. ↩︎
- As causas e o caráter da Guerra do Paraguai são objeto de debate historiográfico. Há a leitura tradicional, que enfatiza a agressão de Solano López, e leituras revisionistas, que analisam os interesses britânicos e o expansionismo do Império do Brasil e da Argentina na região do Prata. ↩︎
