O Paraguai é aqui: a pátria como mercadoria

Em 2025, o Paraguai concedeu mais de 23 mil autorizações de residência a brasileiros. A maioria desses emigrantes se identifica com a extrema-direita bolsonarista e justifica a fuga com um discurso vago: ‘sonho de direita’, ‘fuga da opressão’, ‘menos impostos’. Mas há um detalhe revelador: quando precisam de saúde pública, voltam ao Brasil. O fenômeno expõe uma contradição central do nosso tempo: a classe média que clama pelo Estado mínimo é a mesma que depende dele para sobreviver.


A BBC News Brasil noticia que o Paraguai concedeu, em 2025, mais de 23 mil autorizações de residência para brasileiros. Em matéria assinada por Victor Tavares1, o órgão de mídia informa que, somente nos primeiros meses deste ano, outros 9 mil e 200 vistos foram concedidos aos nativos do Brasil, que dizem buscar o país vizinho em busca de algo vago, como um “sonho de direita” e “fuga da opressão”. A maioria dos que emigram para a terra guarani se identifica com a extrema-direita bolsonarista e o seu patriotismo de vitrine.

Essa contradição, na qual o patriota nega a pátria ou a sabota, não é novidade. Assim como faz a família Bolsonaro, que reclama sanções econômicas sobre o país enquanto o arruína, os que emigram vitimados pela própria imaginação tratam a pátria como uma mercadoria. A transformam num ativo individual e decidem quando usá-la. É como se, quando contrariados, dissessem aos demais: “a pátria é minha e eu decido o que fazer dela”. Essa é a lógica da UDN que, nas décadas de 1950 e 1960, atuava despudoradamente contra o Estado e o governo, contra a corrupção e em favor da liberdade (dos negócios, é óbvio!). O que explica a escolha, atualmente, do Paraguai, uma espécie de paraíso fiscal e ideológico em relação ao Brasil. Um lugar onde se pode viver a fantasia do Estado mínimo, pois, quando houver a necessidade de saúde pública, por exemplo, basta atravessar a fronteira e buscar refúgio no SUS.

Na matéria da BBC, um indivíduo que se apresenta como empresário afirma que outros como ele estão deixando o Brasil para se estabelecer no Paraguai por conta da carga tributária pequena e da menor proteção ao trabalho, que ele qualifica como “leis trabalhistas muito mais acessíveis”. Essas pessoas formam uma classe média cooptada pelo discurso da meritocracia, que se disseminou graças ao esforço combinado de think tanks conservadoras norte-americanas, igrejas que divulgam a teologia da prosperidade e instituições universitárias com ações negociadas na bolsa de valores, além de uma mídia subserviente. A sua crença é a de que os seus privilégios em termos de saúde, educação e segurança, numa sociedade desigual como a brasileira, decorrem do esforço individual, sem relação com políticas públicas e com a ação de um Estado dinamizador do desenvolvimento econômico.

Na verdade, há dois fenômenos combinados por detrás do ressentimento da classe média: o primeiro é a ascensão social do “de baixo”, proporcionada pelo ciclo de governos petistas; o segundo é a própria perda de status derivada da combinação das mudanças tecnológicas que afetam o mundo do trabalho e da financeirização da vida. O abraço ao discurso ultraliberal e contrário aos direitos sociais é como a prática de uma religião secular que promete a salvação individual, o que remete ao avanço dos simulacros de igrejas reformadas com sua teologia da prosperidade. Uma disseminação ideológica eficaz, que usa a Bíblia para a exploração do medo, a desmobilização social e a oferta de uma saída solitária, que depende do esforço e do comportamento ascético do fiel. Daí a imunidade à crítica e à própria realidade. O masoquismo é livremente escolhido como caminho da virtude e da autossuficiência. Lembremos de Wilhelm Reich e de sua análise da pequena burguesia alemã, que aderiu ao nazismo em oposição aos seus próprios interesses2.

Acreditando-se vítima da esquerda, sem liberdade, com o futuro ameaçado pelo comunismo que cobra impostos, taxas e tributos, a classe média brasileira defende o desmonte do Estado e o fim da política. Fecha os olhos para a corrupção privatista das elites. Não percebe que depende de uma rede de proteção pública para viver em segurança e com o destino minimamente planejado. A magia cognitiva que a acomete é potencializada pelos algoritmos fora do controle público, colocados a serviço da manipulação das consciências. É por meio deles que o ressentimento dos que perdem posição social e veem o futuro ameaçado é manipulado em favor dos oligarcas globais das big techs e dos seus sócios das finanças e dos negócios reais. Esses grupos financiam políticos, jornalistas e influenciadores que exploram o medo e a humilhação, direcionando a insatisfação popular contra alvos específicos. Toda a complexidade da vida é reduzida a uma dualidade: o bem contra o mal ou, ainda, para ser mais preciso, menos Estado e mais mercado.

