Sob o pretexto de ‘defesa da família’ conservadora e cristã, setores neopentecostais tentam impor um adestramento moral que ignora cinco séculos de formação social brasileira. Das raízes da nossa ‘cordialidade’ à sociologia de Florestan Fernandes, o que se vê é um choque entre o Brasil Real e uma identidade fabricada que tenta, em vão, apagar a nossa vocação para a liberdade e para a mistura.
O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói trouxe à tona um tema urgente, que é o uso da fé como ferramenta de enquadramento político e ideológico. Grupos que compõem a chamada bancada evangélica e certas lideranças religiosas empenham-se em projetar uma imagem da identidade nacional que carece de lastro histórico. Tais agentes, por desconhecimento ou conveniência política, ignoram as bases da formação social brasileira, substituindo a nossa trajetória por construções de laboratório que visam obscurecer a complexidade da nossa cultura.
O Brasil não germinou sob a ética protestante ou o ascetismo, que são matrizes fundamentais para a formação dos Estados Unidos. Nossa gênese remonta ao catolicismo lusitano da Contrarreforma, moldado por uma plasticidade tipicamente tropical. Na colônia, a distância da Coroa e do Papado permitiu o florescimento de um catolicismo barroco, focado na estética, na pompa das procissões e no visual, dotado de uma moralidade cotidiana altamente flexível.
A ausência de uma vigilância inquisitorial onipresente permitiu que tradições indígenas e africanas se fundissem ao rito católico. O resultado foi uma espiritualidade mais afetiva do que doutrinária. Nosso sincretismo não é um erro de percurso, mas a marca da fé popular, o que contrasta frontalmente com o rigorismo fundamentalista que se tenta importar hoje.
A Formação do Homem Cordial e a Mistura Tropical
Os intérpretes clássicos do Brasil demonstram que o rigor da norma nunca foi nossa tônica. Sérgio Buarque de Holanda identifica no “homem cordial” um indivíduo cujas relações são pautadas pela emocionalidade e pelo vínculo pessoal, o que frequentemente colide com a impessoalidade das leis e normas rígidas. Gilberto Freyre, por sua vez, descreve como a vida nos trópicos dissolveu as barreiras rígidas da metrópole, gerando uma cultura de adaptação e mistura que se opõe ao ascetismo europeu. Já Paulo Prado, ao tratar da “melancolia” e da sensualidade, reforça a imagem de um povo cujos traços formadores distanciam-se da austeridade bíblica que agora se tenta impor.
Nesse contexto, certas vertentes do neopentecostalismo surgem como um corpo estranho à nossa tradição. A tese de que o Brasil é intrinsecamente conservador, nos moldes do puritanismo anglo-saxão, é uma importação da Teologia da Prosperidade e do modelo de megaigreja americano. Enquanto o catolicismo brasileiro era comunitário e festivo, essa nova vertente foca no individualismo e no sucesso financeiro, sob uma disciplina rígida que ignora o Brasil do carnaval, da malandragem sociológica e do hibridismo religioso.
O Brasil Real sob Ataque
A extrema-direita tenta vender a imagem de uma vila puritana e estática, mas nossa trajetória intelectual e artística aponta para o movimento. O Brasil não é a fotografia amarelada de uma família vitoriana; é um processo em ebulição. O conservadorismo contemporâneo tenta “estancar o tempo”, ignorando que nossa formação é feita de rupturas e adaptações brutais. Como sugere a tradição de Mário e Oswald de Andrade, nosso imaginário é o da antropofagia. Temos a capacidade de deglutir o outro para criar o novo, o que inviabiliza o modelo de família puritana e fechada. Somos, conforme Darcy Ribeiro, a “Nova Roma nos Trópicos”.
A sociologia da USP, com Florestan Fernandes, demonstrou que o conservadorismo no Brasil não é um “valor moral espontâneo”, mas uma estratégia das elites para preservar privilégios dentro de um sistema de capitalismo dependente. Trata-se de um conservadorismo de conveniência, que utiliza a “defesa da família” como ferramenta de controle social para frear transformações reais, como a integração racial e a ascensão das classes populares.
O que assistimos hoje é a fabricação de uma identidade para fins de hegemonia política. Esse discurso sequestra o conceito de “família”, ignorando que, na realidade brasileira, a base familiar é frequentemente uma rede de apoio fluida e matrifocal. Ao impor o modelo patriarcal e a disciplina de quartel, o projeto busca transformar a fluidez da nossa formação em um eleitorado previsível e obediente. É o uso da pauta moral como cortina de fumaça para reformas que aprofundam a exclusão.
O Individualismo contra a Sociedade Relacional
Roberto DaMatta, em Carnavais, Malandros e Heróis, oferece os instrumentos para desmontar esse discurso ao explicar que o Brasil é regido pela lógica do “relacional”. A tentativa de impor o modelo do indivíduo isolado e sujeito à lei fria ignora que, no Brasil, nos definimos por nossas relações (“você sabe com quem está falando?”). Tentar governar a “Rua” (o Estado) apenas com a moralidade da “Casa” (o privado) ou do “Outro Mundo” (o sagrado) rompe o equilíbrio que permite ao brasileiro navegar entre suas múltiplas dimensões.
Em última análise, o projeto político que tenta nos recolonizar com o purismo estrangeiro esbarra na nossa essência “transgressora cordial”. O brasileiro aprecia a norma para exercer a arte de contorná-la com elegância. O projeto de “desbrasileirar o Brasil” através de uma “Lei de Ferro” dificilmente subsistirá ao nosso rosto barroco e à nossa infinita capacidade de adaptação. A política, enfim, sempre acabará esbarrando na indomável cultura popular.
Nota: Este é um ensaio, e o uso dos autores é livre. Gilberto Freyre, mobilizado para a construção do argumento, deve ser visto dentro de seu contexto. O conceito de plasticidade e miscigenação harmônica, apropriado pelas elites brasileiras como ideologia na forma de “democracia racial”, naturaliza as hierarquias e oculta o racismo e a violência. Freyre não é mobilizado para falar de uma sociedade ideal, mas como registro etnográfico de nossa formação, que difere da norte-americana puritana. A mistura entre brancos e negros escravizados existiu e foi violenta, resultando em novas formas de dominação. O Brasil barroco é real; o Brasil justo e democrático, verdadeiramente republicano, permanece como promessa.
Referências:
Fernandes, Florestan. Mudanças sociais no Brasil. Difusão Européia do Livro: São Paulo, 1960.
Freyre, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51. ed. São Paulo: Global, 2006.
Gonçalves, Marcos Augusto. 1922: A Semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Holanda, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Lahuerta, Milton. Os intelectuais e os anos 20: moderno, modernista, modernização. In: LORENZO, Helena; COSTA, Wilma. (org.). A década de 1920 e as origens do Brasil moderno São Paulo: Ed. Unesp. 1997.
Matta, Roberto da. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
Prado, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia., 1931.
Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