O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto, nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).

Hannah Arendt

Foi Hannah Arendt quem escreveu, em As Origens do Totalitarismo, que o súdito ideal não distingue mais a verdade da mentira3. Essa classe média que migra para o Paraguai ou que apoia a extrema-direita golpista no Brasil é vítima de uma captura cognitiva. Se na história republicana a UDN levou ao suicídio de um presidente e a um golpe de Estado, contemporaneamente a farsa ganhou dimensão com a operação Lava Jato e a cobertura midiática que transformou um juiz de notoriedade regional e um promotor em heróis nacionais. Sem a destruição do sistema de partidos e da reputação dos políticos do campo democrático, dificilmente as elites teriam levado Bolsonaro e a sua família ao proscênio, juntando o ultraliberalismo predatório do público com o conservadorismo autoritário. O discurso de combate à corrupção, que hoje é requentado para emascular o Supremo Tribunal Federal e interferir em mais um processo eleitoral, em 2018, elegeu um sujeito do baixíssimo clero, que fazia da política um negócio para a sua família, operando pequenos esquemas de corrupção. Por trás da ilusão produzida, ocultava-se a intenção manifesta das elites que lucram com a falência do público enquanto realizam a acumulação por espoliação4.

A questão que nos resta é perguntar: como chegamos a este ponto em que brasileiros trocam o país, num momento em que os dados macroeconômicos, em que pese o cenário internacional desfavorável, estão bons, pelo Paraguai? A resposta está além dos limites deste ensaio, mas é possível especular que o avanço do neoliberalismo tenha algo a ver com o problema cognitivo que faz com que as pessoas enxerguem a realidade recoberta pelo véu místico da religião secular da meritocracia e do individualismo possessivo e ressentido.

Desde os anos de 1990, sob o governo Fernando Henrique Cardoso, sob pretexto de modernização, direitos sociais foram encolhidos e o patrimônio público, dilapidado em favor do apetite privatista, processo que culminaria, décadas depois, na reforma trabalhista de 2017, sob Temer, a mais agressiva investida contra a CLT. O país prometido pela redemocratização e pela Carta Constitucional de 1988 passou a ser um sonho distante. E os governos petistas, longe de reorganizarem o curso, mantiveram a rota, não tocando no que mantém a estrutura de privilégios (impostos regressivos, mídia concentrada, judiciário elitista), apenas se ocupando de fazer inclusão social. A crise da Lava Jato e a difusão de que nada presta e tudo está corrompido, pois a promessa não se cumpriu, levaram ao bolsonarismo e à valorização do Estado mínimo, tão caro às elites e aos seus sócios. É a vitória do neoliberalismo e a derrota da Carta de todos os brasileiros.

Na verdade, o Paraguai é aqui. A fantasia do Estado mínimo, a fuga dos impostos e ilusão da autossuficiência individual já está internalizada no Brasil. O que os emigrantes buscam em Ciudad del Este, Assunção ou outra cidade paraguaia é a radicalização de um projeto que, há décadas,  corrói a democracia e os direitos sociais em nosso território, cobrando alto custo humano.

Notas

  1. ‘Somos oprimidos no Brasil’: a onda de brasileiros rumo ao Paraguai em busca de ‘sonho de direita’. Por Vitor Tavares. BBC News Brasil. In: < https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwyw7696n1zo > Acesso em 17/04/2026. ↩︎
  2. A análise está desenvolvida em A Psicologia das Massas do Fascismo (1933), obra em que Reich examina como o autoritarismo é interiorizado pelas classes médias e passa a funcionar como mecanismo de controle social.
    Wilhelm Reich. Psicologia de Massas do Fascismo. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes. 2001. ↩︎
  3. Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. ↩︎
  4. Acumulação por espoliação acontece quando o Estado é esvaziado para que o setor privado ocupe o seu lugar e cobre pelos seus serviços. A ideia é desenvolvida por David Harvey em O Neoliberalismo: história e implicações. 5ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2014. Particularmente no capítulo 4: Desenvolvimentos geográficos desiguais, o autor argumenta que “O enfraquecimento […], a substituição […] ou a destruição violenta da força de trabalho organizada é uma precondição necessária da neoliberalização. Da mesma maneira, esta tem dependido com frequência do poder, da autonomia e da coesão crescentes dos negócios e corporações e de sua capacidade de pressionar o poder do Estado […]. Essa capacidade é exercida com maior facilidade, de maneira direta, por meio de instituições financeiras, dos comportamentos de mercado, da interrupção de investimentos ou da fuga de capitais e, indiretamente, influenciando o resultado de eleições, fazendo lobby, subornando e corrompendo, ou, de forma mais sutil, obtendo o poder sobre as ideias econômicas.” (p. 126). ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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